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CRÍTICA

Culpa

(Den skyldige, 2018)
Por Bernardo D.I. Brum Avaliação:               7.5
Um suspense sonoro.
imagem de Culpa
Os filmes de uma locação sempre foram um desafio para o cinema e já deram origem a muitas obras-primas, como Doze Homens e Uma Sentença e Festim Diabólico. Recentemente, têm aparecido com cada vez mais frequência os que confiam o drama a praticamente a apenas um ator - é o caso de Enterrado Vivo, 127 Horas, Locke e Buscando… É o caso também de Culpa, um dos nomes fortes para competir o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Após dirigir o curta-metragem I mørke e dois episódios da série policial Bedrag, o sueco Gustav Möller estreia na direção de longas-metragens contando a história de Asger, um voluntarioso policial que comete um erro em campo e, enquanto aguarda o julgamento de seus superiores, é transferido como telefonista de emergências policiais. No dia anterior à sua apelação, entre o estresse típico de atender viciados tendo delírios e ricaços desavisados, Asger recebe a ligação de Iben, que diz ter sido sequestrada pelo marido. Quanto mais detalhes da trama são revelados, mais Asger sairá do protocolo normal para interferir com a situação que atende.

Um filme confiado a uma locação e a um ator para causar suspense inevitavelmente será um filme que apela muito à performance, e nesse sentido Jakob Cedergren (Submarino) dá conta com segurança da missão de guiar pelo espectador por um labirinto tenso e confuso de informações. Sua forma “perfeita” - cabelos penteados, uniforme alinhado, tom de voz controlado - rapidamente vai pelo ralo abaixo, e logo os olhos estão arregalados, o suor escorre aos borbotões, o homem antes controlado se acaba de gritar ao telefone.

O roteiro acerta na construção do personagem ao conceder-lhe uma história de fundo que influencia diretamente na história principal: ao contrário do tão comparado Locke, que resolvia os próprios conflitos mediante conversas de telefone, os acontecimentos pregressos ao filme em Culpa servem como uma camada do desenho psicológico do protagonista e o por que ele agir de maneira tão antiprofissional e passional. Protagonistas da lei são um prato cheio para isso, e tais recursos podem ser encontrados tanto no blockbuster de ação Duro de Matar, no clássico do suspense psicológico O Silêncio dos Inocentes ou no filme em questão aqui, onde dispensa-se o uso de flashbacks porque o passado influi diretamente na maneira de se agir no presente.

Para um estreante, Möller também traz ideias interessantes de encenação, como mostrar o protagonista progressivamente isolado, através de closes, fundos desfocados e até movimentação para um escritório separado, com janelas fechadas e menor iluminação, trazendo para o aspecto visual a tensão já desenhada pela sonorização do filme. O poste luminoso que indica a chamada também serve não só como informação visual (que alguém chamando a emergência) mas também é, no decorrer do filme, utilizado como mais um elemento cênico para destacar o emocional abalado do protagonista em luz bruxuleante. A forma que se ilumina o personagem Asger, frequentemente pouco iluminado, frequentemente fazendo arriscadas travessias de portais (seja as portas que atravessa, se isola ou as ligações que decide fazer) corrobora na ilustração dessa jornada emocional.

Dessa forma, Möller justifica ser uma obra cinematográfica o que muitos imaginariam como uma peça radiofônica ou conto literário, já que o protagonista não vai para lugar algum: ele vai, só que dentro de sua cabeça, utilizando outro sentido que o cinema valoriza com pouca frequência: a audição.

Como não podia deixar de ser, toda a tragédia do filme que narra o sequestro de Iben pelo marido Michael e seus motivos obscuros é oferecida para a nossa imaginação. Como a vítima, o algoz e seus espectadores se parecem, não sabemos, já que nossas informações são unicamente sonoras. Nesse aspecto é fascinante a forma que o filme se utiliza não apenas do diálogo mas como de todo o departamento de edição e mixagem sonora como nossa principal ferramenta narrativa, onde casando-se com a parte visual, mais emotiva e reativa ao concreto mundo sonoro ao qual não temos acesso, compõe um filme que nunca deixa o interesse por aquela situação ser perdido.

Se há algum problema, é justamente com a utilização de uma reviravolta de roteiro um tanto saturada que, ainda que dê vazão ao protagonista exorcizar seus próprios demônios ao admitir um erro do passado, leva um filme de proposta corajosa para o lugar comum. Quase um atestado que na atual configuração da indústria não parece mais haver espaço para muita dúvida: nem tudo é o que parece, os plot twists irão inevitavelmente surgir e, de maneira problemática, de maneira previsível. Já foi o caso em Buscando…, por exemplo, e se repete aqui, ainda que confie em apenas uma única surpresa inesperada enquanto o filme americano aposta em várias. 

A sensação geral que fica, apesar de ser um filme com uma condução consciente do poder das imagens e visuais e sonoras, é a de uma obra não completamente amadurecida, com muitas boas ideias “embaladas” por uma história no geral comum e acomodada. Mas pelo que apresentou aqui, Möller é definitivamente um nome para se prestar atenção.
Por Bernardo D.I. Brum, em 28/12/2018
Avaliação:               7.5
Notas - Equipe
• Régis Trigo 6.5
• Silvio Pilau 9.0
• Marcelo Leme 8.0
• Bernardo D.I. Brum 7.5
•  Média 7.8
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 FICHA DO FILME

 Culpa
(Den skyldige, 2018)
• Direção:
- Gustav Möller
• Elenco Principal:
- Jakob Cedergren
- Jessica Dinnage
- Omar Shargawi
• Sinopse: Asger Holm é um ex-policial e desativador de alarmes que responde uma chamada de emergência de uma mulher sequestrada. Quando a ligação acaba desconectada, ele sai em busca da vítima antes que seja tarde demais, sem perceber que está se envolvendo em...
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