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Um Filme Por Dia: Agosto de 2017

Categoria: Especial
Por Felipe Leal
Um filme visto e comentado todo dia até o final do mês.

Terça-Feira, dia 1
Corações Loucos
Dir.: Bertrand Blier
1974

Como numa premonição e lamento ao mesmo tempo, assistido no dia da morte de Jeanne Moreau, que nesta obra apelidada da “contra-cultura” de Blier interpreta uma ex-prisioneira (tristemente, mas de propósito) idealizada e melancólica, mais uma no painel de figuras francesas viradas ao avesso representativo que adiantava o pós-Guerra Fria – o estado de esvaziamento total de esperanças de Chantal Akerman. Logo a cultura francesa, esta transbordando de figuras e tipos cristalizados através da literatura, pintura e música. Prostitutas, bandidos, cafetões, viúvas, esposas à espera de maridos (ecos) de uma guerra. Atravessando-os todos, a dupla que dá título ao filme, mas que traduzido da titulação em língua inglesa, diz: “going places”, “indo a lugares” – e é bem esta a atmosfera do filme, um misto de road movie, experimentalismos e política pelos avessos através do comportamento. Criar as próprias regras na medida em que as situações mesmas se desenrolam, sempre indo mais além. Gérard Depardieu mastigando e rindo dos garanhões do cinema de Nicholas Ray, e Patrick Dewaere como um Sancho Pança tarado, dois patetas que são tristes, adoráveis, transgressores e hilários ao mesmo tempo. É o trunfo de Blier: fornecer uma multiplicidade de sentimentos e sensações que ultrapassam qualquer categorização.


Quarta-Feira, dia 2
Estrela Ditosa
Dir.: Frank Borzage
1929

É provavelmente uma das pérolas mais esquecidas do cinema, e também da obra de Borzage. Charles Farrell e Janet Gaynor tem uma força dramática e comovente comparável a do par de enamorados do Desencanto (Brief Encounter, 1945), de David Lean. A narrativa americana clássica em seus princípios de consolidação e com uma força romanesca que se estrutura de forma episódica, com os núcleos de cada protagonista assentando o teor hiper-melodramático da trama: um ex-soldado aleijado e uma moça pobre e sem maneiras, um ensinando ao outro alguma preciosidade que tem o efeito quase de um milagre. As poucas falas amarram todo o roteiro e promovem ligaduras dramáticas do início ao fim, com certas ideias que se repetem como desfecho dos impasses e singularizam a história do casal. Há certo expressionismo no preto e branco, nas linhas, nas árvores um tanto assombrosas, com zonas de escuro e iluminações tão artificiosas quanto vias de enaltecimento do drama, que está todo nos olhos esbugalhados e aguados de Gaynor e no sorriso galanteador de Farrell. Estrela Ditosa é, aliás, a prova de que a química sensível entre dois atores pode elevar uma obra aos louros da imortalidade. Eles se apaixonam no primeiro contato, marcado por uma travessura, e nós, por eles, com a mesma imediatez. Todas as cenas do casal são obras-primas particulares de encenação e doçura. 


Quinta-feira, dia 3
Eva
Dir.: Joseph Losey
1962

Um marido engenheiro e corpulento que pode ou não existir, um documento que pode provar aquilo que se deixa sugerido ou não, um desabafo rapidamente dito mentira que pode muito bem não ser aquilo que sua existência esvaziada deixa entender, agora tocada pelo horror delicioso que é a Primeira Mulher; um homem, enfim, que não sabe se a enforca ou se a beija: quase tudo no filme de Losey é dúbio, os espelhamentos típicos do cinema moderno se proliferam para adensar a virtualidade, os cortes não cortejam mais uma lógica sequencial clara, quase todas as informações sobre os personagens são entregues com o mesmo descaso calculado que assombra o cuidado cênico extremo, sobretudo quando A Mulher entra em jogo. As bordas do quadro, a incidência da luz, os movimentos dos corpos ora desesperados, ora frios, o eixo da câmera sempre deslizando. Se a crítica conceituada apelida Eva como um grande ponto de virada na carreira de Losey, é com a mais sensível razão. “Não se apaixone por mim”, diz ela (Jeanne Moreau novamente brilhante), e a esta altura do filme tudo o que ela deixa transparecer ao escritor miserável pode ser transposto para nós: seu corpo indolente e os enquadramentos que a emolduram perfeitamente não escondem: a câmera não é o olho, é o pensamento que os mais habilidosos diretores querem que tenhamos. E à Moreau, só pode haver a dedicação do mais puro enamoramento. 


