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Caminhos Perigosos
(Mean Streets, 1973)

Por Juliano Mion
07/07/2008

 Não é o melhor filme de Scorsese, mas ainda assim é imperdível para fãs do diretor.

“Você não paga seus pecados na igreja. Você os paga nas ruas. Em casa. O resto é besteira, e você sabe”, sentencia o personagem de Harvey Keitel logo no início de Caminhos Perigosos, ainda na tela preta, em off. O impacto da afirmação vai além da sua função de servir de introdução ao filme e ao universo o qual aborda. É a melhor frase que sintetiza toda a extensa e maravilhosa obra do grande diretor e amante do cinema que é Martin Scorsese. É, ainda, o marco zero de uma nova linguagem e forma de se realizar o cinema americano.

Logo após o anúncio profético, é de se esperar chumbo grosso pela frente. Então a imagem corta para Harvey Keitel acordando bruscamente. Já é dia, e ouvem-se as buzinas e barulhos do centro de uma metrópole.  Levanta-se da cama em um quarto um tanto underground, quando logo se percebe um crucifixo na parede. Então o personagem olha sua imagem contra o espelho, ouvem-se agora alarmes e sirenes de polícia, buzinas novamente. Volta para a cama, feição preocupada e pensativa. Ao cair com a cabeça lentamente, soam as baquetas da introdução de um dos maiores sucessos pop dos anos 60: “Be My Baby”, do lendário Phil Spector e do grupo vocal feminino o qual produzia, The Ronettes. É brilhante demais para ser verdade: um tema pop romântico adolescente, que anos mais tarde seria incluído em longas como Dirty Dancing, abrindo um filme sobre o submundo dos pequenos crimes, e toda sorte de traficantes, escroques, sacripantas e vigaristas. Há certa ironia no ar, porém mais do que isso, uma grande sensação de nostalgia.

A música serve de trilha para a abertura do filme, que por sua vez consiste na projeção de uma filmagem do tipo amadora, algo como a abertura do seriado televisivo Anos Incríveis (Wonder Years), exibindo o protagonista fazendo graça frente à câmera, junto de seus amigos, do padre, assim como imagens de um recém nascido, de um bolo de aniversário, bem a moda dos filmes caseiros. Não por acaso. Scorsese diz que este é um dos filmes mais autobiográficos, que leva para as telas o ambiente que vivenciou em sua juventude junto de seus amigos do bairro Little Italy, em Nova York, onde a trama se desenvolve. Os protagonistas são Charlie (Harvey Kietel), amigo e protetor de Johnny Boy (Robert de Niro), um jovem irresponsável e caloteiro, primo de Teresa (Amy Robinson), com quem o primeiro está tendo um romance. As ambições de Charlie para entrar para o mundo da máfia são grandes – porém a má reputação de suas companhias é uma perigosa ameaça.

O roteiro não tem a engenhosidade de outros filmes seus como Os Bons Companheiros ou Cassino, tampouco os personagens são dotados da densidade e profundidade de Jake La Motta em Touro Indomável ou Travis Bickle de Taxi Driver. Se há uma observação a ser levantada para este roteiro é uma possível falta de caldo na trama, certa ausência de concisão, onde espera-se de um filme mais “barra pesada” como este talvez uma sucessão de acontecimentos mais palpável e com mais ritmo. Também pudera, o filme é de 1973 e praticamente seu segundo longa profissional – isto se assim for classificado seu curioso antecessor “Quem Bate à Minha Porta?”.

Mas o que vale mesmo em Caminhos Perigosos é a linguagem. Impossível não achar genial um ingênuo e bom caráter candidato a gângster, sair de uma cena onde está se confessando na Igreja, buscando penitência e redenção, para diretamente, logo na seqüência, entrar em um inferninho, uma “zona” cheia de strippers, tudo ao som da primeira composição Jagger/Richards que veio ao mundo, a balada “Tell Me (You’re Coming Back)”, lá do primeiro disco dos Rolling Stones, de 1964. Ou então nas cenas onde o “o pau come solto”, onde ao fundo estão rolando canções pop dos anos 60, clássicos da gravadora Motown, como “Please Mr. Postman” do grupo The Marvelettes. Complementam a trilha ainda muitos outros destes grupos de pop vocal dos anos 50 e 60 como The Shirelles, The Miracles, The Chips, The Charts e tantas outras pérolas que só um grande pesquisador de música como Scorsese poderia encontrar. Há ainda, bem a moda “italian-american” de Scorsese, o uso de canções italianas principalmente nos momentos de reunião familiar-mafiosa, onde são inseridas músicas de Guiseppe di Stephano e Renato Carosone. A trilha sonora neste filme tem um papel muito importante, pois Marty consegue uma associação imagem-som um tanto inédita no cinema – irônica, bem-humorada, original e, ao contrário do que se possa imaginar, muito conexa. O espectador é apresentado às cenas violentas em um tom quase saudosista, complacente, poético. Assim como em Pulp Fiction, assim como em A Outra Face, quando, durante um tiroteio, ouve-se ao fundo “Somewhere Over the Rainbow”.

