Na tentativa de se enquadrar no gênero de comédias latinas aos moldes almodovarianos, Embarque Imediato fica devendo muitas risadas ao espectador, ainda que seja fácil reconhecer que Marília Pêra e José Wilker estejam se divertindo enquanto atuam, um dos detalhes mais bacanas de se perceber sobre o filme.
A despeito da presença de atores deste porte, a estética do filme nos remete a uma produção de expectação televisiva, ou seja, aquela que permite ao espectador estar disperso entre outros tantos estímulos ao mesmo tempo em que assiste ao filme, o que o faz perdoar facilmente algumas pequenas incoerências de roteiro ou a falta de amarração de algumas linhas narrativas. No cinema essa displicência não passa impune.
Dizendo de maneira mais clara: algumas situações simplesmente não são explicadas pelo roteiro. Por exemplo, a insistência de Wagner (Jonathan Haagensen) em mudar-se para Nova York, o que é o mote existencial do personagem na trama. As duas únicas chances que se tem para entender esta obsessão são uma conversa do personagem - via programa de mensagem instantânea - com uma mulher que só voltará a aparecer num delírio do rapaz, arrasado diante do fracasso de sua última tentativa em conseguir grana para a viagem. Outra cena envolvendo o personagem de Haagensen deixa o espectador com mais um ponto de interrogação na testa: visitando o pai em busca de ajuda financeira, Wagner encontra também um menino com quem aparenta ter uma relação forte - talvez um irmão, quem sabe um filho? - algo que só poderemos supor pela risível semelhança do penteado entre os dois.
Se o trio de roteiristas Aloysio de Abreu, Marcelo Florião e Laura Malin suprimiu estes detalhes para não dar crédito ao óbvio, acabaram esvaziando de sentido a história do personagem, da mesma forma que foi difícil entender de início o motivo pelo qual Justina (Marília Pêra) tivesse como alter-ego outra Justina, só que vestida como a personagem título do clássico Gilda.
Chega o momento em que você precisará escolher algo pra se agarrar durante o filme, algo que faça a sessão valer a pena. Se assim for, sugiro que você perceba a atuação de Marília Pêra. O fato de que sua personagem seja uma cantora frustrada libera a atriz para cantar, dançar e se fantasiar no dia-a-dia, usando peruca e lentes no trabalho, e se travestindo de Gilda quando está sozinha em casa. E é assim que a experiência de uma atriz transparece. Com seus anos de teatro e um ar sempre engraçado no rosto, ela e José Wilker (outro ator experiente no ramo do humor) salvam o filme. Haagensen, muito bonito, não vacila diante da experiência dos dois, mas ainda engatinha na comédia. Vale falar também de Sandra Pêra, irmã de Marília, que interpreta a também irmã de Betina. Algumas das melhores tiradas do filme são dela, bem como o ritmo e a naturalidade na dupla formada pelas irmãs dão gás à ação.
Mais uma vez o cinema nacional erra a mão no vício de reproduzir a televisão em seus detalhes menos interessantes e perde a chance de deixar brilhar o talento para comédia de dois grandes atores brasileiros.