Três anos após ter lançado Os Caçadores da Arca Perdida, Spielberg embarcou em sua primeira seqüência da carreira com O Templo da Perdição, o segundo filme da franquia Indiana Jones; só que, na verdade, se passa antes do original, funcionando como um prequel para o personagem. O curioso foi perceber que, após anos sem vê-lo e tirar a poeira do DVD, quase todas as recordações boas que tinha sobre o filme ficaram lá atrás, pois o resultado do longa é quase desastroso. Depois de uma brilhante estréia, Indy havia embarcado em uma furada demoníaca ao invés do espírito inocente e grandioso de aventura a que havíamos sido apresentados.
Talvez o maior defeito seja mesmo sua história: ela é simplesmente ruim. Depois do mini-filme inicial padrão da série, em que Indy foge de avião das garras de um inimigo, após o logo da Paramount ter se tornado algo real, encaramos a linha vermelha que nos leva à Índia, onde o avião de Indy se choca contra as montanhas. Lá, ele descobre que uma pobre vila teve sua pedra sagrada roubada por um feiticeiro e resolve ajudá-los. Ele só não contava com a magia negra do local, que revela-se ser muito mais do que uma lenda, para dificultar sua vida.
A questão aqui é que o filme, depois de sua abertura cheia de ação e da introdução do problema na vila da Índia, passa-se quase que totalmente no mesmo lugar, e Indiana Jones não é isso, é exploração, descobrir novos lugares, é aventura. Erroneamente, o filme dedica mais de meia hora de seu tempo apenas em um ritual macabro, realmente algo não agradável de se acompanhar. O grande problema disso é que é algo totalmente diferente do que vimos em Os Caçadores da Arca Perdida; essa passagem inteira não tem absolutamente nada a ver com Indiana Jones, e a minha expressão ao embarcar novamente nesse mundo foi um incômodo tédio.
Depois de um longo hiato de uns quarenta e cinco minutos sem a menor ação, Indy deve escapar do local e libertar as crianças, usadas como escravos pelo templo que dá nome ao filme. Além de altamente macabro, com algumas cenas bastante violentas, de tortura e adoração ao demônio, ficamos muito a mercê de se interessar pelo tema ou não. Só quando o relógio já bate quase uma hora e meia de produção é que Indy, logo após recuperar seus pertences e gradualmente ser iluminado por um carrinho minerador, o tema volta a tocar forte para sua aparição. Pena que ali já é tarde, o estrago todo já estava feito.
Domado de um final que resgata o espírito Indiana de ser (a seqüência em que dois homens vêm girando suas espadas e Indy procura a pistola para executá-los igual ao homem no mercado do primeiro filme é hilária), o longa, mesmo que em poucas passagens, consegue marcar positivamente, salvando-o de uma tragédia total, como o mentiroso salto do avião usando um bote inflável (demais!) ou então a corrida marcante de carrinhos pelos trilhos perigosos da mina, talvez a cena mais famosa de todo esse longa (e que havia sido cortada do primeiro filme, sendo aproveitada apenas nesse segundo trabalho).
Além de Harrison Ford reprisando o maior papel de sua carreira de maneira extremamente eficiente (é divertidíssimo ver as caras e bocas que faz enquanto passa perigo), mesmo que prejudicado pelo roteiro ocioso e sem sal que toma grande parte do tempo do filme, ainda há três destaques no elenco, um positivo, um mediano e um bem negativo: em ordem, Jonathan Ke Quan interpretando o pequenino Round (sim, é o japinha de Os Goonies), Amrish Puri como o feiticeiro Mola Ram e Kate Capshaw como o par romântico de Indy (ela viria a se casar com Spielberg depois do filme e é sua mulher até os dias de hoje).
Divertido, com timming cômico perfeito e sendo uma boa companhia para Indy na maior parte do tempo, Round é um jovem que deveria ter aparecido mais vezes na série, tamanho o “paizão” que Jones demonstra ser para ele. Já o feiticeiro Mola Ram é até um bom vilão, mas aparece tarde demais no longa, faz algumas maldades, mas sinceramente não há tempo em tela para sentirmos algo mais por ele. É um personagem que acabou sendo muito mal aproveitado. Já a irritante Willie é uma das personagens mais detestáveis que já vi na série. A torcida para que algo de ruim acontecesse a ela foi uma surpresa, e fica difícil saber se a culpa é da atriz ou da personagem; acho que um meio a meio é o mais justo aqui. Ao mesmo tempo em que ela deveria ser irritante, ela convence demais. O problema é que não pelo talento, e sim por exageros e caretas durante todo o filme.
Uma observação aqui: apenas como curiosidade, Spielberg seguiu o mesmo raciocínio para nomear seus personagens. Se Indiana Jones é o nome do cachorro de George Lucas, Short Round é o nome do cachorro do roteirista Willard Huyck e Willie o de Steven Spielberg. Outra curiosidade legal é que, fã confesso de David Lean, Spielberg filmou no Sri Lanka, em algumas locações iguais as de A Ponte do Rio Kwai, por causa da dificuldade imposta pelo governo da Índia para filmar no país, o mesmo problema que Lean teve que enfrentar alguns anos antes.
Uma pena que Indiana Jones e o Templo da Perdição não seja tudo o que poderia ser. Compacto demais, não consegue captar e transmitir o espírito de aventura que todos esperamos de Indy, tornando-se o pior filme dos quatro lançados sobre o herói até hoje. Mesmo que O Reino da Caveira de Cristal tenha os seus defeitos, ele é muito mais aventura anos quarenta do que essa tortura aqui, mas também muito menos do que o próximo capítulo a ser abordado em nosso especial, A Última Cruzada; a melhor de todas as aventuras do arqueólogo mais querido do cinema.