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Crepúsculo dos Deuses
(Sunset Boulevard, 1950)

Por Rodrigo Cunha
29/02/2004

 Uma obra prima única, que denuncia com coragem os podres dos bastidores de Hollywood em plenos anos dourados.

“Eu sou grande. Os filmes é que ficaram pequenos.”

Não é com essa célebre frase que Crepúsculo dos Deuses se inicia, mas ela representa bem tudo o que o filme quer dizer. Billy Wilder, em plenos anos 50, fez um filme extremamente crítico ao próprio método de Hollywood fazer Cinema e como tratar seus funcionários (incluo aqui os atores). Não é como em seus outros clássicos, Pacto de Sangue ou Quanto Mais Quente Melhor. Aqui o buraco é muito mais embaixo, como costuma representar o conhecido ditado. Em uma história fascinante, o diretor (que também roteirizou essa obra-prima com outros dois roteiristas) consegue captar diversos pontos que mostram como Hollywood mudou com o passar dos anos: a decadência de uma estrela dos filmes mudos e a falta de emprego para muitos atores antigos no ramo.

O nome do filme original é Sunset Blvd., que corresponde ao endereço onde a mansão da ex-estrela de filmes mudos Norma Desmond (Gloria Swanson) vive solitária com seu fiel empregado Max von Mayerling (Erich von Stroheim). Sua vida recebe uma guinada quando o fracassado roteirista – e também personagem principal e narrador da história – Joe Gillis chega em sua casa fugindo de cobradores, utilizando a mansão como cativeiro perfeito para que ninguém o encontre. Quando Norma descobre que Gillis é um roteirista, resolve lhe mostrar o rascunho de uma história e pede que o rapaz a melhore para que Cecil B. DeMille a dirija no papel principal. E é por esses bastidores da antiga Hollywood que a história vai se desenvolvendo, mostrando todos os podres da indústria, o que dividiu totalmente a crítica da época. Enquanto alguns aplaudiam por um longo tempo o filme ao término das projeções, outros quase batiam (literalmente) em Wilder, considerando-o um traidor.

A verdade é que de ponta-a-ponta o filme é formado por frases históricas. As situações criadas são de uma genialidade à parte, porque aparentemente elas não têm nada demais, mas o modo como são conduzidas, até mesmo através da narração que vai costurando tudo, faz com que nunca fiquemos cansados ou desinteressados pelo que está sendo mostrado. Um exemplo disso é quando Gillis, nosso protagonista, já está meio de saco cheio de toda a escravidão que estava vivendo (já que o emprego exigia que ele fosse viver na casa da atriz, proporcionando um relacionamento quase bizarro entre os dois) e tenta sair da casa, ficando por um momento preso pela corrente de sua roupa à maçaneta da porta de entrada, numa clara referência que ele estava preso àquele lugar. O final é antológico e uma das minhas cenas preferidas de todos os tempos.

O número de referências à história do Cinema é outra característica importante do filme. De Griffith à Paramount, há muito do mundo cinematográfico na tela – o tema não deixa muitas opções mesmo. Inclusive há algumas participações, como o já citado DeMille e Hedda Hopper interpretando a si próprios no filme. Mas quem realmente comanda o filme é Glória Swanson, que não por coincidência fez muito sucesso no cinema mudo e naquela época estava praticamente esquecida. Suas falas são as melhores, sua imposição, o modo como ela olha e fala... Inesquecível! Personagem de sua vida, por mais filmes que tenha feito na época muda do Cinema (mais de 50). William Holden também é grande na tela, o modo como ele vai sendo envolvido por Norma é fabuloso. Talvez o único defeito do filme seja um pouco sua previsibilidade, mas ele em nenhum momento se mostra interessado em esconder o que vai acontecer, principalmente pelo início do filme, que já cria todo o clima pesado que a história propõe e já prepara o público para algo pior (o filme começa pelo final), que está por vir. O grande trunfo da história está mesmo no seu desenvolvimento perfeito e na denúncia grave ao lado podre de Hollywood, que Wilder já enxergava bem à frente de seu tempo.

O curioso é que Wilder, apesar de considerar imensamente o roteiro a ponto de não deixar os atores improvisarem, foi obrigado a alterar toda a introdução do filme, que se passava dentro de um necrotério e os mortos começavam a conversar sobre como haviam morrido. Mas ao invés de passar a impressão mórbida originalmente imaginada, a platéia-teste começou a gargalhar com a cena. Graças a glória do DVD, nos extras podemos ler o roteiro completo da cena original, inclusive os planos de câmera que Wilder colocava no roteiro (algo incomum), e de quebra algumas imagens da abertura original. Sem sombra de dúvidas, um grande presentes para os fãs do filme.

Premiado com o Oscar de melhor roteiro, levou merecidamente mais dois prêmios para o currículo: direção de arte e trilha sonora. A arte é simplesmente indescritível, só vendo mesmo para crer. Toda a parte interna da mansão foi recriada em estúdio, mas sem nunca transparecer com qualquer luz falsa que não convença. O trabalho é magnífico e capta perfeitamente todo o clima de egocentrismo da estrela que vive do passado, a triste realidade de não ser ninguém no presente depois de ter sido tanto. E a trilha segue o ritmo, em um estilo clássico e funcional, captando perfeitamente o ritmo ditado e nos emocionando da maneira desejada. Com 11 indicações ao Oscar, acabou perdendo para o favorito – e até hoje campeão de indicações – A Malvada no quesito de melhor filme, que levou seis naquele ano.

O mais assustador é ver que mais de meio século de cinema passaram desde sua produção, a história de Hollywood não mudou, pelo contrário, se agravou. Crepúsculo dos Deuses é meu trabalho preferido de Billy Wilder, falecido há pouco tempo, deixando-nos essa e outras magníficas obras que são obrigatórias em qualquer cinematografia. Foi também inspiração para diversos outros filmes, é o meu preferido sobre o tema bastidores (seguido pelo maravilhoso A Noite Americana), e também um dos DVDs que eu guardo com mais cuidado em minha coleção.

“Estou pronta para o meu close, Mr. DeMille.”


Por Rodrigo Cunha
29/02/2004
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 Crepúsculo dos Deuses
(Sunset Boulevard, 1950)
» Direção:
- Billy Wilder
» Elenco:
- Erich von Stroheim
- Franklyn Farnum
» Sinopse: A ex-estrela de filmes mudos Norma Desmond vive solitária com seu fiel empregado Max von Mayerling em sua mansão residida no endereço da famosa Sunset Blvd. Sua vida ganha uma nova guinada quando o fr...
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