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CRÍTICA

A Cidade é uma Só?

(Cidade é uma Só?, A, 2012)
Por Daniel Dalpizzolo Avaliação:                   9.0
Um filme raro de se ver.

Você que tem um bom lugar pra morar, nos dê a mão, ajude a construir nosso lar. Para que possamos dizer juntos 'a cidade é uma só.'”. Embalado por estes versos, o governo de Brasília realizou, na década de 70, uma operação de higienização da pobreza do centro da então jovem capital nacional - o que, é claro, não passou de uma varreção do problema pra debaixo do tapete. Vendendo a ilusão de uma vida melhor, a campanha relocou os moradores de baixa renda do centro de Brasília para cidades em seu entorno, movimento que fundou a Ceilândia, cenário e objeto de A Cidade é uma Só? (idem, 2012), o incrível filme de Adirley Queirós que arrebatou o prêmio do Juri na mostra Aurora em Tiradentes.

Através de uma diluição de impressionante naturalidade entre o documentário histórico sobre o fato e uma ficção que busca, acima de tudo, registrar sua influência no presente e inflexões no futuro desses moradores (vale lembrar que por mais dicotômica que seja esta opção narrativa ela interessa muito pouco diante do que o filme realmente tem a expressar), Adirley faz um filme ousado e por vezes politicamente incorreto, cujas observações são defendidas com muito bom humor, sem recorrer a teses verborrágicas ou lobotomias ideológicas, em um tom que, por maior que seja a diversão que o filme promova, não deixa de reforçar a melancolia embutida em cada uma das ações registradas.

Existe em A Cidade é uma Só? uma consciência de cinema capaz de fisgar o público imediatamente (é o filme que mais provocou gargalhadas e aplausos em Tiradentes) e, para que isso ocorra, o diretor vai em busca do que há de mais essencial em uma narrativa cinematográfica: o prazer de se contar uma boa história, com personagens fortes e carismáticos aos quais é possível admirarmos instantaneamente. Não há muita relação direta, mas é um filme que, à sua maneira, lembra os dois longas de John Carpenter com o icônico anti-herói Snake Plissken, filmes políticos improváveis de serem encontrados na Hollywood apolítica de hoje - e no cinema em geral.

Mas não há porquê complicar: o que realmente impressiona em A Cidade é uma Só? é a facilidade com que o filme se desvia do truque narrativo inicial para atingir uma simplicidade absoluta no diálogo que estabelece com o espectador - uma relação que, acima de tudo, reforça a admirável autenticidade de seus personagens e das situações registradas. O núcleo de Nancy, uma mulher que, quando criança, participou do coro que entoava a canção tema da campanha, é sempre interessante, mas é difícil negar que a grande força de A Cidade é uma Só? vem mesmo é da história de Dildu, o operário da Ceilândia cansado do descaso dos políticos com o povão que resolve investir, mesmo sem recursos financeiros, em uma campanha para a eleição a deputado distrital de Brasília - através do fictício Partido da Correria Nacional (PCN).

Com a ajuda de seu cunhado, Zé Antônio, protagonista de um terceiro núcleo do filme (sobre a especulação imobiliária que cerca os grandes centros), e uma proposta de campanha gângsta, cujo jingle é um grudento rap sonorizado por gatilhos e tiros (a sinopse oficial do filme vem de uma fala do próprio cunhado sobre a concepção destes apetrechos de campanha), Dildu vai às ruas em um carro arrebentado, com o tanque de gasolina quase seco, para discutir sua plataforma política e distribuir panfletos que remetem ao símbolo da campanha de erradicação da pobreza do governo nos anos 70 – símbolo que agora pertence à sua ínfima campanha a deputado, à tentativa de um humilde representante do povo de conseguir alguma voz no Brasil de hoje.
 
Fala rápida, língua solta e energia infindável são as mais notáveis características de Dildu. E, embora saibamos que os esforços dele morrerão na praia (ou melhor, na sanga), a câmera de Adirley acompanha o personagem com uma devoção tão encantadora que só resta ao espectador entregar-se completamente a ele. É através de Dildu que A Cidade é uma Só?, além de uma obra de contundente expressividade político-social, também se transforma em um filme estruturado sobre momentos, frases e ações memoráveis, à maneira das grandes obras do cinema nacional de outrora. Atinge, assim, uma pungência que parecia erradicada do cinema brasileiro desde os anos 70 – sem que o filme precise citá-los de nenhuma maneira, podemos lembrar de Nelson Pereira dos Santos, Rogério Sganzerla, Andrea Tonacci e tantos outros autores que souberam utilizar o cinema para olhar ao nosso país de forma desafiadora e incisiva, fazendo dele um catalisador cultural e social de sua época.   

