|
"Hide and Seek", o título original, se refere à popular brincadeira infantil que aqui no Brasil chamamos de esconde-esconde. Portanto, é até meio paradoxal que o filme tenha tantos buracos e problemas e nem se dê ao luxo de tentar escondê-los. Outro que deveria se esconder de tanta vergonha em estar em uma produção tão ruim é o (ainda) grande Robert De Niro. Ele está, com certeza absoluta, em seu pior momento no cinema em uma personagem que deixaria constrangido até o Ben Stiller.
É a grande síndrome do cinema de suspense/terror atualmente: criar uma história de mistério bizarra, inserir um ator infantil talentoso e fazer uma grande reviravolta no final, com o intuito de surpreender o espectador. O problema é que os espertos executivos do cinema ainda insistem na fórmula que vem sendo desgastada desde "O Sexto Sentido", e com resultados cada vez piores.
John Polson, um medíocre ex-ator que anteriormente tinha dirigido o igualmente ruim Fixação (aquele suspense-de-piscina com a Erika Christensen), aqui repete todos os cacoetes do gênero (câmera subjetiva, ambientes escuros, sustos no porão) ao contar a história de Emily, garotinha que fica traumatizada ao ver a mãe morta na banheira de sua casa, em um ato de suicídio sem motivo aparente. Seu pai, o psicólogo David (De Niro), decide se mudar para o campo para que ambos pudessem recomeçar suas vidas, sem as terríveis lembranças do passado.
Só que Emily passa a ter um comportamento estranho, cada vez mais sociopata e ainda por cima cria um amigo imaginário, por quem ela acaba por colocar a culpa nos estranhos fatos que passam a acontecer. Inclusive o tal amigo secreto passa a incitá-la contra o próprio pai, culpando-o pela morte da mãe. David então tenta então diagnosticar a filha (atenção para o fato que psicólogos são proibidos de fazer qualquer tipo de tratamento com pessoas próximas) e a pedir conselhos a uma psicóloga amiga da família (Famke Janssen, a Jean Gray dos dois X-Men) – só que as coisas só vão piorando e tudo terminará em tragédia.
Curiosamente, o filme vai deixando várias brechas no roteiro para trás, e isso vai irritando profundamente o espectador, até o ponto no qual o tal do amigo oculto é descoberto – então, se algumas das brechas deixadas são, digamos, satisfatoriamente reparadas, outras muitas surgem e tudo vira o samba do crioulo doido. O final do filme é tão risível, tão clichê e tão medíocre que ficamos com raiva de termos assistido a tamanha bomba. Falando em risada, tem uma cena no filme que é digna de gargalhadas, quando na verdade era para assustar: quando Emily assusta uma garotinha que quer virar sua amiga.
O filme tem alguns (poucos) bons momentos. Amy Irving levanta o filme, curiosamente, nas poucas cenas em que aparece, logo no prólogo, como a mãe suicida. E Dakota Fanning consegue derrubar De Niro em cena, mostrando mais uma vez seu enorme talento – e ela tinha menos de dez anos quando rodou o filme! De cabelos escurecidos, mostra porque conseguiu assustar platéias no mundo todo com sua gélida Emily.
Espera-se que ela consiga manter-se firme na carreira (ela está para estrear "Guerra dos Mundos", ao lado de Tom Cruise e Steven Spielberg) e que consiga sobreviver à síndrome das crianças no cinema que não conseguem continuar a carreira, síndrome essa que começou com Shirley Temple e que atacou recentemente Haley Joel Osment). Outra presença feliz é a de Melissa Leo, talentosíssima, que esteve grande em "21 Gramas" e que aqui mais uma vez mostra-se iluminada na pele de uma mãe atormentada.
Mas o filme não consegue passar o limite do aceitável. Seu desfecho pavoroso (como a personagem de Famke Janssen chegou ao local?), situações forçadas (a personagem de Elisabeth Shue, mais perdida na trama que a carreira da própria atriz, recebe um tratamento digno de pena) e os buracos enormes no roteiro tornam esse filme um passatempo mais que irritante. Tem gente aí que deve estar se escondendo de vergonha, não é, sr. De Niro? |