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|| crítica ::.
Marcas da Vida
(Red Road, 2006)

Por Demetrius Caesar
09/05/2007

 Filme duro de se assistir, mas que recompensa quem conseguir ir até o seu final.

Muito elogiado no exterior, vencedor do Grande Prêmio do Júri no último Festival de Cannes, o filme irlandês Red Road chega ao Brasil com o título de Marcas da Vida. Conta a história de uma policial que passa os dias vigiando implacavelmente um condomínio barra pesada de Glasgow chamado Red Road. Por que ela vigia? Só saberemos bem mais adiante: lá está morando um ex-presidiário. O que ele fez? Só saberemos no fim. Por que ela o vigia tão incansavelmente? Só nas últimas cenas há a resposta (não vou dizer aqui). 

Marcas da Vida é isso: uma história rolando sem os antecedentes para entendê-la. Você assiste, assiste e assiste ao filme sem nenhuma pista do porquê daquela caçada fulminante. Cansada de só vigiar, a policial desce e se mistura aos vigiados, apesar do medo e da desconfiança. O ex-presidiário não a reconhece. Ela arma então um violento plano de vingança contra ele – sem, claro, a platéia saber do que se trata.

Nem mesmo aos parentes da policial temos acesso. Ela fala com eles, não sabemos quem é quem (se é avô, pai, tio ou sogro), por que ela está brigada com eles, muito menos por que o relacionamento fica tão difícil no dia de um casamento. A policial também não tem amigos, nem amantes: apenas faz sexo casual com um homem casado dentro de um carro na hora do almoço.

Quem conseguir agüentar as quase duas horas de indefinições e falta de pontos de apoio será recompensado ao final, não só pela elucidação da trama, mas pela emocionante e surpreendente redenção da personagem principal e de seu algoz, envolvidos em terríveis culpas que só puderam ser resolvidas por meio da expiação coletiva.

Pode-se reclamar do roteiro esquemático e do quão demoradas são as pistas para a engrenagem da história. Afinal, o primeiro lance entre os dois inimigos se dá depois de 45 minutos de iniciada a trama e o espectador é obrigado a ficar retendo detalhes e mais detalhes para compor a tênue linha dos acontecimentos. Além disso, a diretora não dá moleza e filma uma cidade feia, suja e escura, em que os habitantes fazem sexo encostados nos muros e almoçam em espeluncas cheias de baratas. O trânsito, o barulho e o vento frio impedem a completa relação da cidade com seus cidadãos. Glasgow ganhou um retrato horrendo.

As cenas de sexo são mecânicas e cruéis. São mostrados os órgãos genitais (ele bota a camisinha no pênis ereto). Simula-se um estupro, com manipulação de esperma recolhido de uma camisinha jogada num vaso sanitário. Palavrões jorram da boca de todos. Ninguém troca de roupa ou faz a barba. Os apartamentos do prédio são fétidos e até o animais, depositários de calor humano, são retratados com displicência. Sim, Red Road é dureza.

Mesmo assim, Red Road venceu, além do prêmio em Cannes, outros 11 distinções, como o de melhor cineasta estreante no Bafta (Oscar inglês). A dupla de atores (Katie Dickie e Tony Curran) venceu o British Independ Awards. Com certeza vão seguir carreira, pois são ótimos. Ela conseguiu passar toda a complexidade da personagem. Ele realmente convence como alguém ameaçador. Enfim, um filme tão difícil de acompanhar quanto o sotaque irlandês ou um livro do James Joyce, mas, como sempre, há compensações para quem enfrenta a parada.


Por Demetrius Caesar
09/05/2007
|| notas ::.
 » Avaliação: 7.5
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- Andy Malafaya 6.0
- Média 6.0
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|| ficha do filme ::.
 Marcas da Vida
(Red Road, 2006)
» Direção:
- Andrea Arnold
» Elenco:
- Kate Dickie
- Tony Curran
» Sinopse: Jackie trabalha como segurança de uma firma que usa câmeras de vigilância para cuidar das ruas. Todo dia, ela toma conta daquele mesmo pedacinho do mundo. Até que em um momento, nas imagens das câmera...
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