(Cobertura do Festival do Rio 2008)
É bom saber que o cinema russo se atualiza para além de ícones consagrados como Sergei Eisenstein, e Sereia é um bom representante disso. Contando a vida de Alisa (Mariya Shalayeva) desde a situação que envolve a sua concepção, até a sua maioridade, vemos a garotinha que nasce numa cidade litorânea de poucos habitantes sonhando em ser bailarina, e sua família de mulheres desajustadas. Alisa fala com a brisa e também é capaz de realizar desejos, até o dia em que descobre que precisará saber dosar esse poder. O diferencial de Sereia se enquadra bem na definição de uma escola literária latino-americana conhecida como realismo-maravilhoso: a ação mescla absurdos e dureza real, até o ponto em que a fantasia estoura os limites da realidade e parece naturalizada, e mesmo assim, nada garante que Alisa tenha realmente algum poder.
Quando a família de Alisa se muda para a capital Moscou, a personagem sai da cidade-aquário de vida petrificada em que vivia, e no corpo vivo da metrópole, quando pensamos que a delicada personagem perecerá, eis que ela entorta o real e joga Moscou para dentro de sua bolsa: É sob o olhar anti-convencional da protagonista que seguimos pela dura vida das classes baixas russas e aprendemos a encarar a vida sob os olhos de alguém que não é deste mundo. Nada é absurdo pra ela, nem mesmo o fato de que o primeiro homem pelo qual se apaixona, Sacha (Yevgeni Tsyganov), mantenha uma vida luxuosa à custa da venda de terrenos na lua.
Entre ser o recheio de um celular ambulante para ganhar grana e sua amizade com uma mulher sem pernas, estamos sempre dentro dos sonhos da protagonista, que sofrendo pela ausência da figura paterna, aos poucos vai substituindo o velho escafandro que associava ao pai pela presença de Sacha em sua vida. Alguma coisa de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças e de Clementine Kruczynski na cor que Alisa escolhe para os cabelos, faz a ponte entre uma personagem e outra, apesar de vermos que ela se inspira no visual de Milla Jovovich em O Quinto Elemento. Assim é que com seus cabelos verdes, finalmente Alisa consegue ser enxergada, já que muito lucidamente vemos a personagem reclamar sobre nunca ter comido abacaxi e sobre não ser ninguém de verdade na vida. E é assim também que ela se transforma oficialmente numa mulher vinda da lua, quando finalmente retorna pro lugar de onde todos viemos.
Apesar de a ação tornar-se pesada e cansativa antes da entrada de Sacha, o mundo dessa sereia é tão rico em sua idiossincrasia que é difícil não torcer por ela, tanto quanto por todas as malucas de cabelo verde que o cinema já produziu.