FILMES CRÍTICAS NOTÍCIAS PERFIS TRILHAS TOPS PREMIAÇÕES ARTIGOS COMENTÁRIOS FÓRUNS   SÉRIES PUBLICIDADE
CENTRAL DE USUÁRIOS   |    CADASTRE-SE   |   ENTRAR
   
FILMES
CRÍTICAS
NOTÍCIAS
PERFIS
TRILHAS
TOPS
PREMIAÇÕES
ARTIGOS
COMENTÁRIOS
FÓRUNS

SÉRIES
CADASTRE-SE   |   ENTRAR
CRÍTICA

Aniquilação

(Annihilation, 2018)
Por Felipe Leal Avaliação:         4.5
Embaralho, embaraço e aniquilação tardia.
O texto pode conter spoilers sobre a trama

Uma miríade “heterogeníssima” pode sustentar e justificar a assertiva seguinte, e, no entanto, uma razão parece se sobressair pelo seu alcance elástico e sua potência de verdade introjetada quase que inconscientemente. A assertiva: trazer à luz um filme, hoje, carrega um peso, uma espécie de fardo, diferente do que teria sido realizar um há 50 anos – ou mesmo 15, aliás, já que se trata de uma arte recém-nascida. A razão é, talvez, simples demais, mesmo que escorregadia: não há espectador inocente. Ou melhor: não há (mais) ninguém que veja, e, portanto, creia, como antes. Mas antes de quê? Que evento prévio pode ter tornado o ato fílmico, da concepção mental de uma história à incidência da luz na tela que quer ser vista, algo escorregadio e com tendências ao enfado? Ora, Aniquilação (Annihilation, 2018) – é preciso ser honesto: praticamente toda a sub-indústria estético-narrativa com que a Netflix tem abocanhado e regurgitado pelas mãos de supostamente renomados diretores – prova-o, em práxis, muito bem.

O baralho desgastado está sobre a mesa há mais tempo de que nos apercebemos: os códigos já estão instaurados, os gêneros se reciclam a uma velocidade paupérrima; pouco espanta, impressiona ou excita. Há a sensação, na verdade típica e sintomática do que chamamos de contemporâneo, um tempo tão fabricado e efetivamente contemporâneo a si mesmo, a todo segundo passado, não necessariamente de que não se fazem mais filmes como antes, grande chavão conservador, mas que, ora é trabalho árduo, quase hercúleo, produzir algo com um sopro de originalidade, ora ressurge a sensação de que a criatividade “verdadeira” se perdeu (e para onde teria ido? As coisas vão a algum lugar de morte ou dormência?). 

Pois eis que depois de quase, senão mais de uma hora de projeção, o esgotamento particular, a impaciência espectatorial, encontra o reflexo perfeito no fluxo estéril da narrativa: nada de propriamente singular ou relevante aconteceu na trajetória das cinco mulheres enviadas à zona, o lugar que não só é preparado enquanto expectativa diegético-visual pela voz das cientistas e irradiação multicor própria de sua superfície, mas que a própria sinopse, movimento curioso, “vende” como “um local onde as leis da natureza não se aplicam”. Agora, é preciso perguntar não “que leis?” ou “que natureza?”, mas: por que diabos, com que expectativa, a partir de que lançamento fértil nas possibilidades infinitas de subverter a natureza, e que obviamente mal chegou a sair do solo – por que, afinal, este lugar que pode-se traduzir como fulgor, brilho ou resplandecência (“shimmer”, no palavriado delas) se afigura em quase duas horas como, no máximo, um lugarejo de mofos coloridos nas paredes, plantas-homem e criaturinhas mutantes broxantes? Se não minimamente decepcionante para alguém que havia estruturado um poderoso suspense sci-fi poucos anos antes, e é claro que estamos a falar de Ex Machina: Instinto Artificial (Ex Machina, 2015), decerto um murchar de tudo o que poderia ter vindo a ser. É mais desgostoso o filme que chamamos de ruim ou aquele diante do qual tem-se a certeza de que foi um míssil enviado ao nada, mas que teve, no momento de ignição, um estardalhaço inerente?

