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Crepúsculo dos Deuses
(Sunset Boulevard, 1950)
Por Vinícius De Vita Avaliação:                     10.0
Este comentário é recomendado pela equipe Cineplayers.

Este comentário revela detalhes da história do filme.

Obra-prima impagável do cinema em plenos anos 50. Billy Wilder dá uma aula de cinema e nos apresenta uma das melhores e mais inesquecíveis produções de toda a história da sétima arte.

Desde o início de 'Sunset Boulevard' já é perceptível o quão grande Billy Wilder é capaz de ser, ele que é até hoje um dos diretores mais corajosos e determinados que o mundo já viu passar. Alguns anos após a transição do cinema mudo para o cinema falado, o filme foi lançado no ano de 1950, que também foi palco do nascimento de outros grandes clássicos como A Malvada, Meu Amigo Harvey e Sansão e Dalila.

Crepúsculo dos Deuses começa de trás para a frente, com a imagem de um homem morto boiando em uma piscina de uma luxuosa mansão em Sunset Boulevard, que mais tarde nos seria apresentado como Joe Gillis. Depois de mostrar desde cedo o final terrível ao qual o homem seria submetido, o roteiro volta seis meses antes daquele fatídico dia e a história começa a ganhar vida por si só, acompanhada por uma construtiva narração em off do próprio defunto. Sim! Esse foi um fato irremediavelmente inédito para aquela época e ajudou o filme a se tornar uma obra-prima como nenhuma outra. O núcleo principal corresponde a Gillis, um fracassado roteirista que está em pé de dívidas com seu carro. Fugindo de cobradores, ele acaba achando uma garagem de uma luxuosa mansão, que dava a impressão de estar abandonada não fosse pelo fato de ter um outro carro estacionado na mesma garagem. Depois de descobrir que neste casarão residem a decadente atriz do cinema mudo Norma Desmond e seu fiel mordomo Max, ele é confundido com um homem de uma funerária que viria mais tarde para trazer um caixão à alguém que havia morrido. Este alguém acaba virando um macaco, que era pelo visto, a única companhia diária daquela solitária mulher, que fez questão de preparar um funeral à altura de um filho legítimo e enterrá-lo no quintal. Mostrando uma frieza inacreditável, Norma descobre que o seu visitante Joe Gillis é um roteirista e convida-o para residir em sua casa a fim de aprimorar e melhorar um roteiro que ela mesma havia escrito e que logo, deveria ser entregue em mãos ao renomado diretor de cinema Cecil B. DeMille, que a conduziria em um papel, que segundo ela, seria o principal de sua carreira. Aceitando o convite após várias insinuações de salário e ordens de Norma contra a vontade de seu hóspede, Gillis passa a trabalhar no roteiro da atriz e descobre que aquele amontoado de papéis não passava de meras palavras que tinham como resultado uma verdadeira porcaria. Prosseguindo graças ao dinheiro, ele passa a se sentir cada dia mais preso àquela casa, sendo obrigado a se mudar de um quarto próximo à piscina para um dos luxuosos aposentos da mansão, onde haviam dormido os outros maridos de Norma. Com o passar dos dias, convivendo com uma mulher que ele julgava ser tão autoritária quanto maluca, ele percebe que a atriz não encara o seu desaparecimento do cinema com a realidade que precisava. Segundo ela, "os filmes se tornaram pequenos demais" para o talento da atriz. Por toda a casa era notável a existência de retratos e mais retratos de Norma, que passava grande parte de seu tempo dando autógrafos em cartas que foram supostamente enviados por fãs de todo o mundo. Residindo em uma casa absolutamente imensa para apenas duas pessoas, o cenário dá uma sensação ainda maior de isolamento e solidão que a atriz passou a conviver depois de se afastar do cinema. Mesmo sem aceitar a difícil realidade, Norma passa a tratar Joe como um marido e ele percebe que a história já havia ido longe demais e pretende ir embora depois de uma festa de reveillón que quase acabou com a morte de Norma, que tentara se matar pela segunda vez, cortando os pulsos. Enquanto Gillis convive diariamente com Norma, à noite ele foge para a cidade onde se encontra com a bela e aspirante a roteirista Betty Schaefer. Os dois se conheceram bem antes de se tornarem amigos, quando ela confessa ter odiado um dos roteiros que Joe havia escrito. Ela então passa a sentir uma certa atração por ele, apesar de estar noiva do melhor amigo de Gillis. Embora não seja exatamente um romance e muito menos um caso, já que o roteirista não está casado com Norma, ele se vê cada vez mais acuado pelos delírios da decadente atriz, que o impossibilita de ter um caso de amor com Betty. A partir daí, Gillis toma uma série de decisões que vão resultar em alguns momentos dos mais inesquecíveis da história do cinema, com diálogos agudos e acompanhados por uma trilha forte e pontuada a cada ação.

'Crepúsculo dos Deuses' só é o que é graças ao talento infinito e a coragem destemida de Billy Wilder, que em plenos anos 50, época em que o cinema era uma das principais atrações da mídia. Ele, usando de técnicas novas e nunca vistas antes, mostra de uma maneira revolucionária e genial todos os podres da indústria cinematográfica, mostrando locações reais em sets de filmagens e o modo como usam de artistas em pleno auge da carreira e como os colocam de lado depois que todo o alvoroço ao redor deles passou, os chamados 15 minutos de fama. No caso de Norma Desmond, ela fez um sucesso inacreditável e quando parou de filmar, simplismente passou a viver do passado. Esses fatores são mostrados por Wilder de maneira muito simples e clara, como a mansão, que demosntra como a atriz é solitária e o modo como fora abandonada pelo cinema, as fotos e os retratos espalhados pela casa, como se fosse o único modo de voltar ao clima da época de filmagens, o seu companheiro chimpanzé que fora morto e o fato dela sempre assistir os filmes em que ela havia atuado, tudo isso é usado para dar maior destaque ao egocentrismo e a cegueira que Norma possuia. Wilder aproveita de recursos, todos os possíveis para ampliar a sua idéia e aprimorá-la a fim de parecer perfeita perante às câmeras.

