FILMES CRÍTICAS NOTÍCIAS PERFIS TRILHAS TOPS PREMIAÇÕES ARTIGOS COMENTÁRIOS FÓRUNS   SÉRIES PUBLICIDADE
CENTRAL DE USUÁRIOS   |    CADASTRE-SE   |   ENTRAR
   
FILMES
CRÍTICAS
NOTÍCIAS
PERFIS
TRILHAS
TOPS
PREMIAÇÕES
ARTIGOS
COMENTÁRIOS
FÓRUNS

SÉRIES
CADASTRE-SE   |   ENTRAR
COMENTÁRIO

A Espada da Maldição

(Dai-bosatsu tôge, 1966)
Por Mateus da Silva Frota Avaliação:                   9.0
Este comentário é recomendado pela equipe Cineplayers.

Em uma das cenas mais famosas de Oldboy (2003), de Park Chan-wook, um travelling acompanhava o vingador matando cada um dos seus oponentes no mesmo local, o impacto causado por essa cena nas pessoas na época de seu lançamento pode ser imaginado no impacto causado em A Espada da Maldição (Dai-bosatsu tôge, 1966), nesta tradução que não causa uma combinação tão rítmica, onde anti-herói da trama sai cortando cada um de seus oponentes. Embora Kihachi Okamoto não seja o cineasta japonês em um top-10 dos mais conhecidos mundialmente ou no próprio Japão, ele dirigira na sua curta carreira apenas filmagens entre as décadas de 1960 e 1970, a influência de A Espada.. se percebe tanto em filmes posteriores de western como na própria filmografia de Quentin Tarantino - como as cenas na neve.

O Shogunato, importantíssimo na história do Japão (durara do século VII até 1868 - importante perceber este último ano) elevara simples líderes militares a uma patente reconhecida pelo próprio imperador em pessoa, era como se uma divindade desse a palavra terrena a alguém, logo o shogun, devido a distância física do imperador, detinha um poder igual ou maior que o imperador dentre seus companheiros e conhecidos, além de tornar-se um influente senhor de terras. O terceiro Shogunato, o Tokugawa, logo o mais fraco deles, teve durabilidade de 1603 até os derradeiros anos em que se passa a película, acabando por vivenciar a decadência dos shoguns e a retomada da posição imperial, conhecida como a Restauração Meiji.

Entrada de vez do Japão na Era Moderna, o também conhecido como Período Edo foi muito retratado em romances literários e filmagens cinematográficas clássicas, por toda a carga dramática vivenciada em um país que começava a deixar para trás suas lendas e seus mitos para entrar em um novo período social. Aquelas almas ambulantes, rastejando por vivenciarem uma época que poderia vir a ser tudo, mas não a sua, estão presentes na película de Okamoto. Não seria uma referência do diretor a um passado mais distante, tentando refletir sobre o passado ainda quente da Segunda Guerra Mundial? O crepúsculo shogun aos tempos de pós-Guerra.. Um de seus próximos filmes trataria exatamente sobre isso, sobre essa dor tão pulsante de perder muito mais do que uma disputa em campos de batalha, mas incontáveis almas, gerações perdidas. No limite também estão uma penca de samurais, alguns mais contemplam o abismo do que o rechaçam, faz parte da índole de cada um.

Um homem e uma espada em direção a câmera, a espada não atinge a tela e a quebra por mero capricho, um pé soado e cansado avança na tela enquanto se afaga na madeira tão brilhante compactada ao chão. O suor escorre pelas têmporas enquanto sua espada corta a luz que adentra por uma das únicas aberturas do local.. E assim é filmada uma preparação de vingança. Não há verborragia, nem emoções exaltadas tomadas por uma trilha dramática e barulhenta. Há apenas um homem em conflito interno e quase podemos ouvir seus pensamentos.

Poderia definir este clássico samurai com esta simples organização de palavras: olhares, gestos e uma mise-en-scène de tirar o fôlego. Sendo o mais impressionante, dos cada vez mais longínquos anos 60, que uma edição baseada em mostrar gestos em situações de desespero e conflito, tão usual do cinema japonês, possa prender um telespectador da segunda década do século XXI, tão acostumado a presenciar efeitos estridentes e edições mirabolantes que mostram muito sem atingir praticamente nada. Só há espadas e algumas almas atrás delas (como é dito em determinada cena), e em cada cena de conflito há uma carga pesadíssima de dilemas e sentimentos, seja de vingança, seja de dor.

