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CRÍTICA

Luzes da Cidade

(City Lights, 1931)
Por Daniel Dalpizzolo Avaliação:                 8.0
Encantador e inesquecível por sua maravilhosa simplicidade. Um dos mais comoventes finais de todos os tempos.

Chaplin sempre fora considerado um dos grandes inconformistas do cinema. Pudera, sua trajetória no mundo cinematográfico aponta veementemente para isso: durante a década de 1920, fundara, juntamente com D. W. Grifth, a United Artists, estúdio de cinema cujo mote era a liberdade artística total de seus membros, anteriormente sofredores de represálias dos grandes chefões da indústria fílmica hollywoodiana. Alguns anos mais tarde, com o advento do cinema falado, Chaplin se negara durante exatos treze anos a deixar de fazer filmes mudos, fato que ocorrera apenas no ano de 1940, com O Grande Ditador. Ademais, ainda mergulhava suas obras em críticas severas ao sistema, às desigualdades e outros diversos problemas sociais - principalmente em sua maior obra-prima, o inigualável Tempos Modernos.

Apesar de todos estes fatos, que ilustram seguramente a afirmação feita na primeira sentença do texto, vocês hão de concordar comigo que, embora sempre trajara esse manto de rebeldia, de discórdia e de inconformismo, Chaplin não passava mesmo era de um romântico. Um romântico inveterado. Não apenas em relação ao amor, de pai para filho ou de homem para mulher, mas também no tocante ao modo de enxergar e viver a vida. E não há nada que comprove isso com tanta clareza quanto seu trabalho neste maravilhoso Luzes da Cidade, possivelmente uma das histórias de amor mais singelas e comoventes já mostradas no cinema.

Apontada por alguns como sendo sua obra-prima, essa produção de Chaplin é tão simples que, por outros, pode ser considerada até mesmo simplória e, no caso dessa pessoa possuir alguns traços de insanidade mórbida, ordinária. Porém, o filme passa longe, muito longe disso. É um conto de amor bastante simples, é verdade, mas construído com uma paixão tão intensa que se torna uma fita apaixonante e extremamente emocionante, como poucas feitas até os dias de hoje. Não obstante, também possui fortes traços da genialidade cômica que marcara todas as produções de Carlitos, acrescentando momentos verdadeiramente hilários em meio à trama doce, leve e deliciosamente comovente.

A história do filme utiliza-se do icônico personagem do Vagabundo, que, desta vez, se apaixona por uma florista cega. A moça, em razão de um mal entendido, acredita que ele seja rico, e Carlitos tentará fazer de tudo para manter essa “imagem”. Aproxima-se de um ricaço, que tentara suicídio e fora salvo por ele, e começa a utilizar-se de todas as suas regalias, procurando sempre encontrar um modo de ajudar a pobre moça, ora com dinheiro, ora com carinho. Ao descobrir que um médico havia descoberto a cura para a cegueira, Carlitos fará de tudo para conseguir o dinheiro necessário ao pagamento da operação, mesmo que, por isso, precise trabalhar ou até mesmo disputar uma luta de boxe.

Enquanto em Tempos Modernos Chaplin expressara toda sua ira “vermelha” acerca do regime capitalista, cujas características acabaram criando um colossal abismo entre a parte nobre e a proletária da sociedade (utilizada constantemente para expressar sua engajada crítica social), em Luzes da Cidade o gênio ainda demonstrava um amor transcendental a respeito do mundo, uma visão romantizada do ser humano - e, como já disse logo acima, da própria vida. É um filme que exala inocência e ternura em cada centímetro de celulóide (algo parecido com o que fez em O Garoto, mas englobando uma vertente diferente, desta feita o amor entre homem e mulher), sem deixar que o melodrama adentre suas entranhas e transforme tudo em um simplório emaranhado de cenas que visam à manipulação emotiva do espectador. Tudo é muito orgânico, e essa naturalidade é sentida na pele por quem assiste à obra.

Porém, a genialidade de Chaplin na composição do filme não se resume apenas ao equilíbrio emocional e à inocência de sua narrativa. Em Luzes da Cidade, um dos grandes méritos do diretor é a forma como consegue demonstrar fluência e, ao mesmo tempo, muita economia na transcrição de sua maneira de contar histórias, durante um período no qual o cinema passava por um momento de mudanças abruptas em sua composição. Tudo isso, vale lembrar - e remeter também à questão do inconformismo comumente empregado à persona de Chaplin, abordado pela pessoa que vos fala na introdução do texto em questão -, deve-se ao fato de que o diretor fora um dos autores que se propuseram a ir contra a introdução do som no cinema, mantendo, na concepção de suas obras, a estrutura utilizada na época do cinema mudo (que estava em plena borda da cova, pronto para ser enterrado). 