Em termos de narrativa, o roteiro de 'Crepúsculo dos Deuses' é algo divinamente sublime, sem qualquer exagero. Escrito pelas mãos do próprio Billi Wilder, com a ajuda também de Charles Brackett e D.M. Marshman Jr., o script que venceu o Oscar na categoria de Melhor Roteiro Original começa pelo fim e se desenvolve bem o suficiente para dar maior credibilidade a uma história que desde o começo já era interessante. A narração é um dos pontos mais favoráveis do roteiro, pois cada palavra que o defunto transmite é aproveitada ao máximo e mostra como a ironia do destino pode ser curiosa ou até mesmo cruel. Se algo tão corajoso e astuto quanto à direção de Wilder é o roteiro do filme que ele dirige. Algo que foi simplesmente motivo de escândalos na indústria do cinema, que descriminou o diretor por tratar do ramo cinematográfico de maneira tão terrível, mas que não deixa de ser verdade. Wilder comanda o roteiro nas entrelinhas e mostra ser cético e cínico o bastante para deixar ao final todos os personagens satisfeitos, de uma maneira ou de outra, essa que talvez seja a principal característica do diretor e também roteirista.

Gloria Swanson e William Holden, que interpretam Norma Desmond e Joe Gillis, respectivamente brilham suavemente nas telas. Em interpretações imapagáveis e expressões inesquecíveis, os dois em cena dão um verdadeiro show, discreto, mas nem por isso menos brilhantes. Wilder demonstra que também sabe como comandar atores, usando de seu elenco os sentimentos mais profundos de cada artista que está encabeçando cada cena e cada diálogo. Swanson é a melhor do filme, mas o seu papel fora oferecido a várias outras atrizes que recusaram, como Mae West, Mary Pickford e Pola Negri. Ao personagem de Gillis foram cotados os atores Montgomery Cliff, que desistiu duas semanas antes do início das filmagens e Fred MacMurray, que também recusou. No final deu tudo, com atuações magníficas até de um elenco com participações especiais como a do próprio Cecil B. DeMille que intepretou ele mesmo e do diretor Erich von Stroheim, que interpretou o mordomo Max, mas que já havia dirigido dois filmes antes, Ouro e Maldição e Esposas Ingênuas. A atriz que interpreta Betty Schaefer, Nancy Olson possui uma atuação boa, embora não brilhe, mas que também foi indicada ao Oscar, além dos dois protagonistas e de Erich.

'Sunset Boulevard' saiu da cerimônia do Oscar de 1951 com três estatuetas (embora merecesse muito mais). Além da de Melhor Roteiro Original, os diretores de arte, Hans Dreier e John Meehan também sairam vitoriosos pelo trabalho absolutamente fantástico dos cenários do filme. Abusando de um bom gosto incontestável, Dreier e Meehan usam do luxo ainda em preto e branco para demonstrar a sensação de isolamento e também a luxúria, além de mostrar como poucos os ambietes verdadeiros das filmagens de filmes e escritórios brilhantemente decorados com pequenos objetos que brilham, fora a porcelana e móveis caros da mansão de Norma que saltam à vista a todo o momento. O compositor Franz Waxman também saiu, merecidadamente, com um Oscar naquela cerimônia por seu trabalho pra lá de capricaho neste filme. A trilha sonora é simplesmente uma das mais bem compostas da história, que corresponde a cada momento de tensão (às vezes até mesmo previsíveis) com uma música forte e estonteante, que amplia a cena para algo muito maior e melhor. Outras passagens Waxman resolveu fazer uma música mais suave para mostrar pequenos contrastes. A montagem competente de Doane Harrison e Arthur P. Schmidt contribui para que a cena final de 'Crepúsculo dos Deuses' se transformasse em uma das mais antológicas da históira do cinema, quando Norma diz a famosa frase: "Certo, Mr.DeMille, estou pronta para o meu close up.", e mostra Norma Desmond se aproximando à câ meracom ar de superioridade e conforme vai chegando perto, sua respiação embassa as lentes das mesmas, que vão escurecendo até aparecerem os créditos finais. Logicamente, a edição da dupla foi brilhantemente comandada por Wilder que queria algo ainda mais forte para colocar cada cena do filme em limites astronômicos. O mesmo pode-se dizer da fotografia em preto e branco de John F. Steinz, que tem como principal trunfo as imagens mais claras em cenas nos interiores da mansão de Norma e também os destaques luminosos em cenas à noite.

Crepúsculo dos Deuses é um clássico do cinema, comandado pelo genial diretor Billi Wilder, em sua maior obra-prima. Perfeito em cada detalhe, é uma produção de valor inigualável, às vezes usando tons típicos do humor negro, relatando acontecimentos trágicos em meio à ironias e enquadradas por uma narração certeira. Um filme revolucionário que nunca saiu e nem vai sair da cabeça das pessoas. Dono de cenas memoráveis, 'Sunset Boulevard' é muito mais que cinema, é sobre cinema.

Por Vinícius De Vita, em 16/01/2009 Avaliação:                     10.0
Notas - Equipe
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• Daniel Dalpizzolo 9.5
• Rodrigo Cunha 10.0
• Régis Trigo 10.0
• Demetrius Caesar 8.0
• Silvio Pilau 10.0
• Vlademir Lazo 9.5
• Heitor Romero 9.5
• Marcelo Leme 10.0
•  Média (Top Editores #1) 9.5
Notas - Usuários
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