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CRÍTICA

Elle

(Elle, 2016)
Por Felipe Leal Avaliação:                   9.5
A excitação perversa.
imagem de Elle
Antes que se faça a luz na imagem, um grito e o estilhaço de objetos rasgam o negrume da tela: sabemos que o desespero provém de uma mulher em luta com algo. A frustração do privilégio espectatorial vem em seguida, posto que o acontecimento é analisado (sim, a palavra é esta; sim, a posição de uma câmera é um gesto político) à distância, pelas bordas do quadro e pelas bordas que separam certo cômodo da cozinha, onde a mulher da escuta se materializa na mulher no chão, violada por um vulto negro e mascarado em duas em suas propriedades mais caras: a casa e o corpo. Mas a frustração se duplica: à exceção da turbulência corpóreo-psicológica, nada é levado da casa. Há algo de estranho, ou melhor, de incompleto na violação e na cena. Incompletude, aliás, que logo se transmuta em inquietação: o primeiro ato da mulher ensanguentada e ofegante burla o trauma. Um corte a exibe, como que por continuidade temporal, limpando os cacos de vidro que a invasão deixou, e a seu acompanhante visual resta saber se o verdadeiro gesto monstruoso não teria sido na verdade o abalo à ordem cotidiana da Michèle Leblanc (Huppert).

Porque o que se segue é também a brusca interrupção da saída mais viável e comum ao gênero; aliás, a partir de então, tudo é uma espiral psicodramática alinhada à businesswoman cujo maior atributo, e, ironicamente, derrocada, é essencialmente o poder que sua figura guarda para si. Ereta, elegante, queixo elevado, portando um controle que parece ter sido constituído dos cacos de um desvario, tamanha sua excentricidade, Leblanc experiencia, através do ponto de partida da regressão psicológica que a invasão à sua casa-corpo representa, o verdadeiro inferno que é retornar a um lugar afetivo onde a ordem que o poder lhe proporciona se desequilibra. O bandido – condição momentânea, obviamente, pois estamos tratando de Verhoeven -, símbolo único de uma ausência, paira nas vidraças de sua casa, nas microameaças da empresa onde ela domina, no miado ressoante e antecipatório do gato de estimação, observador imóvel e único do estupro.

E não demora a se inserir na duração episódica do perturbado cotidiano de Leblanc um elemento de absurdo, elemento que é paradoxal em si mesmo e do qual se extrairá toda a comicidade possível desta obra que é mais hilária que centenas de comédias juntas. Trazendo, à mesa de um restaurante e com precisão horária, para seu ex-marido, sócio e amante, a violência que havia sofrido dias antes, a reação da mulher é tão brusca quanto a motivação que a levou a desabafar. ''É isso, foi o que aconteceu. Estou ótima. Já podemos pedir?''. Confirmado o tom de seu contra-ataque, a solidez inabalável e o metodismo da super-proteção de armamentos, fechaduras e hackers, todo o corpo de Huppert se incrusta com uma expectação que é tão extremada quanto a leveza com que parece carregar todo o dispositivo de dominância que é, afinal, a própria vida.

Justifica-se, então, que ela se mantenha infinitamente resoluta em não convocar a polícia, em não inserir outras instâncias de poder que não ela mesma. E porque, no fundo, a atenção a agrada, Leblanc escolhe dominar, perpetuar uma já prolongada e má resolvida infantilidade cuja centralização proporciona o êxtase do controle, ao mesmo em que opera as vidas da mãe, do filho, da empresa e suas dezenas de funcionários (não por acaso, homens) e do ex-marido. No jogo asséptico que cria com seu caçador, tudo é purificação: apagar os rastros dos objetos quebrados, limpar o sêmen da cama, lavar as coxas ensanguentadas, ansiar mais pela blusa que nunca foi melada do que pelo corpo – este pode ser maquiado. A verdade é que talvez ela queira uma segunda aparição física do vulto negro exatamente para saber quem é, e nisto implica aprofundar-se na superfície de toda sua vida, suas funções, relações, o que o torna debilitado, o que o faz gozar. Assim, e só assim, de acordo com seu método, lhe é possível lidar com o desconhecido: torná-lo comprável, seduzível; enfim, manejável.

Entregue às mãos de outrem, decerto Elle (2016) teria regência inócua e oposta ao duplo caminho da excitação com que Verhoeven pinta estética e tema. Do primeiro ao último minuto, a presença do som corporifica a matéria do suspense e entrega as mãos a nós, observadores. Huppert, sempre abismal, torna-se gestos, ironias, insanidades e tons de voz excessivos em seu paradoxal controle. E o perverso está lá, toque sobre-excitado de autoria prestes a romper na relação inconcebível com o assaltante que é puro devir psicossomático. Tão inconcebível que é cinema, e sabemos que toda grandiosidade trata sobretudo de exceções.
Por Felipe Leal, em 06/10/2016
Avaliação:                   9.5
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 8.0
• Daniel Dalpizzolo 8.0
• Rodrigo Cunha 9.0
• Régis Trigo 7.5
• Silvio Pilau 7.5
• Vlademir Lazo 7.5
• Heitor Romero 9.0
• Marcelo Leme 8.0
• Bernardo D.I. Brum 9.0
• Francisco Carbone 9.5
• Guilherme Bakunin 8.0
• Rafael W. Oliveira 9.0
• Léo Félix 7.5
• Felipe Leal 9.5
•  Média 8.4
Notas - Usuários
8.1/10 (272 votos)
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Comente no Cineplayers (2)
Por Lucas Aragão El Hawat de Aragão, em 04/12/2018 | 23:58:57 h
Por Gabriel Fagundes, em 09/10/2016 | 23:19:15 h
Grande texto para o que foi até agora o melhor de 2016.
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 FICHA DO FILME

 Elle
(Elle, 2016)
• Direção:
- Paul Verhoeven
• Elenco Principal:
- Isabelle Huppert
- Jonas Bloquet
- Alice Isaaz
• Sinopse: Uma obstinada diretora de uma companhia de jogos é alvo de um assaltante misterioso, com quem ela inicia uma partida de perseguição que a qualquer momento pode sair do controle.
CINEPLAYERS LTDA. (2003 - 2018) - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

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