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CRÍTICA

Dez

(Ten, 2002)
Por Roberto Ribeiro Avaliação:                 8.0
Mais um belíssimo filme vindo do Irã, retrata a situação das mulheres não só daquele país, mas do mundo todo.

Nestas últimas duas décadas, o cinema iraniano veio crescendo e ganhando espaço no meio cinematográfico internacional, e hoje é um dos pólos culturais mais importantes desta arte. Usando-se de uma estética que flerta com o neo-realismo italiano, este cinema produziu centenas de obras primorosas e diversos diretores consagrados, mas nenhum tanto quanto Abbas Kiarostami, autor de obras-primas como Gosto de Cereja e Close-Up. Em Dez, ele vai mais adiante e redefine o conceito de realismo.

Filmado todo em digital, Dez conta a estória de uma mãe divorciada de classe média que dirige um carro. Sempre com uma pessoa no passageiro, ela passa o filme inteiro conversando e debatendo com suas caronas (inclusive, a idéia original do filme era de uma psicóloga que atendia seus pacientes no carro). O carro - figura central nos filmes do Kiarostami - aqui é um mero espectador, uma desculpa (ou meio, como preferir) para haver diálogo entre os personagens. São cinco estórias a serem contadas, que se intercalam uma nas outras: a do filho pré-adolescente Amin; a de sua irmã; a de uma senhora religiosa; a de uma jovem apaixonada e a de uma prostituta, e essas cinco estórias são contadas em dez sequências, todas se passando dentro do carro, mas a estória central é a relação mãe-filho.

Há somente duas câmeras, ambas fixadas no painel, uma focando na motorista, outra no banco do passageiro. Não há movimentos de câmeras, não há closes, quase não há cortes (mas esse filme apresenta uma edição interessante, falarei disto mais adiante); a câmera se transporta para a platéia, e apenas observa os personagens. De certo modo, o cinema digital apaga a figura do diretor e transforma a tela numa janela, onde assumimos a posição de voyeurs, e apenas vemos as coisas acontecendo. Com isso, gradualmente descobrimos vários aspectos sobre a vida pessoal dos personagens, como que a mãe é fotógrafa profissional, divorciada do ex-marido e casada novamente, que Amin detesta seu novo padrasto, e acha a mãe uma covarde e mentirosa por ter fugido do casamento... diversos pequenos detalhes que escapam na conversa e que nos dizem muito mais dos personagens que diria o filme caso fosse filmado de um jeito convencional. Entretanto, eles também deixam escapar vários detalhes que nunca são explicados, como por exemplo, quem é o tal de Peyman, a quem Amin compara o padrasto? Nós não sabemos, mas os personagens sabem, e não lhes convém ficar explicando tudo, o que confere um grau de realismo quase documental.

Aliás, este filme poderia muito facilmente ser confundido com um documentário, filmado usando câmeras escondidas no painel. O grau de veracidade nos diálogos é assombroso, com destaque para o garoto Amin (este é seu nome na vida real também), que segue a linha de crianças amadoras do cinema de Kiarostami (do cinema iraniano em geral), e consegue criar um laço tão forte com a mãe que fica difícil acreditar que não já se conheciam fora das câmeras. Eles vivem uma relação de amor e ódio, frequentemente alternando momentos de extrema tensão com momentos de descontração. A mãe, sentindo-se sufocada na relação, divorcia-se do marido e casa de novo, mas Amin é muito novo para entender e aceitar a situação, e acaba se afastando da mãe. Esta tenta explicar seus motivos, reafirmando sua condição de mulher independente, mas isto acaba afugentando ainda mais Amin, que resolve ir morar com o pai. Esta relação tumultuada deles direciona todo o desenrolar da estória, já que a mãe continuamente muda de atitude, o que também influencia os seus outros passageiros.

Ela passa o dia inteiro dirigindo, e sempre procurando dar carona a alguém. Uma dessas é uma jovem que pretende se casar, e passa a ir ao mausoléu rezar para que o namorado se resolva. A mãe (ela não tem nome no filme, vamos chamá-la apenas assim) dá carona a esta garota em dois episódios, e podemos perceber bem a mudança de comportamento dela. Na primeira, ela havia apenas recentemente começado a frequentar os mausoléus e, assim como a jovem, buscava um pouco de paz interior. Mas a jovem estava particularmente otimista quanto ao seu relacionamento, enquanto a mãe estava visivelmente abalada com o descaso e arrogância com que era tratada pelo filho. Na segunda vez, os papéis se invertem. A jovem (que agora raspou o cabelo) está em prantos porque o namorado a trocou por outra, enquanto a mãe parece bem mais resolvida e de bem com a vida, e isto inclusive se reflete nas suas conversas com Amin. Apesar de ainda bigarem, ela já consegue rir da situação e, usando-se de um certo conformismo, resolve dar uma trégua na relação dos dois. O mesmo acontece com sua irmã ao final do filme, que é abandonada pelo marido depois de sete anos (novamente, sob suspeita de traição dele), e a mãe consegue fazê-la pôr a cabeça no lugar e ver as coisas sob uma perspectiva mais otimista, perspectiva esta que ela provavelmente não teria há alguns segmentos atrás. Este ponto de mudança na atitude de mãe é a sua conversa com a prostituta no segmento número sete.

