Saltar para o conteúdo

Críticas

Cineplayers

A arte e o homem.

5,5

Constituiu-se um subgênero à parte dentro da prolífica produção documental brasileira nestes anos 2000, dedicado a registrar a vida e a carreira de diversos músicos nacionais — exemplos são tão fáceis de serem encontrados que se tornam dispensáveis. Em Jorge-Mautner — O Filho do Holocausto (2012), o jornalista Pedro Bial e o codiretor Heitor D’Alincourt compõem uma espécie de catálogo-síntese das opções narrativas mais recorrentes a estes filmes: estão lá as imagens de arquivo, os registros biográficos, os depoimentos do artista e dos colegas e familiares, os fragmentos do período de maior apelo popular de Mautner e, em meio a isso tudo, um show em estúdio com produção ostentosa onde, num caleidoscópio de cores, luzes e cenários cuja ideia de imediato lembra o Stop Making Sense (idem, 1985), documentário-espetáculo de Jonathan Demme com os Talking Heads, acompanhamos Mautner e sua banda em apresentações vibrantes, que ocupam grande parte do corte final e são, de fato, os momentos mais entusiasmantes do filme.

Em geral, estas escolhas são consequências de um desejo primário de quem decide documentar um personagem: o de dar conta de construir em tão pouco tempo uma obra que o sintetize, que comprima sua história e, no caso das produções sobre músicos e compositores, a arte criada por ele, resultando em um processo burocrático: há etapas das quais estes filmes dificilmente fogem, ou informações que, se subentendidas ou ignoradas, podem causar estranhamento a quem não possui intimidade com a pessoa retratada, ou crê na equívoca ideia de que os filmes necessitam impreterivelmente de todas estas informações. O Filho do Holocausto não foge desta regra pouco imaginativa (o primeiro terço é um revival de memórias bastante entediante, como já antecipa o título, em torno da relação de Mautner com a Segunda Guerra, da qual seus pais fugiram pouco antes de ele nascer) e opera sobre uma montagem preguiçosa que intercala com simetria os depoimentos e as apresentações musicais — prendendo o ritmo do filme e o espectador a uma espécie de fórmula circular que, tão logo seja assimilada, contagia o olhar com sua própria burocracia. 

Apesar do cansaço gerado por essa montagem esquemática, o filme é mais funcional quando pensado depois de visto, pois há nesta divisão, contraditoriamente, ao menos dois méritos inegáveis: a reflexão que propõe entre a figura de Mautner como homem e como artista e a valorização da voz, do corpo e da performance dele, que fortalece sua imagem através do trabalho de expressão em palco, capaz de falar de seu legado melhor que qualquer depoimento saudosista de um admirador, de um amigo ou parceiro de trabalho — também presentes aos montes no filme. As importantes composições de Mautner para a MPB são o que de melhor se preserva após a sessão, e o próprio filme às vezes é capaz de prever isso e conflitar o vigor artístico destes momentos com a personalidade intensa de Mautner e suas fraquezas como homem — especialmente quando intercala as canções com a conversa entre Jorge e sua filha, Amora Mautner, que revela e avalia junto do pai recordações da infância peculiar e traumática, provocando um atrito interessante na relação entre ambos em cena.

É nas passagens com Amora que os depoimentos finalmente se justificam, valendo para algo mais que revelarem informações bibliográficas ou contarem histórias sobre o compositor — importante lembrar, o projeto é baseado na autobiografia de Mautner, a qual ele lê diversas vezes em frente à câmera, em cenas com resultado bem irritante. Nas palavras da filha e na troca de olhares entre ambos o filme evidencia o lado humano de um artista cujas palavras, sejam elas cantadas ou impressas nas publicações onde colaborou (como o famoso jornal O Pasquim), provocaram reflexões fundamentais em sua geração. A despeito de toda intelectualidade, acidez e sagacidade das ideias, ali notamos que, enfim, mesmo nos grandes artistas estão, antes de tudo, homens tão conturbados e peculiares quanto nós — e que não deixamos de admirar por conta dos seus excessos idiossincráticos. Embora solene e excessivamente encenado na maior parte do tempo, O Filho do Holocausto ganha nestes momentos uma força interessante, quebrando a sensação recorrente no restante do filme: a de estarmos vendo mais um daqueles documentários saudosistas para fãs e colecionadores que em breve entupirá as prateleiras das lojas de home cinema.

Comentários (1)

Adriano Augusto dos Santos | sexta-feira, 29 de Junho de 2012 - 10:12

Taí um que sempre ouvi falar e acho que nunca ouvi.
Não sei dizer quem é.

Faça login para comentar.