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Trama Fantasma

(Phantom Thread, 2017)
Por Danilo Calazans Avaliação:                 8.0
Este comentário é recomendado pela equipe Cineplayers.

Trama fantasma: o verdadeiro “doentes de amor”

Sabe aquele filme que você termina um tanto perplexo e precisa de tempo para digerir e compreender tudo o que viu? “Trama Fantasma”, novo filme do respeitado cineasta Paul Thomas Anderson (de sucessos como “Magnólia” e “Sangue Negro”) é exatamente um desses exemplos – pelo menos foi assim comigo. Lembro que ao final da sessão não sabia ao certo se tinha gostado ou não, se o achava pretensioso demais ou simplesmente raso, com pouco a dizer.

Porém, embora ainda tenha uma ou outra ressalva (especialmente quanto à relação do protagonista com sua falecida mãe, que me parece abandonada ao longo da narrativa), compreendi que o principal motivo de eu não ter amado “de cara” o filme foi a capacidade do diretor em subverter constantemente minhas expectativas enquanto espectador, me deixando contrariado e as vezes até “aborrecido”.

Uma história de amor pouco convencional

Primeiramente, por mais que o filme conte a história de Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis), um respeitadíssimo estilista exigente e firmemente condicionado a uma rotina onde todos a sua volta o temem pelo gênio forte durante a década de 50, “Trama Fantasma” não é essencialmente um filme sobre moda. Por mais que a chegada de uma mulher simples, mas de forte personalidade (Vicky Krieps) quebre aos poucos essa rotina e um sentimento floresça entre ambos, também não é uma história de amor convencional. Sendo assim, quando finalmente fiquei convencido da proposta do diretor, consegui reconhecer as qualidades inegáveis e peculiares da obra.

Sem revelar muito sobre o filme, para mim, “Trama Fantasma” é uma história sobre controle e disputar o “poder” em uma relação. Reynolds era tão respeitado e talentoso que se considerava superior aos demais – uma de suas primeiras frases marcantes, “Eu não tenho tempo para confrontos”, já reforçava que, ou as coisas são do jeito dele ou ele descartaria sem o menor remorso qualquer um que discordasse – obviamente, isso vale para suas musas e amantes, as quais dedica atenção e paciência mínimas, se preocupando apenas em não ser incomodado enquanto pensa no trabalho.

Aconselhado pela irmã Cyril (Lesley Manville) – a única pessoa que arrisca discordar eventualmente do estilista -, Reynolds parte para o campo provavelmente em busca de inspiração (ou descanso), quando se depara com Alma (Krieps), uma garçonete aparentemente atrapalhada, mas que o conquista pela espontaneidade e inteligência quando testada a anotar o enorme pedido feito por ele. Alma também se sente atraída pelo homem elegante e seguro que é Reynolds, e como ele enxerga a beleza no simples, fazendo as mulheres se sentirem realmente especiais.

Me beije, minha garota, antes que eu fique doente

Ainda falando sobre a dinâmica entre o casal, que vai sendo construída pacientemente – e talvez por isso possa ficar aquela sensação de que o filme “demora” para engrenar –, Reynolds se considerava um solteiro convicto, que aparentava temer o casamento. Ele parece alguém impenetrável, que aprendeu a costurar segredos nas roupas que confeccionava, incluindo na sua própria – em determinado momento, ele menciona que carrega sua mãe sempre consigo no forro de um paletó. Não gosta de surpresas e tem grande dificuldade em se abrir emocionalmente. Em outras palavras, Reynolds não suporta a ideia de se sentir vulnerável.

No entanto, apenas o amor de uma jovem destemida como Alma seria capaz de ir quebrando aos poucos aquela barreira emocional. E um dos grandes méritos do filme é justamente a forma inusitada como o roteiro e a direção de PTA fazem para aproximar o casal, sem receio de “afugentar” o espectador, afinal, quem sabe explicar as loucuras do amor e da natureza humana? E nesse jogo de poder, disputas e desafios, ambos vão mudando aos poucos e se sentindo cada vez mais parte um do outro.

“Trama Fantasma” se destaca por ser mais um filme bastante diferente na diversificada filmografia do diretor. Contando com um trio principal extraordinariamente bem escalado, a história (que poderia passar completamente despercebida não fosse o anúncio do último trabalho de Day-Lewis como ator) ganha notoriedade graças a capacidade de entrega dramática do elenco, com atuações hipnotizantes. Se essa foi realmente a despedida de um dos grandes atores de sua geração (recordista de Oscars de Melhor Ator e que pelo filme conseguiu mais uma indicação), certamente foi uma despedida digna do status que merecidamente alcançou.

Considerações finais

Tecnicamente, o filme também merece elogios. Por mais que não seja a direção mais inspirada de PTA em termos de composição (pelo menos ao meu ver, embora o filme mereça uma revisita em breve), algumas categorias já esperadas não deixam a desejar, como a direção de arte e figurinos. A fotografia não foi creditada a ninguém em específico, embora tenha sido anunciado no início do projeto que o próprio diretor se encarregaria – que depois alegou que não tinha o conhecimento necessário – e conta com alguns planos elegantes e belíssimos, como o salão no Ano Novo.

Mas o destaque vai mesmo para a trilha sonora de Jonny Greenwood (guitarrista da banda Radiohead), que de tão importante para o saldo final praticamente dita toda a atmosfera do filme, desde os temas clássicos que reforçam o romance e ambientam a geografia da trama (não apenas a época, mas também o clima aristocrático que envolve os personagens), quanto à tensão e angústia que vão gerando a estranheza das reviravoltas com o decorrer do filme.

Algo me diz que “Trama Fantasma” é mais candidato a se tornar um clássico do cinema e resistir ao teste do tempo do que qualquer outro dos indicados ao Oscar esse ano. Porque ao contrário de todos (sob minha ótica, é claro) que me impressionaram a princípio e foram caindo quanto mais eu pensava sobre eles (com exceção de “Três Anúncios Para um Crime”), meu gosto pelo filme de Paul Thomas Anderson cresce cada vez mais (isso já havia acontecido comigo em “O Mestre”, outro filme do diretor que passei a amar com o tempo). Um romance bastante peculiar, não é um filme “fácil”, certamente, e até compreendo quem não gostou. Mas mesmo que deixe um sabor amargo, é difícil não reconhecer suas enormes qualidades.

E você, já assistiu ou está ansioso para ver? Concorda ou discorda da análise? Deixe seu comentário ou crítica (educadamente) e até a próxima!

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Por Danilo Calazans, em 02/03/2018 Avaliação:                 8.0
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• Daniel Dalpizzolo 7.5
• Silvio Pilau 7.0
• Heitor Romero 8.5
• Marcelo Leme 8.0
• Bernardo D.I. Brum 8.0
• Francisco Carbone 10.0
• Rafael W. Oliveira 9.0
• Felipe Leal 8.0
•  Média 8.0
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