Curioso, mas também irônico, porque absolutamente costurado de ineficácias: iniciado e pontuado mais à frente diversas vezes por um momento futuro deslocado, quando já partimos do princípio de que, sim, Lena (Portman) será a única sobrevivente da missão de número incontável, é fluido encontrar-se numa encruzilhada auto-provocada: ou aquilo que se segue e o que aconteceu na “zona” confirmarão o impacto misterioso da mulher interrogada por aparentes autoridades – alguns poderão até arriscar que supremas autoridades em iminência de salvamento do mundo –, ou o trem descarrilará, e, neste caso, não apenas pelo que não há de impressionável nos acontecimentos ou geografias e particularidades do lugar: antes tudo em Aniquilação nascesse morto!, sua insuficiência crônica é uma de embaralhamento, o típico e cancerígeno caso da narrativa que se dispersa e finda por pura e simplesmente só “atirar para todos os lados” – nem sustenta os núcleos que gera, nem acelera ou dinamiza a própria espinha dorsal. Mas motivar a busca da bióloga e guiá-la pelo desvendar do estado mortal do marido zona adentro não é a célula originária do câncer. São todas as suas raízes que o comprovam: a infidelidade descoberta e fragmentada em microepisódios que, se servem de alguma coisa, é para simular uma tentativa tola de torná-la mais – o quê? – complexa, estilhaçada, densa, menos moralmente correta?; ademais: em que temporalidade paralela se espera que o anúncio e o desenvolvimento críveis e sensíveis da relação desgastada com o marido se concluam ou cristalizem num chororó embalado por uma música de dramaticidade duvidosa ou por um momentinho de cócegas à cama?

Ao menos até o aparecimento monstruoso e de fato assustador da criatura, que é um híbrido entre javali e lobo (a incerteza, na verdade, alimenta o breve fôlego verdadeiramente criativo), ainda que depois dela tudo volte a ser pobre e sem encantamento, o que se vive é um conservadorismo disfarçado e atípico: encoberto porque se flagela o tempo inteiro com a vendagem auto-sabotada de um mundo “que desafia as leis da natureza” mas não consegue sair do tradicionalismo do espelho da realidade, e acaba deixando tudo para o discurso – sabemos que dizer um fenômeno não é vivê-lo, e realidade diferenciada alguma se constrói com uma iluminação cujo único louro é enfeitar e reproduzir as cores do arco-íris –; atípico pelo que tem de desviante: é um tradicionalismo emperrado numa estética sem qualquer vestígio de rompimento ou subversão, e não exatamente no que possa haver de conservador em seu conteúdo ou discurso. 

Asfixiado por tudo-o-que-nunca-foi, a obra se encaixa numa espécie de prisão que pode ser ilustrada por um comparativo: nem Stalker (idem, 1979), porque Garland não é “Tarkovsky o suficiente” para erigir um lugar-situação metafísico apenas com a gestualidade da câmera e o som, e sua apelidação autoimposta de “fulgor” nunca chega a vingar, sequer em sua sequência-chave final, nada por acaso picareta e supostamente aberta; nem Avatar (idem, 2009), que embora também permaneça afixado nas aproximações do nosso mundo com aquele representado (o que retesa a imaginação revolucionária e faz com que queiramos replicar seres de duas pernas, bichos com asas e quatro patas, se, afinal, o mundo é eminentemente outro?), ao menos se dá ao trabalho de compor e costurar a efervescência temática do planeta distante e suas possibilidades de estender outros hábitos com arcos dramáticos que os utilizam enquanto propulsores aventurescos. 