E não há sequência que evidencie melhor esta pungência do que quando, próximo ao final, o carro velho de Dildu quebra e ele resolve seguir sua campanha pelo bairro a pé. Presenciamos ali um momento único no cinema contemporâneo, talvez não apenas nacional – um momento em que vemos um autor correndo riscos e se posicionando diante do tema que aborda, algo cada vez mais raro de se ver. Assim que Dildu chega à rodovia pavimentada e dá de frente com a grandiloquência da máquina política sendo utilizada para a campanha de Dilma Rousseff à presidência nacional, Adirley provoca (e este é o termo, provocar) na imagem um atrito arrepiante (em que ficção e realidade conflituam a céu aberto), forte o suficiente para desafiar toda uma noção de democracia e de país, de um jeito preciso como discurso algum seria capaz de fazer.

A dúvida de Adirley que dá nome ao filme parece encontrar ali uma resposta natural. A cidade nunca foi nem nunca será uma só; o país nunca foi nem nunca será um só. E, embora consciente disso, Dildu segue seu rumo pelo terreno baldio que posteriormente servirá a um grande empreendimento imobiliário para a verticalização residencial (solução encontrada para o problema de espaço das periferias – e para, talvez, manter as pessoas dentro dela?). O filme fecha com o caminhar exausto de um homem do povo que, embora fruto da ficção, ou justamente por isso, é capaz de manifestar a indignação e a esperança fatigada de quem olha para nosso sistema político sem se contentar com um simples “vote nulo”, como se assim estivessem se posicionando  frente ao problema. E se o final da trajetória de Dildu fica em aberto no filme, sem aparente solução, é porque a questão ainda tem muito a render – dentro e fora do cinema.

Porque os grandes filmes não encerram ali, num mero e arbitrário the end.

Por Daniel Dalpizzolo, em 13/02/2012 Avaliação:                   9.0
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Comente no Cineplayers (18)
Por Diogo Serafim, em 01/03/2014 | 16:02:49 h
Obra prima.
Por Francisco Bandeira, em 28/02/2014 | 19:45:38 h
Dalpizzolo, você é o cara!
Por Ravel Macedo, em 28/02/2014 | 19:42:21 h
rpz, só assim pra ver mesmo! ta entre os proximos
Por Caio Santos, em 28/02/2014 | 17:59:57 h
muito boa noticia
Por Daniel Dalpizzolo, em 28/02/2014 | 09:21:30 h
pra quem gostaria de ver o filme, foi disponibilizado na íntegra no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=w-m_6JnpzKs
Por Renan Fernandes, em 03/07/2013 | 17:04:08 h
Ansioso para assistir, *____*

valeu pelo texto amei.
Por Pedro Ruback, em 25/06/2012 | 09:08:43 h
Grande texto! Assistirei assim que eu conseguir esse filme ou encontrar em algum lugar passando...
Por Rodrigo Torres de Souza, em 25/06/2012 | 07:03:15 h
Que venha ao Festival do Rio! o/
Por Luís Eduardo da Conceição Santos, em 23/06/2012 | 16:33:40 h
Tem alguma possibilidade do filme ser lançado em circuito comercial? Ou pelo menos em alguma sala de arte aqui em Salvador. Estou com extrema vontade de vê-lo e, se não tiver jeito, só será exibido aqui na minha cidade na Biblioteca dos Barris num ano não tão próximo assim.
Por Ana Paula de Oliveira Azevedo., em 23/02/2012 | 12:19:12 h
Deu até mais vontade de assistir..
Por Daniel Dalpizzolo, em 15/02/2012 | 08:47:17 h
Em Tiradentes as almas cinéfilas se encontram. Vá sem medo, quem sabe até nos topamos lá na próxima.
Por Daniel Mendes , em 14/02/2012 | 23:04:18 h
Tive a oportunidade de ver ops filmes desse festival e não vi . A verdade é que eu teria que ir para Tiradentes sozinho, póis nenhum amigo meu gosta de cinema (exceto Transformers Thor e outras porcarias)
Por Rafael Cormack, em 14/02/2012 | 13:40:23 h
Excelente crítica. Uma das melhores do site.
Por Adriano Augusto dos Santos, em 14/02/2012 | 09:06:06 h
Parece bem interessante.
Por Carlos Dantas, em 13/02/2012 | 22:01:10 h
Então o jeito é esperar. É raro um filme ter uma recepção positiva praticamente unânime como esse vendo tendo até agora.
Por Daniel Dalpizzolo, em 13/02/2012 | 21:52:04 h
Por enquanto tem como ver não.
Por Carlos Dantas, em 13/02/2012 | 20:20:53 h
Fiquei curioso também. Por enquanto existe alguma forma de assistir que não seja por meio de festivais?
Por Heitor Romero , em 13/02/2012 | 15:53:37 h
parece ser um ótimo filme. Fiquei curioso.
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 FICHA DO FILME

 Cidade é uma Só?, A
(Cidade é uma Só?, A, 2012)
• Direção:
- Adirley Queirós
• Elenco Principal:
- Dilmar Durães
- Nancy Araújo
- Marquinhos do Tropa
• Sinopse: A história de Brasília contada a partir de moradores comuns que, conscientes de seus lugares na sociedade, lutam por uma capital mais justa com seus habitantes e com a sua própria história.
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