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CRÍTICA

A Morta Viva

(I Walked With a Zombie, 1943)
Por David Campos Avaliação:                   9.0
Obra-mestra de Jacques Tourneur homenageia a consciência mítica do homem.

Dentro das mais diversas sociedades que até hoje existiram, o mito sempre assumiu papéis relevantes. O artefato mítico, porém, não se inscreve apenas no âmbito da mentira, da inverdade, pois ele serve, acima de tudo, ao transporte cultural entre gerações. Os mitos são essencialmente narrativas de origem - uma vez que contam como surgiram as coisas - e estão presentes nas epopeias - poemas que narram os feitos daqueles heróis que outrora lutaram em prol de suas pátrias-, nos mais diversos livros sagrados e em um infinito número de relatos que trazem consigo as marcas de um povo incrustadas no terreno do fantástico.

O mito - argamassa de arquétipos, amálgama das tradições, referencial cultural portador da verdade poética e religiosa - encontra abrigo mais confortável nas maravilhosas histórias contadas ao calor de uma fogueira. Por isso, somente um legítimo contista e amante dessas histórias como Jacques Tourneur poderia extrair de uma ideia tão singela um conto de grandeza intraduzível. A Morta-Viva (I Walked With a Zombie, 1943) é certamente uma das maiores homenagens à consciência mítica do homem. Absolutamente livre de maniqueísmos, o filme possui uma estrutura transparente que equilibra o pensamento cético do homem branco com a crença dos descendentes africanos. Nessa interação, não há vitoriosos, vilões, mocinhos ou exageros visuais; existe apenas a livre exposição do credo, da dor e da origem do sofrimento de um povo que derrama lágrimas diante do nascimento de uma criança e sorri em funerais.

A Morta-Viva conta a história da enfermeira Betsy Connell (Frances Dee), que vai a uma ilha das Índias Ocidentais para cuidar de uma mulher que sofria de problemas mentais oriundos de uma violenta febre tropical. Na ilha de Saint Sebastian, a prática maciça do vodu faz com que a jovem sinta um grande choque cultural. Jessica (Christine Gordon), a suposta doente, na verdade, é um zumbi, e seu corpo responde apenas a estímulos precários; Paul Holland (Tom Conway), seu marido, que não acredita na mística do vodu, trava contra o irmão mais novo, Wesley Rand (James Ellison), uma verdadeira guerra familiar; este último ama Jessica e acredita que Paul seja o único culpado pela desgraça da mulher. Uma das melhores cenas envolve justamente Wesley e Betsy: quando os dois estão em uma taberna, um músico local começa a cantar a triste história de Jessica e dos dois irmãos. Essa rápida passagem apresenta um dos muitos ecos da tradição oral presentes no filme. Logo, assim como os antigos poetas, que cantavam as histórias que conheciam, o papel do tocador é disseminar o que sabe a respeito de tão dolorosa sina. Portanto, a partir de um conflito doméstico e das diferenças entre as pessoas que habitam o lugar, se desenvolve uma trágica trama fantástica.

As bases de um cinema que se estruturou dentro desse terreno sobrenatural começaram a ganhar formas mais acentuadas em A Morta-Viva e, claro, em Sangue de Pantera (Cat People, 1942), seu antecessor. Anos depois, no encalço dessas realizações, Tourneur dirigiria uma de suas obras mais importantes: A Noite do Demônio (Night of the Demon, 1957). De um ponto a outro, observamos que muitas características do diretor permaneceram intactas e perfeitamente balanceadas: as personagens continuaram convictas; os enquadramentos, perfeitos e lúgubres; e o amadurecimento de cada ideia levantada, presto e inteligente. Mas há diferenças entre A Noite do Demônio e A Morta-Viva. Por exemplo: enquanto o primeiro nos arrebata logo no início com a aparição daquele monstrengo doido, o segundo mantém-se durante muito tempo voltado apenas à ritualística, às manifestações do abstrato. A principal distinção está, por conseguinte, no manuseio do elemento sobrenatural, que é ainda mais sutil no filme de 1943.

Para tomar como foco de análise a sutileza de A Morta-Viva, não dá para deixar de citar aquela câmera tão fluida que passeia através do canavial e captura uma magnífica aura de soturnidade - que é linda e “limpa”. O terror brilhante de Tourneur não é visceral, portanto; é, sim, uma linha consistente que separa a náusea causada pela violência visual do abismo subjetivo sobre o qual se debruçam suas personagens principais. O maior mérito da obra é conseguir abrir feridas simbólicas, que jamais cicatrizam. Por isso, não foi preciso criar uma história cuja força estaria em seu aspecto concreto e sanguinolento, ao contrário de muitas outras que seguiram seus passos (afinal de contas, estamos falando de zumbis). Nesse aspecto, pode-se dizer que é um filme praticamente único.