A resultante é um filme em aspas: protocolar, cansado, dependente de mais da sua metade (e para, ao cruzá-la, não criar quase nada), artificial e ingênuo diante de seu espectador, sujeito contemporâneo e estuprado de imagens e fórmulas a ritmos que ainda não conseguimos nós mesmos processar. Uma embalagem de adereços e roupagens cuja falha foi não ter sabido gerir o orgânico ou sustentar a própria contagem. Sem narradores, não há brilho; sem ossos ou carne aos homens e às histórias, repetidos simulacros reluzentes e fadados ao esquecimento.
Por Felipe Leal, em 14/03/2018
Avaliação:         4.5
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 5.0
• Daniel Dalpizzolo 6.5
• Régis Trigo 5.5
• Silvio Pilau 7.5
• Heitor Romero 5.0
• Felipe Leal 4.5
•  Média 5.7
Notas - Usuários
6.4/10 (119 votos)
Minha nota:
0.5 1.0 1.5 2.0 2.5 3.0 3.5 4.0 4.5 5.0 5.5 6.0 6.5 7.0 7.5 8.0 8.5 9.0 9.5 10.0
    --
• Todas as opiniões 
Comente no Cineplayers (8)
Por Mateus da Silva Frota, em 23/03/2018 | 19:49:53 h
A crítica é muito justa e bem aplicada, faz repensar bastante quem achou o filme acima da média, também acho curioso e contraditório que falte justamente criatividade hoje no cinema, principalmente na ação/ficção estado-unidense. Por que diabos "a outra realidade" é sempre humanos verdes, aranhas com mais patas ou pássaros com duas cabeças?
Por Chcot Daeiou, em 20/03/2018 | 11:43:49 h
bom saber, Kennedy, imagina o vácuo que ia ser se o filme fosse ainda mais desmembrado.
Por Kennedy, em 20/03/2018 | 11:40:05 h
Esse filme não foi produzido, escrito e dirigido para ser exibido na Netflix. A produção conseguiu, com sorte isso sim, fazer com que a Netflix comprasse os direitos de exibição, uma vez que a Paramount queria cortar várias cenas que, de acordo com o diretor, tirariam a essência do filme. A solução encontrada foi exibi-lo na Netflix, e não fazer como fizeram com Ex Machina, lançado direto em home-video (algo cada vez mais defasado).
Por Chcot Daeiou, em 20/03/2018 | 10:46:20 h
Agora, como a Netflix pretende sobreviver com um catálogo próprio cada vez mais insosso e o quanto e até quando o público estará disposto a pagar para ver, eis para mim a grande questão.
Por Chcot Daeiou, em 20/03/2018 | 10:44:24 h
Neste sentido, acho o Paradox mais sincero, porque ele se apropria (ou é apropriado por uma produtora, seria mais adequado dizer) a uma série para o qual ele não tinha sido pensado originalmente. Mais contemporâneo impossível. Nada mais desfuncional do que a série Cloverfield, que são unidas senão por serem batizadas homônimas. Já neste Aniquilação, ele conta com um complemento, a como aguardar paralelismos que o filme por si não pode conter e por isso a necessidade da cientista a todo momento interromper a narrativa com um depoimento 'pós-eventos' para explicar a trama.
Seriam ingênuas ou formas calculadas de assassinar o que durante mais de um século aprendemos com a dramaturgia cinematográfica? A questão fica para os espólios ou como o cinema sobreviverá a partir desses escombros. A Netflix, começamos a perceber mais e mais, não será quem resolverá essa questão.
Por Chcot Daeiou, em 20/03/2018 | 10:34:39 h
Você levanta aqui uma questão muito similar a da crítica de Cloverfield Paradox: os filmes são problemáticos, com certeza, mas o problema vai além para o público (que sempre pretendemos bem pensante) e para a crítica enquanto grupo organizado e especializado em prolongar e debater filmes. Ou seja, é uma auto-crítica.
A crítica que você escreveu sobre o Paradox foi acusada de genérica e esta é a qualidade dela, por poder ser +ou- aplicada a qualquer filme. Realmente tem se tornado um comportamento hercúleo a defesa de qualquer filme, mas sempre encontram seus defensores, aqui e ali. Seria o mesmo exercício encontrar as analogias dos símbolos neste Aniquilação. Daquela você avança para a discussão aqui: o que eu tenho percebido nas conversas sobre cinema com amigos é esse sentimento de saturação, nada agrada. As formas narrativas parecem ter sido tomada/domada por outras formas; o formato seriado, precisamente e o vídeo-depoimento, por outro; mais ficção e mais real.
Por Chcot Daeiou, em 20/03/2018 | 10:28:24 h
Quase 30 milhões em caixa num filme ruim que já nasce praticamente pago não me parece muito mal, A. Koball!!
Por Alexandre Koball, em 19/03/2018 | 08:13:40 h
Interessante o lançamento simultâneo nos cinemas e na Netflix. Talvez já apostando nas baixas bilheterias, pois o filme é realmente fraquinho.
Comente no Facebook
Todas as informações aqui contidas são propriedades de seus respectivos produtores. Sugestões? Reclamações? Elogios? Faça valer sua opinião, escreva-nos!
 CINEPLAYERS CAST
CP Cast
• #38 Era Uma Vez no Oeste
• #37 Jurassic Park e Jurassic World
• #36 O Bebê de Rosemary
• #35 A Noite dos Mortos-Vivos e Despertar dos Mortos
• #34 Han Solo: Uma História Star Wars
• #33 Deadpool 2
• #32 Um Corpo que Cai
• #31 Stephen King no Cinema
• #30 Vingadores: Guerra Infinita
• #29 A Franquia 007
• #28 Um Lugar Silencioso
• #27 2001: Uma Odisseia no Espaço
• #26 Jogador Nº1
• #25 Planeta dos Macacos
• #24 Quentin Tarantino
• #23 75 anos de David Cronenberg
• #22 Projeto Flórida
• #21 Trama Fantasma
• #20 Três Anúncios Para um Crime e Lady Bird
• #19 Oito e Meio de Fellini
• #18 A Forma da Água
• #17 The Post e os filmes de Jornalismo
• #16 Indicados ao Oscar 2018!
• #15 20 Anos de Titanic
• #14 Nostalgia Cinéfila - Especial 15 Anos!
• #13 Melhores de 2017
• #12 Star Wars: Episódio VIII - Os Últimos Jedi
• #11 Especial Natalino
• #10 Assassinato no Expresso Oriente
• #9 Onde os Fracos Não Têm Vez
• #8 Liga da Justiça
• #7 Stranger Things
• #6 45 anos de O Poderoso Chefão
• #5 Branca de Neve e os Sete Anões
• #4 Halloween
• #3 Blade Runner / Blade Runner 2049
• #2 De Volta Para o Futuro
• #1 Os Goonies
• #0 O Piloto
 LEIA TAMBÉM
 FICHA DO FILME