Sexta-Feira, dia 4
Como Você É
Dir.: Miles Joris-Peyraffite
2016

Ainda que me entedie (antes só me preocupava) a incapacidade do cinema tido como “LGBT”, ou ao menos aquele que trata de sexualidades desviantes, digamos, de conceber tramas ou resoluções que não recaiam sempre em alguma tragédia, negatividade ou possibilidade de “respirar livremente”, assim como me preocupa o trabalho ainda engatinhando desses mesmos filmes de saber filmar corpos, de colocá-los em relação no espaço encerrado das bordas, ou mesmo com essa angústia e repressão que remetem ao fora de quadro (mas ainda se demarcam no corpo!) – apesar de tudo isso, houve certo agrado diferenciado com a trama em flashback, algo raro e que nos parece batido e esgotado ao mesmo tempo, quando surge, mas que aqui preserva a ansiedade da descoberta do todo, o gosto pelas suas parcelas; de algum modo a juventude de fim de século passado não está “embabacada” ou representada de forma irritante; eis que os jovens são de algum modo aliás bastante atraentes em suas particularidades e desejos à flor da pele: mas um atrativo quase epidérmico e aurático diferente do de Wong Kar-Wai: diferente da evocação pela montagem, Peyrafitte busca algum apelo nas cores, no revival, no carisma misterioso da semelhança dos protagonistas com outros grandes astros (River Phoenix no pequeno Charlie Heaton é quase feitichista), enfim, toda uma nostalgia à uma outra época que não é, aliás, “perfumarista” como La La Land.


Sábado, dia 5
Irmãs Jamais
Dir.: Marco Bellocchio
2011

Faço uma aposta para Irmãs Jamais: a obra de Bellocchio nunca terá o reconhecimento merecido por estar tão próxima do misto (quase) perfeito e quase indiscernível entre a ficção e o documental, ao menos não tanto quanto o Close-Up de Kiarostami. E ainda assim: que estilo é esse, que ora deixa adormece com a mais sutil invisibilidade da câmera, ora, de súbito, surpreende com um zoom enfático, e vem nos acordar do sono esquisito de uma ficção familiar talvez exposta com detalhamento demais, proximidade típica somente ao documental? Que iluminação é essa, decerto um pouco caravaggionesca, essas cores desbotadas e vivas ao mesmo tempo, claramente artificiosas, enquanto que o suporte da câmera revela certo amadorismo estilístico e os enquadramentos privilegiam o rosto, a fala, o corpo desenvolto ou aflito, recoso ou lânguido? Não sei se é suficiente para dizer que Bellocchio foi mais longe que o mestre Kiarostami, mas é impossível negar o logro de recontar essa crônica familiar de desespero e relações, com todos os elementos chave da passagem do tempo (trabalho, filhos, envelhecimento, carreira, paternidade) e através dos anos, instalando-se nessa beira da representação e do “real”, puxando o mais livre afeto pelos personagens da nossa parte e com um punhado de cenas irretocáveis que certamente figuram entre as melhores do cinema italiano contemporâneo.


Domingo, dia 06
No Caminho das Dunas
Dir.: Bavo Defurne
2011

A princípio, um desenvolvimento cuidadoso e diferenciado da sexualidade em descoberta do pequeno Pim, o trato do homossexual como esteta, como teorizou Camille Paglia, deslumbrado pelos rituais de penteadeira, cheiros, texturas, trejeitos – só que desta vez, com uma mãe quase completamente ausente e com um pai de quem nunca se ouviu falar. Há também um punhado de símbolos que enriquecem a trama pelos objetos: a faca que o garoto compartilha com o amigo por quem nutre paixão, a limonada que a irmã dele oferece como signo da falta de reciprocidade da atenção de Pim, o espelho como clássico objeto que rebate para a vista o desconforto e angústia com o próprio sexo, que, se se veicula pelo corpo, chega antes ao olhar. E é fato um filme de olhares. A questão é que estes não bastam: a obra que se mostrou inicialmente silenciosa e cuidadosa com as sutilezas se torna morosa, entediante, nada sai muito do lugar de onde bem iniciou, e os únicos elementos que dava alguma motricidade que fosse ao menino – tanto o amigo quanto o cigano que já morou com ele em casa – somem tanto na trama quanto em presença, deixando o filme uma insuficiência tediosa de silêncios, que acaba por tornar o final quase nada crível. É curioso que depois de tantas décadas de cinema alguns ainda não tenham entendido que é preciso colocar as partes de uma história em relação, fazerem com que “se mexam”, tenham alguma vida dramática, para além das próprias. 