Seguindo esta linha de pensamento, quando lá pelas tantas aparece um revólver por baixo da roupa de um aliado do samurai, este perplexo olha para o instrumento como se estivesse a observar a própria essência do mal, dizendo ser instrumento injusto, enquanto o portador da arma diz que ela faz um "bang". Em um contexto de pós bombas atômicas e armas químicas, em cenas permeadas por espadas de metal brilhante, aquele que assiste o filme compreende que o mundo será tomado por estes equipamentos tão injustos que são quase incompreensíveis para os homens mais conectados ao antes de 1860 do que ao que virá a seguir. É apenas uma cena, um corte de 3 segundos que rende uma compreensão tão ampla do que ali está sendo mostrado, e que só a nós cabe essa reflexão, pertencentes ao mundo contemporâneo.

A magnífica direção de arte aliada a direção de fotografia parecem ter inspirado diversos filmes do 007 quando adentrara no universo oriental, o que aconteceu bastante na era de Daniel Craig. O jogo de sombras é tão impactante, que tornar-se perceptível daqueles que formam a cena ao exterior, daqueles que a assistem. De repente, em um gesto brusco da trilha e o susto de uma mulher diante uma aparição assustadora, é como se toda técnica fizessem o telespectador e o personagem agir e sentir o mesmo. Repare-se, por exemplo, na cena em que o samurai descobre que matou o avô de uma conhecida, em plano expressivo, como o seu rosto fica dividido entre uma luz branca e uma parte sombreada por listras. Permeada por diversos deslizes de câmera em plano geral, interna e externamente, tudo que é filmado em A Espada da Maldição soa absurdamente lindo. Seu diretor de fotografia, Hiroshi Murai, um dos principais culpados por tamanho lirismo, filma até mesmo mãos decepadas e sangue jorrando, tão incomum em filmes da época.

Visceral, bruto e apaixonante, seu realismo fora ultrapassado ao longo dos anos por computação gráfica e inovações diversas, mas como a alma humana parece ser ainda bordada por um pré-historicismo inacabável, sua matança e seus dilemas sequer foram arranhados. Ainda que tenha "queimado gorduras" típicas dos filmes de samurai de seu tempo, apostando em sensações minimalistas e interiores, a fraqueza de alguns personagens e de assuntos não desenvolvidos escapa-o ao patamar da perfeição, nada que o torne menor, aliás, grandeza é exatamente o que não falta neste monumento cinematográfico que merece ser mais reconhecido.

Por Mateus da Silva Frota, em 06/08/2017 Avaliação:                   9.0
Notas - Equipe
•  Média -
Notas - Usuários
8.3/10 (18 votos)
Minha nota:
0.5 1.0 1.5 2.0 2.5 3.0 3.5 4.0 4.5 5.0 5.5 6.0 6.5 7.0 7.5 8.0 8.5 9.0 9.5 10.0
    --
• Todas as opiniões 
Comente no Cineplayers (0)
Não há opiniões dos usuários.
Comente no Facebook
Cineplayers não se responsabiliza pelo conteúdo deste comentário. Ajude-nos a manter a integridade do conteúdo. Se você tiver provas de cópia ou plágio do texto, entre em contato conosco, denunciando (passe o link do material original).
CINEPLAYERS LTDA. (2003 - 2017) - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

CENTRAL DE USUÁRIOS
FILMES
CRÍTICAS
NOTÍCIAS
PERFIS
TRILHAS SONORAS
HOME CINEMA
TOPS
COMENTÁRIOS
ARTIGOS
PREMIAÇÕES
JOGOS
FÓRUNS
PAPÉIS DE PAREDE
MAIS ASSISTIDOS
EQUIPE
NOSSA HISTÓRIA
CONTATO
PERGUNTAS FREQUENTES
PROMOÇÕES
ESTATÍSTICAS
ESPECIAL A NOVA HOLLYWOOD
ESPECIAL WES CRAVEN
CHAT
MAPA DO SITE
API CINEPLAYERS
ANUNCIE CONOSCO
         
CINEPLAYERS LTDA. (2003 - 2017)

           
 USUÁRIOS
 + ASSISTIDOS
 EQUIPE
 HISTÓRIA
CONTATO
FAQ
PROMOÇÕES
ESTATÍSTICAS
WES CRAVEN
MAPA DO SITE
API
ANUNCIE