Através dessas lentes taciturnas, o poder da tradição mítica mostra quão dependentes e fragilizadas são todas as personagens envolvidas. Tourneur, por sua vez, não se torna partidário de uma verdade, e sim das verdades interiores de cada indivíduo, independentemente de eventuais divergências. A afetação típica de obras que abarcam esse diálogo entre razão e fé não consegue um fiapo de espaço aqui. Sofrer, amparado ou não por qualquer crença, representa um estado de primitivismo em que todos os homens - de todas as filosofias - se unem. Logo, em A Morta-Viva  estão presentes a dor, a dúvida, a culpa e o medo. As imagens são células de algo bem maior que o mundo físico, de alguma coisa mais próxima da redenção da pobre espécie humana. Assim, o mito se autodefine como elemento de dominação social e de abrandamento dos anseios de pessoas que vivem sob o manto do sofrimento.

A Morta-Viva representa o grau mais elevado de sobriedade dentro do gênero em que se insere. Para compreendê-lo, é necessário buscar no indefectível jogo de luzes e sombras os temas que não encontramos na maioria dos filmes de sua categoria: a vida e a morte enquanto elementos indissociáveis e oscilantes, nunca opostos. Afinal, o sumo ato de amor e libertação realizado por Wesley representa não apenas um gesto suicida, mas também uma tentativa desesperada de romper com uma existência oca, com o véu da rejeição que o envolvia, isto é, com a sua condição de “vivo-morto”. O final deixa um gosto de incerteza que talvez nem o tempo possa dissolver, pois nele tudo está sempre nascendo e morrendo ao mesmo tempo, como no círculo vicioso dos mitos. A única coisa que sabemos é que todos depositam no mito suas esperanças. A arte sempre sentiu isso; Tourneur, obviamente, também.

O caminho traçado contrário à destruição interior toma sempre uma rota circular. O filme começa no mar e volta a ele quando Wesley decide libertar-se do tormento que é viver sem Jessica (sem a alma dela, mais especificamente). Ao seu término, este idílio não desperta piedade nem alívio, mas cria, certamente, dentro do espectador, uma lacuna irreparável. Obra-prima.

Por David Campos, em 18/08/2011
Avaliação:                   9.0
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 7.0
• Daniel Dalpizzolo 9.5
• Vlademir Lazo 8.5
• Heitor Romero 8.5
• Victor Ramos 9.5
• Francisco Bandeira 9.0
•  Média 8.7
Notas - Usuários
8.1/10 (117 votos)
Minha nota:
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• Todas as opiniões 
Comente no Cineplayers (13)
Por Lucas do Carmo, em 01/05/2012 | 18:31:56 h
Boa critica.
Por Lucas do Carmo, em 01/05/2012 | 18:31:54 h
Boa critica.
Por Júlio César Filho, em 24/08/2011 | 18:35:44 h
Excelente crítica! Parabéns!
Por Ricardo Morel de Oliveira , em 23/08/2011 | 23:57:54 h
Foi o único filme do Jacques Tourneur que vi.
Não gostei tanto assim. Não é pessimo. Não é ótimo.
Nota 6,5. O suficiente para passar no vestibular.
Pela crítica, pelo texto bem escrito, repleto de adjetivos e informações úteis, a vontade de assistí-lo até aumenta.
Mas não sei se o entusiasmo continuará.
O filme possui os seus méritos.
A sequência no canavial é linda, o que, de repente, já vale, mas, para uma obra de gênio, deveria envelhecer melhor.
Por Luis Claudio de Campos, em 19/08/2011 | 10:32:47 h
Ainda não assisti, parece interessante, vou procurar
Por ●••● Cláudio Henrique Tabrickvar, em 18/08/2011 | 23:44:10 h
Vou procurar...
Por Marcelo Ferreira de Sousa, em 18/08/2011 | 19:59:08 h
I want to see it! Look like a great movie.
Por Ravel Macedo, em 18/08/2011 | 17:26:36 h
filmaaço..OP
Por Victor Ramos, em 18/08/2011 | 14:59:31 h
Parabéns, David. E continue escrevendo bem assim e ajudando a divulgação desses mestres que merecem destaque. A Morta-Viva é uma obra-prima, e merece ser descoberta o redescoberta por muitos.
Por Gabriel Severo, em 18/08/2011 | 12:58:46 h
assisti esses dias. Muito bom mesmo.
Por Augusto Cesar, em 18/08/2011 | 10:34:18 h
isso aí, Tourneur é gênio e Morta-Viva é obra-prima, mandou bem.
Por Dave Campos, em 18/08/2011 | 10:33:07 h
Valeu mesmo, Heitor.
Por Heitor Romero , em 18/08/2011 | 09:39:56 h
Terceira crítica de David nem saiu direito e eu já espero ansioso a próxima.
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 FICHA DO FILME

 Morta Viva, A
(I Walked With a Zombie, 1943)
• Direção:
- Jacques Tourneur
• Elenco Principal:
- Frances Dee
- Tom Conway
- James Ellison
• Sinopse: Enfermeira é contratada para cuidar da mulher de um poderoso fazendeiro das Índias Ocidentais e, conforme situações estranhas vão se acumulando, passa a desconfiar de que ela possa ser uma morta-viva, procurando ajuda em rituais de vudu para tentar c...
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