Segunda-feira, dia 07
Coelho Mau
Dir.: Carlos Conceição
2017

(Já) É o melhor curta do ano, disparado, e um dos melhores que já vi. É curioso como tudo se anuncia logo no começo: a irmã enferma, máscara cobrindo a boca; o irmão guiando a moto, adereço felpudo de coelho na cabeça, uma música melodramática embalando a cena de liberdade quase infantil dos dois – uma imagem de exceção um tanto doentia, apaixonada e apaixonante, um estupor aos sentidos desacostumados com a quantidade de vazio que se tem para ver. O curta de Conceição podia muito ser descrito como uma fábula infantil erótica e sombria, e todos os elementos estão de fato ali: a casa da árvore, a irmandade de proximidade peculiar, o chapéu de coelho, tudo balanceado a uma força (supostamente) bastante oposta: o desejo sexual emana de todas as direções, sempre emoldurado de forma a privilegiar o corte, mas desta vez não entre cenas: é o pênis do gigolô que urina e quase é visto, não tivesse a câmera deslizado, são os pés da irmã desejados pelo garoto, mas separados do resto do corpo, é o tronco separado da cabeça durante os beijos preliminares. É assim o tom da obra, castra suas partes para estimular a imaginação, que é a chave do erotismo. Nada é muito deixado às claras, é quase tudo implícito e dotado de uma atmosfera particular. Mas, acima de tudo, Coelho Mau é um retorno memorável ao planejamento, à decupagem, às boas ideias, ao apreço tanto pelo (nosso) olho quanto pelo pensamento que o guia. O gesto simbólico final é de um prazer indescritível.


Terça-Feira, dia 8
Corpo Elétrico
Dir.: Marcelo Caetano
2017

Faço das minhas as palavras de um amigo: “Corpo Elétrico? Está mais para Corpo Letárgico”. Qualquer crítica que se faça ao filme tem de partir de um não-sei-por-onde-começar, porque a sensação diante dele é bem esta: não há foco, seu protagonista é, apesar de todos os sorrisinhos e narrativas, praticamente apático, seu diretor está longe de ter qualquer noção sobre encenação, não sabe simular a eletricidade que nomeia o filme, não sabe manter interesse, desconhece como tornar um corpo algo eminentemente erótico, e, como se não bastasse tudo isso, faz da trama central – seria ela mesmo a paixão do assistente pelo imigrante africano? – algo natimorto, entregue às moscas para focar nos tipos sociais de uma São Paulo que vai fazer um punhado de espectadores chamar este “um filme necessário”. “Porque bichas existem”, como disse o protagonista, em entrevista? Porque as condições de trabalho nas costurarias são horrendas? Então, espere um pouco: o filme é uma denúncia social, uma história de paixão, uma sucedânea de narrativas ao leito? Podia muito bem ser todos, mas não é nenhum. Recomendo a toda uma geração de cineastas brasileiros que façam política, não cinema (ou que ao menos aprendam a fazer os dois ao mesmo tempo).


Quarta-Feira, dia 9
A Vingança dos Piratas
Dir.: Jacques Tourneur
1951

Tourneur passeou basicamente por todos os gêneros – e só com obras-primas –, e se a sua safra inicial de terror foi o que o tornou famoso, não é menor toda essa leva de filmes de aventura que A Vingança dos Piratas vem coroar com uma das melhores personagens femininas de todos os tempos. Jean Peters é um rosto de um milhão de dólares: o olhar afiado que coloca medo em todo o Caribe e na Inglaterra, a espada habilidosa que enfrenta até o Barba Negra numa brincadeira que se torna um tanto séria demais, a voz de comando que rasga e silencia qualquer macho. É quase possível vê-la ainda criança, prematuramente impetuosa, vingativa, rechaçada pelo que se toma como características masculinas, e sobrevivendo a tudo isso com o título de Providence, a pirata mais temida. Certa parcela do cinema musical pode ter nos levado ficticiamente aos quatro cantos do globo, mas o que é esse cinema de Tourneur, com suas paisagens tropicais recriadas, mares espelhando a lua, seus ursos exóticos, piratas cintilando com ouro? Uma dama presa ao mastro, um traidor em apuros e uma Capitã (“don’t call me mademoiselle) louca de ódio, ciúme, vingança, desejo e inveja. Genial.


