Hiroshima Meu Amor é formado de três partes e fica ao gosto do freguês escolher qual delas é a que mais lhe interessa. A primeira é a antológica abertura em forma de documentário mostrando os horrores que a bomba atômica causou à população de Hiroshima. Entre cenas de gente mutilada, carbonizada e agonizando de câncer, o cineasta Alain Resnais passeia com sua câmera fantasmagórica ao som da música minimalista de Georges Delarue e a fotografia expressionista de seu fotógrafo, Sacha Vierny, pelos escombros, ruínas e museus da cidade japonesa. Hiroshima Meu Amor é um dos mais contundentes retratos de uma parte da Segunda Guerra Mundial que aparece bem pouco no cinema se comparado à enxurrada de filmes sobre o tema que nos chega todo ano – claro, os americanos, que dominam a produção cinematográfica, não vão querer se lembrar desse episódio vergonhoso para eles, vão preferir mostrar seus atos de heroísmo.
Eu vi tudo em Hiroshima.
Não, você não viu nada em Hiroshima.
Um amontoado de frases desconexas permeia essa parte e todo o filme, frases essas que marcaram para sempre a história do cinema, da atriz francesa, em Hiroshima para gravar um filme sobre a paz, diz para o amante japonês, enquanto acaricia sua pele branca e suave. É a segunda parte da trama, que conta a talvez romântica, mas sem dúvida tristíssima história de amor entre ela e ele, ambos casados, ela atriz, ele arquiteto, que têm um descompromissado caso. Almas dilaceradas, sofridas, separadas em tudo, estranhamente unidas. A dilacerante atração física dos dois os levará a exorcizar suas memórias de amor e dor.
Eu nasci em Nevers.
Eu cresci em Nevers.
Eu aprendi a ler em Nevers.
E foi em Nevers que eu fiz 20 anos.
A terceira parte é um flashback que remonta a adolescência dela em Nevers, na Bretanha, na época da ocupação nazista. Ela se apaixona por um oficial alemão, desonra toda a família, termina louca trancafiada no subsolo comendo lodo das pedras, gritando enlouquecida pelo amante (morto quando iria encontrar-se com ela), por fim obrigada a fugir para Paris de bicicleta aos 18 anos. Tudo mostrado em cenas amontoadas, dando a impressão de memória fugidia, técnica que o filme foi pioneiro.
Você me mata.
Você me faz bem.
O que levou Hiroshima Mon Amour a marcar toda uma geração de cinéfilos foi a possibilidade aberta pelo filme, em 1959, de um filme total, um produto refinado que fosse ao mesmo tempo cinema, literatura, política, história. Com seus personagens sem nome, seu engajamento ideológico (o homem como animal politico), as inúmeras referências da alta cultura, o jogo assimétrico das imagens e a intensa exploração da arquitetura das cidades envolvidas, tudo levava a crer que o cinema se expandia e ia muito além da vulgar diversão para as massas, especializada em contar historietas com início, meio e fim, para firmar-se enfim como arte, uma grande arte que poderia envolver todas as outras. Para o cineasta Eric Rohmer, Hiroshima Mon Amour é o mais importante filme pós-moderno do cinema.
Afinal, Hiroshima Mon Amour era a versão para as telas do movimento francês do nouveau roman. Escrito por uma de suas estrelas, Marguerite Duras (que foi indicada ao Oscar por este roteiro), é provavelmente a terceira versão para um episódio de sua adolescência, um caso que ela teve aos 15 anos com um amante japonês na Indochina. Em pelo menos dois livros, o mais famoso e também levado às telas O Amante, e O Amante da China do Norte, ela escreveu sobre a mesma história, com as mesmas cenas, mas, como a memória não é confiável, deixa-se influenciar pelo presente, some em algum canto do cérebro e volta depois transfigurada, Duras, num espaço de 10 anos, escreveu o mesmo livro duas vezes e o resultado é completamente diferente.
Hiroshima Mon Amour foi o primeiro longa de Alain Resnais, que faria da memória o grande tema de seu cinema. Ele vinha de uma obra-prima, o média-metragem e pseudo-documentário Noite e Nevoeiro (Nuit et Brouillard, 1956) e, para criar a hipnótica narrativa do filme, inspirou-se na montagem dos filmes russos mudos, fazendo passado e presente coexistirem simultaneamente, com a memória se imiscuindo na realidade. Trouxe também o cubismo para o cinema. Venceu o Prêmio da Crítica no Festival de Cannes, em sua carreira multi-premiada.
O ator japonês, Eiji Okada, morreu em 1995, não sem antes participar de outra obra-prima, A Mulher de Areia (1964), de Hiroshi Teshigahara. Marguerite Duras morreu um ano depois, em 1996. O fotógrafo Sacha Vierny morreu em 2001, não sem antes se tornar num dos maiores do seu ofício, em especial com suas colaborações na melhor fase de Peter Greenaway. Georges Delarue morreu em 1992 e há quem venere suas partituras, em especial as muitas que ele fez para Jean-Luc Godard.
Toda a geração que fez a revolução cultural dos anos 60 está se aposentando, entre eles os chamados baby-boomers, a maior parte foi para a direita e renega o passado, de forma que filmes como Hiroshima Mon Amour dificilmente serão feitos novamente, até porque não existem outros movimentos culturais de peso em andamento. Natural, portanto, o desprezo que vários leitores do Cine Players, principalmente os mais jovens têm pelo cinema de Resnais, como se pode ler pelos fóruns. Não compreendem o quanto o filme tem de revolucionário, não é importante para eles. Normal na história da arte: mudam-se as gerações, mudam-se os valores.
Aqui os parâmetros são outros. Enquanto a mulher vê crianças órfãs deformadas pela radiação, o japonês lhe morde a orelha dizendo "Eu creio que eu te amo". Alguns das “vítimas” aparecem no meio da multidão sorrindo, enquanto fotos de seus corpos destroçados passeiam em cartazes numa passeata. Ao contar a história do amante alemão, ela pensa que o traiu, pois contar uma história é também uma forma de esquecê-la. A própria história de amor com o japonês se transforma em memória.
Seu nome é Hiroshima.
E o seu é Nevers, na França.