Dono de uma carreira recheada de clássicos das comédias besteirol, David Zucker (de Aeroporto e Top Secret - Superconfidencial) realizou, em 1988 e baseado em uma série de TV de sua própria autoria (junto de Jim Abrahams e Jerry Zuckers, dois outros grandes nomes do gênero), um dos melhores representantes do gênero pastelão até hoje, Corra que a Polícia Vem Aí.
Lotado de referências a outros grandes filmes, principalmente do sistema noir de contar histórias, percebe-se todo um charme e cuidado ao se construir tudo no filme, principalmente nos quesitos enquadramento, música e iluminação. É como se você estivesse assistindo mesmo a um noir, só que colorido e lotado de absurdos intencionais.
Há o vilão que quer assassinar alguém importante (no caso, um magnata querendo tirar a vida da rainha Elizabeth II em pleno jogo de Baseball), há a loira perigosamente sedutora, há a música de mistério, há a narração em tom nebuloso, há o policial que se envolve em tudo e que enfrenta a suspeita dentro da própria corporação (Frank Drebin, imortalizado por Leslie Nielsen, repetindo o personagem da série), e por aí vai, com direito a seqüência feliz nonsense (gargalhadas em Platoon) e uma pitada de "inventor 007". Até mesmo algumas ações de Frank, embora involuntárias, lembram o caráter meio duvidoso dos "heróis" do gênero.
Para quem não gosta de besteiras, é bom ficar bem longe. Agora, para quem curte uma piada com acontecimentos absurdos e muita, muita idiotice mesmo, esse é um prato cheio. O número de situações inesperadas é gigantesco e as piadas idiotas vêm a todo, seja por meros detalhes de cenários (algo que acontece lá no fundo enquanto um texto é dito) ou então pela mais pura cara-de-pau de mostrar tudo (como a cena em que Frank se pendura por um pênis).
Se não tem textos tão inteligentes quanto seu colega mais velho, o inspirador Monty Python, pelo menos as situações são muito bem construídas. Apesar de Corra que a Polícia Vem Aí 2 e 3 serem engraçados também, não passam nem perto do original, pois ficaram mais escrachadas e tiraram o peso como "obra" da série (principalmente o terceiro). Aqui há charme, construção e, o principal, muita diversão descontraída.