Quinta-Feira, dia 10
Boa Noite Cinderela
Dir.: Carlos Conceição
2014
Um sapato anacrônico, quase drag queen, uma surpresa inicial de fazer rir e excitar até o mais cético dos cinéfilos, uma adaptação hilária e inteligentíssima do conto clássico, e, não fosse tudo isso suficiente, um cabeçalho marxista para inaugurar esta que é a razão da minha obsessão prematura por Carlos Conceição. Não arrisco que ele seja o pioneiro, mas certamente foi o primeiro cineasta, e quase completamente desconhecido, a sistematizar o cinema enquanto filmagem do fetiche – o sapato da borralheira é o objeto de desejo de um príncipe. Isto mesmo: não a princesa, o sapato. Pouco lhe interessa o pé que o veste, porque este é o fetiche, por sua vez, do fiel escudeiro, numa trama tão abertamente homossexual quanto ardilosa, que engana e revela, trabalha com o óbvio e o duvidoso ao mesmo tempo. Os símbolos se proliferam e a câmera de Conceição é tão precisa em idealizar esse cinema-fetiche-olho-objeto, que o toque de duas velas para que uma acenda a outra se torna um momento erótico-fálico. O português é mestre em realizar as cenas mais pulsionais e implícitas, e há um momento para além de genial em que a fala do escudeiro bifurca a narrativa em uma duvidosa (e deliciosa) fidelidade (ou não?) ao conto original. Reitero o que disse sobre Coelho Mau: todo plano do diretor é uma ode ao quadro de Cinema.


Sexta-Feira, dia 11
Nathalie Granger
Dir.: Marguerite Duras
1972
A cine-escritura de Marguerite Duras nem em seus primórdios nem como transição: detesto as colocações de cineastas em fases ou momentos, quando na verdade os verdadeiros autores (sim, é uma noção debatível) me parecem partir sempre de um mesmo problema: se o de Godard, por exemplo, era a própria ideia de Cinema enquanto linguagem, enquanto meio, o da autora “sem pátria” é: como se pode filmar o fluxo temporal, instalar-se na passagem das coisas?, e, ao fazê-lo, por que o cinema se aproxima da literatura? A câmera de Duras assume uma posição anteriormente (pelo menos da sua maneira sistematizada) inconcebível ao cinema: a de descrever com a objetiva, passear pelo espaço e personagens como se observando-os, deixando que sejam por si sós, ao invés de extrair deles apenas o necessário para o encadeamento da ação; e uma câmera que se deixa, ainda, atravessar pela palavra em pé de igualdade com a imagem: é o texto, em Duras, que nos remete aos lençóis de tempo, às temporalidades difusas, longes do referencial da imagem, e à infinidade de sentidos e possibilidades que aquele som de um rádio e de um piano fantasmas encarnam. Depois, em seus outros filmes, os gritos, as vozes, mas sempre lá, isto sim: a maldade, a miséria, a melancolia, a impossibilidade, o negativo, todos os temas caros à autora.


Sábado, dia 12
Planeta Fantástico
Dir.: René Laloux
1973
Sobre essa animação experimental-psicodélica, sci-fi e distópica ao mesmo tempo, é impossível não se estimular primeiramente e acima de tudo pela inventividade, como se o filme (mas também o texto de que foi adaptado) tivesse sido ao menos concebido sobre uma onda criativa de psicodelia induzida. O desprendimento parcial de referencialidade com o nosso mundo tido como natural(izado) é como o descobrimento de uma parte ainda nunca explorada da galáxia – e, de certo modo, não deixa de ser –, tamanha a inventividade dos desenhistas e animadores em criar um mundo com sistema político, biologia e geologia próprios, para não dizer todos os outros aspectos do Planeta Fantástico que colocam o fator humano como algo dividido entre a escravização e a liberdade, empurrando-nos a uma espécie de condição originária, pré-histórica, de busca pela sobrevivência e início de uma civilização. Essa condução a um pré-Éden, ao mesmo tempo em que nos caracteriza como além de um ideal de pecado e próximos a uma inteligência coletiva, é um sopro de esperança para uma humanidade que vivia nas trajetórias de um sistema político cada vez mais opressivo. 