 Aniquilação
(Annihilation, 2018)
• Direção:
- Alex Garland
• Elenco Principal:
- Natalie Portman
- Oscar Isaac
- Jennifer Jason Leigh
• Sinopse: Em uma expedição perigosa e secreta, para descobrir o que aconteceu com os soldados desaparecidos, Lena, uma bióloga e mulher de um deles, descobre um local onde as leis da natureza não se aplicam.
 FILMES RELACIONADOS
• Avatar
• Ex Machina: Instinto Artificial
• Stalker
CINEPLAYERS LTDA. (2003 - 2018) - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

CENTRAL DE USUÁRIOS
FILMES
CRÍTICAS
NOTÍCIAS
PERFIS
TRILHAS SONORAS
HOME CINEMA
TOPS
COMENTÁRIOS
ARTIGOS
PREMIAÇÕES
JOGOS
FÓRUNS
PAPÉIS DE PAREDE
MAIS ASSISTIDOS
EQUIPE
NOSSA HISTÓRIA
CONTATO
PERGUNTAS FREQUENTES
PROMOÇÕES
ESTATÍSTICAS
ESPECIAL A NOVA HOLLYWOOD
ESPECIAL WES CRAVEN
CHAT
MAPA DO SITE
API CINEPLAYERS
ANUNCIE CONOSCO
         
CINEPLAYERS LTDA. (2003 - 2018)

           
 USUÁRIOS
 + ASSISTIDOS
 EQUIPE
 HISTÓRIA
CONTATO
FAQ
PROMOÇÕES
ESTATÍSTICAS
WES CRAVEN
MAPA DO SITE
API
ANUNCIE