O encontro foi meramente ocasional (a prostituta entrou no carro porque achou que era um homem dirigindo), mas isto rende uma interessante conversa sobre o papel da mulher na sociedade. Mãe consedirava-se uma mulher decidida e livre mas, ao deparar-se com uma mulher muito mais livre que ela, começa a repensar este conceito. Ela é uma proficional de sucesso, cidadã de classe-média, num casamento feliz, de certa forma ela é livre fisicamente, mas não emocionalmente. A prostituta sim é livre, para transar com quem quiser, não tem responsabilidades para com uma família nem emprego. Certa hora a mãe diz que as mulheres são muito dependentes, primeiro se agarram ao pai, depois ao namorado, depois ao filho, depois ao trabalho. Apesar de estar falando das mulheres em geral, ela acaba de descrever (consciente ou inconscientemente) a trajetória pessoal da vida dela. A partir desta conversa, ela percebe o quanto é fútil as mulheres se devotarem a uma só causa, o que lhe permite não só amparar a jovem e sua irmã em suas crises conjugais, mas também levar mais tranquilamente sua relação com o filho.

Muitos críticos relacionaram este filme a um desabafo da situação das mulheres no Irã, mas na verdade ele se encaixa para todas as mulheres em geral. Os problemas e aflições delas transcendem qualquer barreira geográfica e enfocam a condição da mulher em si, evitando na maior parte problemas relacionados especificamente à cultura, o que se provou uma atitude acertada do diretor. Tirando uns poucos aspectos sócio-culturais (como o uso do véu e as condições limitadas de divórcio), eu não tenho dificuldades de enxergar aquelas mulheres vivendo no Brasil, por exemplo. Aliás, é curioso constatar como os dois países são parecidos, não só nas empregadas e flanelinhas, mas nas relações pessoais.

Outro aspecto da crítica em geral é taxar Amin como um estereótipo do homem opressor. Ora, ele não passa de um garoto! Certamente ele tem alguma influência do pai, mas toda a arrogância e agressividade dele para com a mãe é apenas fruto da puberdade e de uma situação mal-resolvida. Aliás, toda a liberdade que ele toma ao conversar com a mãe, e ao defender seu ponto de vista, é uma clara influência materna. Apesar dele fazer todo esforço para ignorar as eventuais militâncias da mãe nas suas conversas no carro, elas estão fazendo efeito. Quando eles estão conversando sobre uma futura esposa de Amin, a mãe brinca com ele, dizendo: "a sua esposa vai ser muito melhor que eu, vai sempre dizer 'sim, meu marido', vai viver dentro de casa, sempre a cuidar da família e dos filhos, cheirar a comida e usar roupas longas, não é?" e ele responde que, apesar destes defeitos, a esposa dele seria muito melhor que a mãe. Todos os ideais de uma mulher moderna, livre e trabalhadora que o garoto detestava ouvir no começo do filme acabaram influenciando-no.

Uma rápida nota sobre a edição do filme: por ter duas câmeras apontando para direções opostas (cada uma focaliza um dos personagens), o filme usa muito o recurso da voz em off, onde a câmera está focalizada num personagem, mas é o outro que está falando. No primeiro segmento, o tempo todo ouvimos a mãe e o filho discutindo, mas só vemos o filho. Só depois que este sai do carro e a conversa se encerra é que a câmera se vira para a mãe, nos revelando uma mulher jovem e bonita, o que quebra nossas espectativas de como ela é, baseada em toda a discussão e lições de moral que ela deu até ali. No caso da prostituta, ela sequer é mostrada, o tempo todo só ouvimos sua voz alegre e bêbada. O filme, que começa com uma calorosa e perturbada discussão da mãe e do filho acaba adotando uma forma mais serena a medida em que a estória caminha. O último segmento, que apenas repete uma situação já vista antes na estória, poderia sugerir um ciclo que se renova, mas agora a personagem está diferente, o que sugere na verdade uma espiral, onde as situações se repetem, mas as ações mudam. A mudança da mãe pode ser vista tanto como otimista (visão de liberdade) quanto pessimista (visão de conformismo), e isto está a cargo do espectador, o que importa é a mudança em si que, assim como a cabeça raspada da jovem, significa a possibilidade de um futuro melhor para essas mulheres.

Por Roberto Ribeiro, em 18/04/2005
Avaliação:                 8.0
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 5.0
• Régis Trigo 6.0
• Silvio Pilau 6.0
• Vlademir Lazo 8.0
• Heitor Romero 8.0
• Rafael W. Oliveira 7.0
•  Média 6.7
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 FICHA DO FILME

 Dez
(Ten, 2002)
• Direção:
- Abbas Kiarostami
• Elenco Principal:
- Mania Akbari
- Amin Maher
• Sinopse: Dez conta a estória de uma mãe divorciada de classe média que dirige um carro. Sempre com uma pessoa no passageiro, ela passa o filme inteiro conversando e debatendo com suas caronas. São cinco estórias a serem contadas, que se intercalam umas nas ou...
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