Domingo, dia 13
A Ilha dos Prazeres Proibidos
Dir.: Carlos Reichenbach
1979
Desses pecados de cinema que vez ou outra se assumem: este é o meu primeiro Reichenbach, e nele não me impressionaram tanto a cinefilia, a anarquia, a montagem livre, a despreocupação com o bom ator, com a narrativa que já não se importa mais em apagar seus rastros, qualquer possível crítica social contra a caretice conservadora... foi esse misto de Sganzerla com Bressane (uma trinca de subversivos?), a mudança lentamente instaurada de tom, saindo de uma obra quase experimental e novelesca, rindo da própria cara, para uma espécie de melodrama político-sexual quase sério, quase acreditando em si mesmo, complexificando os personagens e suas relações mesmo que sob dosagens de hilaridade e referências – Nilo Baleeiro como Pierrot é fantástico. Os diálogos são ora ensaiados e rebuscados demais, ora coloquiais, quase como uma quebra com a quarta parede através do mau gosto mastigado de trocentas outras obras e estilos. Mas o trunfo do filme é indubitável: sua penca de personagens excêntricos e conceituais. Um fugitivo da polícia filósofo e anarquista, uma modelo com frases de impacto, uma jornalista em crise sexual-moral, um escritor recluso por grave, involuntária e duvidosa incitação à libertinagem. Com um filme, Reichenbach já mostra seu gênio.


Segunda-Feira, dia 14
Valerian e a Cidade dos Mil Planetas
Dir.: Luc Besson
2017
Primeiro: não há jogada de marketing que justifique a chamada de atrizes ruins (Rihanna e Delevingne não convencem em momento algum; em outros são, inclusive, vergonhosas). Segundo: não há como conceber o que se passou na cabeça de Besson para que o diretor desperdiçasse toda a relação entre virtual e real que se dá durante toda a cena do assalto ao grande mercado. Havia ali um jogo de possibilidades técnicas e operísticas que garantiriam ao filme, como pretexto estilístico, algumas das cenas mais dinâmicas do sci-fi contemporâneo. Terceiro: é clara, rasgada e cuspida a inaptidão da trama, já perto de seu fim, de lidar com todos os prolongamentos que foi criando como divergências para uma resolução final entre um possível vilão e a equipe dos agentes, e o uso apressado da vilania de certo personagem, que tentou funcionar como plot twist, acaba por se tornar tacanho. Enfim, é tudo uma prova, pela milésima vez, de que o dinheiro pode muito bem garantir a materialização de uma planeta deslumbrante, que uma mente criativa pode ser sedutora e inventiva, trazer certo frescor, mas que nada roubará o lugar de um narrador que, simples e objetivamente, sabe o que está fazendo.


Terça-Feira, dia 15
O Som da Terra a Tremer
Dir.: Rita Azevedo Gomes
1990
Dentro dessa “tradição européia” de cinema que carrega uma marca (de densidade?) consigo, Miguel Gomes, João Pedro Rodrigues e Pedro Costa podem até estar resgatando a atenção da cinefilia para Portugal, mas, para o valor que a cinematografia nacional portuguesa tem, e não menciono sequer Manoel de Oliveira, chega a ser triste o quanto uma cineasta como Rita Azevedo é quase completamente esquecida. N’O Som da Terra a Tremer, que já chamo sem medo de umas das grandes obras-prima do cinema europeu, o exercício vai além do claro (e poético) misto entre cinema e literatura: para além da cine-escritura desses planos hiper-descritivos, quase completamente desdramatizados, ou mesmo desses monólogos emoldurados e impulsionados por uma mise-en-scéne que, de tão calculada, quase não transparece e toma para si certo valor teatral – acima disso tudo, o que impressiona mesmo é o quanto o poder da palavra entregue à poesia e o quanto as camadas de ficção dentro da ficção, até que tudo fique de fato indiscernível, fazem com que as desconexões temporais ativem lençóis de tempo inimagináveis e tornem a obra de Azevedo quase uma contemplação pura, um livro filmado, porque não há mais referenciais senão as palavras e as imagens.


