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CRÍTICA

Custódia

(Jusqu'à la garde, 2017)
Por Marcelo Leme Avaliação:                 8.0
Bestialidades.
Fatores e níveis de violência têm inspirado histórias no cinema contemporâneo mundial. Ao explorar o tema, alguns filmes conduzem discussões sobre formas e tipos de violência, o que rende interessantes argumentos para a concepção de roteiros. Os filmes não terminam com os créditos. 

O diretor e roteirista Xavier Legrand, através da mise en scène, cria rivalidade entre seus personagens centrais, como vemos logo no início no segundo plano numa audiência de custódia, com um homem e uma mulher opostos brigando pela guarda do filho enquanto nós, espectadores, nos colocamos em frente a eles, observando-os. O homem está cercado por outras mulheres – advogadas e juíza. A juíza, no centro, divide o casal que não se encara, com semblantes sisudos, impacientes pela indefinição que os cerca e que os mantém indesejavelmente juntos. É a abertura de um processo de análise subjetiva, cuja interpretação dos atores direciona nosso olhar. 

As advogadas explicitam características do casal junto aos filhos – recurso interessante para nos fazer conhece-los, plantar a dúvida sobre quem é cada um deles e quem diz a verdade. O pai, Antoine Besson (Denis Menochet), é tido como alvo das imputações, um homem violento (?) que ali se mostra pacífico e interessado pela guarda compartilhada. Ele enfatiza: as denúncias contra ele são falsas, partiram da mulher, Miriam (Léa Drucker), que o demoniza, colocando o caçula contra ele. O contexto e os personagens nos são apresentados para após sermos inseridos na rotina de afastamento quando o filme se desenvolve. 

Bestialidades são postas à vista. 

E aí uma história sobre possível violência doméstica se inicia, trazendo as implicações da pós-separação, tratadas pelo roteiro de maneira inteligente por estabelecer um núcleo de interações e revelar comportamentos de cada indivíduo, sempre num clima apreensivo e pouco amistoso, explorando o dia a dia e como se dá cada contato. Uma criança está no centro do núcleo e mostra-se quase incapaz de olhar para os olhos de qualquer um. Quando está junto ao pai, a tensão se estabelece exprimindo em planos fechados uma sensação de opressão a ponto de estalar.

Sem pressa e com precisão, o roteiro externa a família acuada, num emaranhado de agonias enquanto o pai, abominado, manifesta suas frustrações dentro do carro ou em uma mesa de jantar. Seria mesmo um pai violento? 

A violência eclode súbita e repentinamente neste filme de desamor cujos impactos derivam da brutalidade desenfreada e injustificável. Um caso como tantos outros escondido atrás de portas e janelas fechadas. Certa cena específica é imprescindível para essa percepção do que está escondido ou visível o bastante a ponto de exigir esforço para fingir que não se percebe. De trás da porta, uma vizinha ouve um barulho. Da porta de entrada, ela enxerga o infortúnio. 
Por Marcelo Leme, em 12/06/2018
Avaliação:                 8.0
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