Chaplin sabia que a figura que criara no cinema, e que já havia importado para todo o mundo como sendo sua marca registrada, era necessariamente uma cria do cinema mudo. Tentar imaginar uma voz ao inesquecível personagem do Vagabundo, um mímico por natureza, é como tentar imaginar asas em um macaco sem que, com isso, ele perca sua veracidade; ou seja, algo completamente descabido. Essa talvez tenha sido a principal razão para que Chaplin não incluísse em Luzes da Cidade (e, posteriormente, em Tempos Modernos), elementos de fala, sejam eles diálogos ou meras frases soltas. E é aí que chegamos ao mérito da questão, onde justamente se encontra a maior curiosidade (para mim) da obra: embora tenha renegado esse novo advento do cinema (o som), ele é importantíssimo para a funcionalidade do filme. 

Luzes da Cidade seria, a exemplo de Tempos Modernos (este sim, um produto assumido do inconformismo, tanto na parte moral quanto na cinematográfica - onde Chaplin faz aquela que talvez seja sua maior crítica ao cinema falado, a canção de letra ininteligível que o Vagabundo canta em um cabaré), um elemento de transcrição na filmografia do diretor. Embora não tenha incluído sequer uma linha de diálogo durante toda a metragem da obra, Chaplin utilizara o som como um elemento imprescindível de sua narrativa, uma atitude que demonstrara sua inigualável inteligência. É só lembrar de uma das cenas com maior potencialidade cômica do filme, na qual Carlitos engole um apito, para constatarmos a grande influência dos efeitos sonoros no resultado final da obra.

Ou alguém aí acredita que a seqüência funcionaria caso não ouvíssemos o som estridente do apito enquanto o Vagabundo soluça, precisa se ausentar da glamourosa festa na qual freqüentava e, posteriormente, é atacado por cachorros? Certamente a falta do elemento sonoro desvirtuaria a cena, e tornaria seu significado extremamente dúbio ao espectador, já que é o tal apito que constitui grande parte dela - e não seria um inter-título explicando a cena que concederia graça ao momento sem a presença do som, que é a única característica do tal apito que poderia ser transmitida a quem assiste ao filme. 

Mesmo assim, este não é o único momento da obra no qual Sir Chaplin incluíra passagens sonoras, ou melhor, elementos sonoros em meio à estrutura de filme mudo utilizada por ele para a composição do filme. A começar pela trilha-sonora, composta pelo próprio diretor, que pôde ser incluída diretamente na película e fazer parte de sua narrativa, acrescendo ainda mais em charme romântico a história que, por si só, já é um trabalho de encher os olhos de lágrimas. É uma música belíssima, da qual seus acordes certamente permearão a mente do ouvinte durante um bom tempo. Mas, afora a música, outro bom exemplo é a cena da luta de boxe, onde a campainha de chamada também é simbolizada pelo som - e começa a tocar incessantemente depois que Chaplin tenta ficar abraçado ao seu adversário, ao juiz e a praticamente todos os envolvidos na luta.

Enfim, Luzes da Cidade não apenas é o filme mais comovente de Chaplin (em especial por sua cena final, da qual ainda não havia comentado, mas que é uma das mais deliciosas já filmadas pelo diretor, passando uma sensação de esperança apaixonante e extremamente singular - que faz parte da supracitada visão romantizada da vida, vale dizer), como também uma das fitas mais importantes de sua carreira. Servindo como uma espécie de marco em sua filmografia, já que é a primeira obra feita por ele após o advento do cinema sonorizado e falado, também serve para demonstrar que a insistência de Chaplin em não aderir aos “talkies” não era pura implicância, mas sim uma escolha fundamental na carreira de um dos mais relevantes artistas do século passado, e, por que não, de toda a história. Uma demonstração de inteligência pura que só poderia ser provinda da mente de um gênio como o homem em questão.

Por Daniel Dalpizzolo, em 15/04/2007 Avaliação:                 8.0
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 8.0
• Daniel Dalpizzolo 8.0
• Rodrigo Cunha 9.0
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•  Média (Top Editores #90) 8.5
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Comente no Cineplayers (2)
Por Vinícius Degobbi Corrêa, em 29/10/2014 | 10:48:38 h
Ótima crítica!

Realmente, Luzes da Cidade tem um dos finais mais belo de todos os tempos!
Por Moisés Costa Lins, em 08/04/2013 | 11:21:58 h
Considero Luzes da Cidade a Obra-prima máxima do cinema em todos os tempos. Claro que Chaplin foi o melhor de todos os tempos, mas nesse filme ele superou-se ainda mais. Primeiro ele nos faz rolar de rir e no final cair-mos em pranto com o final feliz mais triste de toda história.
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 FICHA DO FILME

 Luzes da Cidade
(City Lights, 1931)
• Direção:
- Charles Chaplin
• Elenco Principal:
- Charles Chaplin
- Hank Mann
- Al Ernest Garcia
• Sinopse: Vagabundo se apaixona por jovem florista cega, que pensa que ele é milionário por causa de uma pequena confusão. O homem rico é, na verdade, um sofredor prestes a cometer suicídio, salvo por esse mesmo vagabundo. Eles se tornam amigo enquanto o milio...
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