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O Nascimento de uma Nação

(Birth of a Nation, The, 1915)
Por Luís F. Beloto Cabral Avaliação:                 8.0
Este comentário é recomendado pela equipe Cineplayers.

Ao comentar os escritos de Eisenstein sobre D. W. Griffith, Ismail Xavier, em seu livro O Nascimento de um Cinema, escreve: "Comparada com as ideias dos anos vinte na própria União Soviética, sua versão de Griffith é mais acurada, pois Einsenstein conhece melhor a América, é mais sensível à contradição e, o que é fundamental, não precisa, nos anos de maturidade, olhar o mundo da criação artística como um espaço de harmonias onde ideologia e sensibilidade, técnica e expressão caminham em rigorosa sintonia e se espelham uma na outra." (XAVIER, 1984, p.15). De fato, a harmonia entre ética e estética parece bem longe de corresponder ao que gostaríamos que fosse e O Nascimento de uma Nação é um dos melhores exemplos dessa saia justa. Criticar o filme por sua ideologia racista é quase chover no molhado de tão explícito que esta se dá no plano diegético da obra. O racismo, inclusive, não se aplica somente aos negros, mas também aos mestiços: se os primeiros são broncos ignorantes, facilmente manipulados e corruptíveis, os segundos herdam os vícios das duas "raças", representando os verdadeiros "vilões" da história.

Contudo, é inegável o talento de Griffith na manipulação das imagens fílmicas para a criação de um pathos. O melodrama do filme é construído por composições de forte apelo imagético, potencializadas pelos usos da câmera e da montagem. Os enquadramentos seletivos sobre os corpos e personagens - primeiros planos, planos americanos, planos gerais - que valorizam a fisionomia dos rostos ou as performances grupais, a brilhante orquestração das multidões nos enquadramentos abertos, os acentos e caricaturas das atuações, as alegorias e afetações de símbolos pitorescos, as associações entre imagens e as próprias cores dos filtros: todos compactuam para esse pathos da forma, que transita entre o pitoresco e o singelo sem abrir mão da monumentalidade do épico ou da catarse moralista puritana. Até as imagens de racismo compactuam para esse apelo visual. O contraste cromático do blackface esbugalha os olhos dos atores e engrossa seus lábios, tornando-os criaturas ainda mais grotescas e ameaçadoras, em contraste com as mulheres brancas angelicais.

É difícil admitir, mas O Nascimento de uma Nação possui sim momentos de grande beleza. A cena da invasão de Atlanta e a grande sequência de batalha são menos valiosas como retrato histórico do que como criações de atmosfera. O filtro vermelho da câmera e as fumaças volumosas liberadas pelo mínimo dos disparos transformam o campo de guerra em um cenário infernal onde os soldados minúsculos são engolidos pela paisagem ou reduzidos a silhueta pelo claro-escuro. E ao lado das afetações costumeiras do melodrama silencioso, Griffith ainda encontra lugar para momentos grandiosos de introspecção, onde o arrebatamento dramático se dá com muito pouco - no olhar vazio de uma personagem, na moldura circular da luneta mágica ou no escurecimento gradativo de uma imagem. O melhor exemplo é o retorno do soldado à velha mansão sulista, no plano em que os braços femininos envolvem o protagonista para dentro da porta. E como negar a brilhante montagem de cenas como a sequência final de resgate, onde as concatenações de imagem e jogos de antecipação criam uma expectativa vigorosa sobre os eventos e personagens - a ponto de, para nosso completo horror, nos pegarmos torcendo pelos cavaleiros da Klan chegarem a tempo do socorro? É admirável inclusive como Griffith já consegue criar esse suspense mesmo com episódios previamente conhecidos por seu público, vide o assassinato de Lincoln onde o atentado iminente não impede a suspensão das imagens e a tensão da montagem.

Assumir a qualidade estética não significa negar o conteúdo ideológico, o qual também se presentifica no plano imagético. Griffith dialoga abertamente com um saudosismo romântico Biedermeier para exaltar este passado sulista rural e pacato, sobretudo no plano da cenografia, dados os jardins e "bosques do amor", os quartos com bibelôs da mocinha de Lillian Gish e o hall com escadaria dupla da mansão dos Cameron. Este último, inclusive, é símbolo de resistência ao manter-se intacto durante todos os anos da guerra, preservando, junto às colunas da entrada, o orgulho e monumentalidade da arquitetura sulista, mesmo com a franca decadência dos donos da casa. Ismail Xavier fala da contradição de um cineasta que desenvolve a principal mídia artística da modernidade ao mesmo tempo em que veicula um discurso provinciano e conservador. O Nascimento de uma Nação reflete esse impasse na transição dramática entre o Sul anterior e contemporâneo à modernidade ou à chegada dela, e a solução de Griffith é atualizar um repertório tradicional de imagem para o novo contexto de seu tempo: na jovem América, o melodrama vitoriano e o romance de cavalaria são repaginados no cavaleiro branco da Ku Klux Klan, que salva a mocinha branca das taras de um mulato.

Em certo sentido, O Nascimento de uma Nação revela o grotesco ideológico escondido ou mesmo explicitado no idealismo romântico. Intencionalmente ou não, Griffith escancara em seu saudosismo sulista o horror de um EUA ainda extrema e cruelmente intolerante. Não é preciso ir muito longe para encontrar a perversão ética/estética: ela está presente no próprio quadro pitoresco com flores e bibelôs ou no retrato cerimonioso de um cavaleiro mascarado, mesmo que na caricatura figurante, relegada às bordas da imagem.

Fonte: XAVIER, Ismail. D. W. Griffith - O Nascimento de um Cinema. São Paulo: Brasiliense, 1984.

Por Luís F. Beloto Cabral, em 28/06/2017 Avaliação:                 8.0
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