capa
|| crítica ::.
(Nô, 1998)

Por Demetrius Caesar
22/11/2006

 Baseado em sua própria peça de sucesso, o diretor Robert Lepage nos apresenta um aperitivo em forma de um maravilhoso filme

Em 1998, o diretor teatral canadense Robert Lepage levou para o cinema uma de suas peças mais famosas, “Os Sete Afluentes do Rio Ota”, criação coletiva de seis horas de duração – no Brasil, a versão ficou a cargo de Monique Gardenberg, com Maria Luisa Mendonça, Bete Goulart e Caco Ciocler no elenco. Batizada de , a versão cinematográfica também dirigida por Lepage narra apenas uma das sete estórias da peça, “The words”, a terceira pela ordem, de forma que tem apenas um quarto da duração total, uma hora e meia, cômoda para as platéias de cinema.

É pena que o diretor não dirigiu as demais estórias e filmado tudo. Não só a peça é um marco do teatro mundial como o pouco adaptado para o cinema deu origem a um filme engraçado, inteligente, cosmopolita e multicultural na medida certa. (Mike Nichols foi mais feliz em adaptar a igualmente gigantesca “Angels in America” para a televisão, reduzindo as sete horas originais para cerca de cinco, exibida em duas partes na HBO e posteriormente lançada em DVD com enorme sucesso.)

“Os Sete Afluentes do Rio Ota” é um prodígio. Passada em cinco países (Canadá, EUA, Holanda, Japão e Polônia), em três épocas diferentes (anos 40, em plena II Guerra Mundial, anos 70 e final da década de 90), é falada em seis línguas (inglês, francês, polonês, alemão, holandês e japonês), com mais de 20 personagens. Confuso? Nem um pouco. Prolixa? Pelo contrário, é o cúmulo da concisão. Dinâmica, emocionante e com muito humor, “Les Sept Branches de la Rivière Ota” é universal, uma esfuziante celebração das diferenças culturais como forma de aproximação e compreensão dos homens.

Uma atriz canadense em início de carreira (a hilariante Anne-Marie Cadieux) está em Osaka apresentando uma comédia do francês Feydeau (curiosamente em cartaz em São Paulo, com Cacá Rosset). Fez amizade com a tradutora da peça para o japonês – ela é cega porque, quando criança, foi atingida pela radiação da bomba em Hiroshima. Descobre que está grávida, mas não sabe se o filho é do namorado canadense, que está em Montreal conspirando contra os ingleses para a libertação do Canadá. Ela é assediada por dois homens, o embaixador canadense no Japão e por um dos atores da peça – um dos prováveis pais de seu filho.

Quase toda a ação transcorre num único dia, 16 de outubro de 1970, quando o primeiro ministro canadense decreta a prisão dos conspiradores – essa parte foi reduzida na montagem brasileira; o corte explica-se pelo excesso de referências à história do Québec, a parte francesa do Canadá que liderou a independência da Inglaterra. No filme, os detalhes não foram poupados e pode se tornar confuso para quem nada sabe sobre a geografia e história canadense.

Sophie, a atriz em apuros, precisa dar atenção ao namorado guerrilheiro do outro lado do mundo, fugir dos homens em seu encalço e agüentar a terrível esposa do embaixador, uma falante e pernóstica francesa que perde o trem para Tóquio e acaba descobrindo a traição do marido (no Brasil, foi vivida de maneira esplêndida por Bete Gourlart, atriz que parece não ter tido na televisão a sorte que tem no teatro).

Enquanto isso, a tradutora cega descobre o amor com um canadense de Vancouver e prepara-se para deixar o Japão e viver com ele, que não tem os preconceitos dos japoneses em relação às vítimas da guerra (quem foi atingido pela radiação, a “chuva negra”, tinha enormes possibilidades de desenvolver câncer e gerar filhos defeituosos, de forma que nunca se casavam).

 Enfim, apenas um aperitivo da monumental obra que é “Os Sete Afluentes”, um painel que conta, na primeira parte, a história de Luke, um fotógrafo americano que fotografou os horrores da bomba no Japão, e sua família por 50 anos. Na segunda parte, uma amiga da família relembra e arremata o ciclo anterior ao relembrar de como fugiu do campo de concentração nazista de Terezin graças à ópera “Madame Butterfly”.

Não se trata, no entanto, de um épico teatral, pois a estrutura e narrativas são bem diversas. Quem viu a peça vai se deliciar. Quem não viu poderá conferir a obra de um cineasta originalíssimo, um dos grandes artistas contemporâneos, em sua, talvez, obra-prima definitiva (ainda que só uma parte dela).


Por Demetrius Caesar
22/11/2006
|| notas ::.
 » Avaliação: 8.0
 » Equipe ::.
 » Usuários ::.
- Média -
Avaliação: 8.5 (1 voto)
cadastre-se para dar sua nota
Todas as informações aqui contidas são propriedades de seus respectivos produtores. Sugestões? Reclamações? Elogios? Faça valer sua opinião, escreva-nos!
 
|| destaques ::.
 » crítica
 » crítica
 » crítica
 » crítica
|| ficha do filme ::.
 Nô
(Nô, 1998)
» Direção:
- Robert Lepage
» Elenco:
- Anne-Marie Cadieux
- Marie Gignac
» Sinopse: Durante os anos 70, uma atriz canadense em início de carreira (Anne-Marie Cadieux) está em Osaka apresentando uma comédia do francês Feydeau. Faz amizade com a tradutora da peça para o japonês – ela é...
Cine Players 2003 - 2010 | Versão 2.5.4b | Estatísticas