Quarta-Feira, dia 16
Diário dos Mortos
Dir.: George A. Romero
2007
Como alguém pode tornar o próprio filme uma autoconsciência endereçada, o tempo inteiro, e uma ficção sobre essa mesma consciência de si enquanto filme de horror, ambos numa tacada só? Romero inicia o filme como um documentário de outrem sobre um processo fílmico, revela as adições, liberdades e edições através do discurso daquele que o narra (o filme pronto, mas que filme, afinal, é esse?), demonstrando que, editado, aquela é uma obra diferente dos cacos filmados, e, no fim das contas, já não se sabe mais de quem é a autoria, o que é “real” e o que é material alterado. Tudo, claro, desde o princípio, um jogo. É a estética da “home câmera” levada ao extremo numa metalinguagem sem fim, em que o filme de horror é a própria temática, junto com algumas discussões sobre o uso e a necessidade de imagens no contemporâneo – discussões que, se uma hora parecem dramáticas e desnecessárias, com o tempo passam a realmente se infiltrar no filme-pensamento. Romero é a prova de que o estereótipo, em si, não é algo ruim, e que a genialidade pode oscilar, mas sempre estará ali.


Quinta-Feira, dia 17
A Filha do Nilo
Dir.: Hou Hsiao-Hsien
1987
Há uma parcela do cinema de Hou apelidada de “nostálgica”, e se ela o é de fato, isso não se mostra simplesmente porque seus filmes se passaram duas ou mais décadas atrás – não é o apelo puro do passado que conta. Há uma texturização, uma preocupação com a captura das luzes, cores e movimentos da Taipei moderna, quase como se a câmera estivesse ali observando sem nada interferir: decerto uma encenação solta, desprendida, mas não deixa de ser curioso o efeito de apagamento, pela ficção, dos próprios rastros, de uma maneira diferente da promovida pelo cinema clássico. É que Hou privilegia o fluxo, as coisas acontecendo (não a ação que finda e se encadeia por causalidade com a outra), e é dentro dessa mise-en-scène frouxa que o tempo se cristaliza numa melancolia nostálgica de uma temporalidade que nem nós sabemos qual foi, nem muito menos seus protagonistas. O apego de Shiao ao quadrinho que dá título ao filme é só um ilustrativo desse desejo incompreensível por algo que não está lá – nem um passado, nem um futuro melhor, algo que simplesmente se ausentou do presente e fugiu do próprio tempo. Obra-prima pra ser contemplada, e de joelhos.


Sexta-Feira, dia 18
O Filme da Minha Vida
Dir.: Selton Mello
2017
Honestamente, não entendo como alguém cuja bagagem e presença de atuação (e os contatos, claro) como as de Selton Mello pôde fazer um filme tão pobre. É desgostoso reiterar algo que já é dito às centenas por aí, mas O Filme da Minha Vida é um filme só bonito. Não que não tenha apelo: o filme comove, enternece, tensiona, de fato trabalha com o espectador o tempo inteiro a partir de uma chave dramático-nostálgica, mas... em algum momento - na verdade, desde o início, se penso bem - o filme se mostra como excessivamente preocupado com a estética, em dar à narrativa passada nesse fim de mundo os tons pastéis irreais e nostálgicos de uma época anterior, e de repente se propõe a resolver os arcos dramáticos dos personagens em piruetas, montagens articuladas, obliterações da fala e do encontro, dos choques, para dar espaço ao nada, ao vazio de uma formalismo que se contenta em ser ele mesmo e... a fotografia de Walter Carvalho, que é possivelmente a única coisa de valor a se extrair do filme? Uma pena, especialmente diante de um elenco tão preparado e carismático.


Sábado, dia 19
Flores de Xangai
Dir.: Hou Hsiao-Hsien
1998
Se penso em alguém na literatura cuja representação escrita de um estado de entorpecimento se deu de maneira mais cristalina, quase um escrever a própria experiência com as drogas, ainda que isso seja impossível, surge, em mente, o nome de William Burroughs. Se promovo o mesmo pensamento para o cinema, contra a corrente de todos os experimentalismos, sobretudo aqueles dos anos 60 e 70, que tentaram simular, com as imagens do cinema, experiências semelhantes, não me virá outro nome senão o de Hou Hsiao-Hsien neste Flores de Xangai. É assombrosa a encenação de Hou diante de tamanha fluidez: dificilmente há foco numa cena, a câmera desliza quase imperceptivelmente num eixo de 180°, as informações na tela se multiplicam as dezenas, para não falar das cores inebriantes e puramente artificiais das lamparinas ao estilo dos bordéis de uma Xangai de séculos atrás. A trilha vai se repetindo exaustivamente, de fato como uma droga, até que seja quase impossível não se misturar de corpo e sensação aos quadros vivos (as cenas de Hou são mais isto do que narrativas propriamente ditas). É cinema puro, e, ao mesmo tempo, algo além, de uma interatividade paradoxalmente contemplativa e deliciosa.