A originalidade da linguagem não se resume ao seu sincretismo áudio-visual, contudo. Logo no início percebe-se estar diante de uma obra ímpar no cinema, já na apresentação dos personagens, feita sob a forma de legendas, recurso assim como posteriormente foi utilizado em diversos longas, como no brasileiro Cidade de Deus (Fernando Meireles já mencionou a influência do diretor no seu trabalho).  Com o desenrolar do enredo, fica evidente a intenção de Scorsese em realizar um filme com o intuito de mesclar referências da cultura italiana e americana – bem simbolizado no dialogo na beira-mar em que Charlie diz a Teresa sua lista das coisas que gosta: “Macarrão com molho de mariscos, São Francisco de Assis, frango com limão e alho, John Wayne, montanhas e arranha-céus – afinal são a mesma coisa”. Assim como qualquer outro de Marty, é um filme para quem busca uma obra autêntica, que passa longe de qualquer didatismo, moralismo, demagogia do politicamente correto ou do bom-mocismo volta e meia freqüente no cinema americano e nas produções de TV – incluindo aí até as telenovelas brasileiras. Há ainda o conflito interno do protagonista quanto ao seu próprio machismo e racismo, o que rende, dada altura do filme, uma comparação sua com a imagem de uma suástica. Como não poderia deixar de ser – afinal este é um filme autoral de um grande pesquisador e amante da sétima arte – o filme é repleto de referências ao cinema, como mais uma homenagem ao filme Rastros de Ódio, assim como já havia sido feita no filme antecessor do diretor.

As atuações são simplesmente ótimas – com destaque para a de Robert De Niro. Sua interpretação do porra-louca encrenqueiro Johnny Boy lhe valeu a ascensão no cinema, e uma duradoura parceira com o diretor que lhes renderam obras-primas, como são geralmente descritos alguns dos filmes posteriores que realizaram juntos já citados nesta crítica. Amy Robinson, a grande presença feminina no filme, interpreta a sensual e “boca-suja” Teresa. Embora sem o destaque dos personagens masculinos, impossível esquecer de sua participação na película, sobretudo em suas cenas de nudez – sem querer soar machista, é claro (aliás, comumente Scorsese recebe este tipo de crítica). E Harvey Keitel, o alter-ego do diretor nos seus primeiros filmes, o homem que personificou os conflitos interiores vividos pelo próprio Scorsese (que oscilava entre a profissão de padre e a de cineasta), o qual deve muito ao diretor pela carreira que teve. Keitel foi escalado para “Quem Bate à Minha Porta?”, o primeiro longa de ambos, quando ainda era um ator desconhecido dos teatros de Nova York, e Scorsese ainda um promissor diretor que concluía sua graduação em cinema. A equipe havia ficado tão entusiasmada e impressionada com o seu trabalho e fotogenia em sua atuação no primeiro filme que ele acabou sendo a escolha natural para Caminhos Perigosos.  Aliás, para quem for se arriscar por esta cinematografia ítalo-americana do diretor, é uma boa pedida assistir “Quem Bate à Minha Porta?”, que apesar do baixo-orçamento e ainda de um certo amadorismo, é o estado embrionário de tudo o que falamos aqui.

Mas que seja logo dito: certamente Caminhos Perigosos não é melhor de Martin Scorsese. Mas é imperdível para os fãs do diretor, essencial para entender todo legado do cineasta nova-iorquino – e porque ele é tão influente. Eu diria que, de todos os seus filmes, este é sem dúvida o mais “Scorsese” que poderia haver. O que existe de mais característico em seu trabalho está todo ali: a dualidade entre a vida cristã e o mundo subversivo, o voyeurismo nas entranhas da máfia e do baixo clero do crime, os diálogos afiadíssimos, as citações a filmes clássicos, cenas grotescas de violência, muita porrada e quebra-quebra, o inteligente e nada óbvio uso de trilha rock ‘n’ roll - tanto na escolha das músicas quanto na dos momentos em que são inseridas. Acima de tudo, uma obra de grande qualidade cinematográfica e com um apelo pop irresistível que fez escola. O que certamente explica as razões pelas quais Scorsese seja frequentemente citado por diretores como Quentin Tarantino e Paul Thomas Anderson, entre outros, como uma grande (senão a maior) influência. Alias, Tarantino faz menção especialmente a este filme como uma referência e inspiração em toda a sua obra – o que fica bem claro ao assisti-lo. Se foi para eles, pode ser para você também – por que não? 


Por Juliano Mion
07/07/2008
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|| ficha do filme ::.
 Caminhos Perigosos
(Mean Streets, 1973)
» Direção:
- Martin Scorsese
» Elenco:
- Harvey Keitel
- Robert De Niro
» Sinopse: Harvey Keitel é Charlie, um homem que trabalha para crescer no submundo dos guetos de Little Italy, em Nova York. Ao seu lado, porém, está Johnny Boy (De Niro, em sua primeira parceria com Scorsese), ...
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