Mais uma trilogia de sucesso que se fecha: com L’Âge des Ténèbres o cineasta canadense Denys Arcand termina a série iniciada em 1986 com O Declínio do Império Americano e sua famosa continuação, em 2002, As Invasões Bárbaras, vencedor do prêmio de melhor atriz (a bela Marie-Josée Croze) e melhor roteiro no Festival de Cannes e do Oscar de melhor filme estrangeiro (que rendeu também uma indicação para o diretor como roteirista).
L’Âge des Ténèbres mostra o que acontece, na época atual, depois que o Império (EUA) desabou e vieram as invasões bárbaras (os imigrantes): a idade das trevas teria uma epidemia global que deixava inúmeras vítimas (como a peste negra na Era Medieval) e as guerras santas – para o diretor, já começaram quando os EUA invadiram o Iraque. O inimigo agora tem o rosto dos muçulmanos (como também eram os árabes 1.000 anos atrás).
Assim, Montréal estaria ameaçada por uma gripe que obriga a todos a usar máscaras diariamente, enquanto os exércitos se mobilizam para culpar o fundamentalismo islâmico pelas agruras do entravado estágio do capitalismo atual, como materialismo desenfreado, burocracia infernal e trânsito enlouquecedor, que obriga a classe média a morar na cada vez mais cara e distante periferia (no filme, as imagens são da caríssima e cafona cidade-dormitório de Longueil, ao sul da ilha de Montréal). A personagem principal, um funcionário público com vida familiar medíocre, tenta buscar alguma espécie de alívio masturbando diariamente e tendo fantasias eróticas em que se vinga de todos por meio de torturas, sexo sodomita, lascívia e sucesso na mídia.
Para o diretor, a sociedade atual caminhou para um momento em que o consumo tenta suprir as demais necessidades, digamos, “espirituais” das pessoas. Ninguém mais sai do telefone celular, com o I-Pod grudado permanentemente no ouvido, fora a enxurrada de jogos eletrônicos feitos para distrair e alienar todos do seu entorno. As escolhas do diretor são fáceis de identificar: em Montréal, a sede da maior companhia telefônica do mundo, a Bell Canada, é um paraíso do telefone, pois por $25 mês fala-se sem limite pelo celular ou fixo para ligações locais, inclusive quaisquer outros celulares. Aqui, ninguém sai do telefone. Além disso, o Canadá tem o I-Pod mais barato do mundo, graças a pesados incentivos fiscais do governo para a construção das fábricas. Por fim, há a City de Montreal, um quarteirão inteiro com quase 200 empresas especializadas no desenvolvimento de jogos eletrônicos, o que transformou a cidade numa das maiores produtoras mundiais.
Com a morte da mãe (nem toda a evolução médica conseguiu suprimir a dor na hora da morte para várias doenças, no caso, o mal de Alzheimer), o personagem se desespera, anuncia a sua demissão e caminha para um fim que não sabemos qual seria, talvez o suicídio, mais um numa cidade lotada deles (o Canadá tem a segunda maior taxa de suicídios do mundo, atrás só do Japão; entre os adolescentes de 11 a 14 anos, chega a 20% dessa população).
Em O Declínio do Império Americano, Arcand traçou um perfil da classe média que começava a se desencantar do ideal esquerdista dos anos 60. Os valores como sexo livre e comunismo já não faziam parte do cotidiano da maioria dos ditos intelectuais ou da parte mais escolarizada e esclarecida da sociedade. O ideal “burguês” prevalecia e as mordomias do capitalismo venciam, com folga, as propostas utópicas. No filme de Arcand, a classe média aderia ao novo mundo com o mesmo fanatismo com que abraçou as causas proletárias duas décadas antes.
Em As Invasões Bárbaras, Arcand faz um balanço do que restou e o resultado não é nada gratificante: as utopias esquerdistas não só estavam ultrapassadas como foram um erro horrível, enganando muita gente, causando morte e sofrimento desnecessário, atrasando o progresso etc. Estavam longe de estar erradas, mas sobra cinismo hoje para que isso não seja lá muito preocupante. Inesquecível a cena quando todas as personagens, enfileiradas, diziam um a um todos os “ismos” que abraçaram e depois se arrependeram: socialismo, comunismo, feminismo, existencialismo, homossexualismo, maoísmo, trostkismo e um longo etc.
L’Âge des Ténèbres (inexplicável o título brasileiro de A Época da Inocência) não é tão bom quanto os dois filmes anteriores porque não investe tanto na comédia, na sátira e na crítica aos medos contemporâneos. Tampouco é um filme inteligente como os anteriores. Mas não se trata de um erro do diretor. Seu fecho para a trilogia é propositalmente mais leve na forma e, ao mesmo tempo, pesada no conteúdo. Anunciou que não volta ao tema e dá para ver na feitura do filme que esgotou o assunto.
Portanto, não espere o mesmo humor cortante dos filmes anteriores. A crítica à esquerda deu ao diretor críticas negativas na França, onde os jornalistas o chamaram de “velho neocon”. Não é um filme fácil de se gostar, sua visão é negativa demais para causar na platéia uma sensação de catarse que ela tanto busca quando vai ao cinema, ainda mais no fim de uma trilogia.