Domingo, dia 20
Roleta Chinesa
Dir.: Rainer Werner Fassbinder
1976
É o meu Fassbinder favorito, e um dos maiores do cinema, para mim. Todo o filme é perfeitamente calculado e orquestrado para representar a forma-conteúdo da acidez e da miséria interior da família e seus agregados. Se Margit Carstensen estava sublime como Petra Von Kant, aqui sua amargura é triplicada e encerrada por essa moldura ambulante e operística de Fassbinder, como num balé segmentado para romper, destruir, aniquilar, fazer serem vomitadas das profundezas do silêncio todos os ranços, sobretudo os da menina aleijada, que se não representou com perfeição assombrosa a sordidez e a tristeza cabíveis num corpo já fragilizado, é possível que eu já não saiba mais reconhecer uma boa atuação. E como todo elenco exemplarmente dirigido, arrancam-se dos atores qualidades sobre-humanas. É impossível sair incólume a Roleta Chinesa, e não por qualquer experiência fútil de choque ou amargura à la Von Trier.


Segunda-Feira, dia 21
De Repente, No Último Verão
Dir.: Joseph L. Makiewicz
1959
Este filme de Makiewicz é a razão pela qual Elizabeth Taylor permanecerá imortal. Sua primeira aparição no filme, depois de todo o anúncio e expectativa, é como o desvelar de um filho que nunca se conheceu, ou a revelação do rosto de um artista cuja face nunca se deu à vista. Existe uma proximidade curiosa com Complexo de Portnoy, a magnum opus de Philip Roth, no sentido de que a descarga psicológica da obra vai crescendo até que seja insuportável, tanto para Taylor quanto para nós, ir mais além: é preciso vomitar, relembrar, e é involuntário fazê-lo, ao mesmo tempo. Tudo o que foi reprimido ou guardado explode no flashback mais exasperante do Cinema. Há uma pressurização constante, ora adormecida (mas ainda lá), ora disparada, em levar o acontecimento passado a seus últimos limites, ou seja, os da verdade, e ainda assim, Makiewicz consegue dar toda complexidade e magnetismo possíveis aos seus personagens, posto que Hepburn e Clift são tão peças-chave no jogo da verdade quanto qualquer outro personagem. Obra-prima indiscutível.


Terça-Feira, dia 22
As Coisas Simples da Vida
Dir.: Edward Yang
2000
Virada do segundo milênio e Edward Yang, junto com Um Dia Quente de Verão, cria ainda uma segunda obra absolutamente imprescindível para “compreender” (experienciar?) o cinema asiático. Ainda que se fale muito de certa nostalgia, de certo sentimento, no decorrer da obra inteira, de que algo foi perdido, ainda que não se saiba exatamente o quê, preocupa-me mais, ou seja, emocionam-me mais as duas crianças: o garoto que fotografa e a filha com uma espécie de angústia atemporal, melancolia da incomunicabilidade dos sentimentos senão por aquilo que apenas a câmera pode revelar. Nas cenas do afago da avó e do carro com o pai, tudo que não é e nunca foi dito emana dos corpos e luzes sem a necessidade, ainda assim, de uma só palavra. Toda postura, toda reflexão espelhada nas superfícies, todo momento de jocosidade infantil funciona exatamente como o título curioso da tradução brasileira o sugere: as coisas simples da vida estão aqui, o tempo inteiro, e se não as vemos com facilidade, ou mesmo se desaprendemos a percebê-las, Yang parece tocar nossa mão e dizer que o olhar da câmera pode ser uma mera técnica, mas criada por homens e para homens; ou seja: é preciso treinar para ver como ela o faz. E alguns olhares no filme parecem nos confirmar isto.
Por Felipe Leal, em 04/08/2017
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