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CRÍTICA

O Baile dos Bombeiros

(Horí, Má Panenko, 1967)
Por Régis Trigo Avaliação:               7.0
O Baile dos Bombeiros foi um dos primeiros sucessos de um grande diretor - Milos Forman.

Era uma vez, na segunda metade dos anos 60, um cinema tcheco. Claramente influenciado pela novelle vague francesa, jovens diretores retratavam na tela o anseio por um pais mais livre, sem a vigilância de um Estado ditatorial. Era a chamada Nova Onde Tcheca. Toda um geração de cineastas veio desta fase: em 1963, Vojtech Jasny lançou o hoje cult Um Dia, Um Gato, vencedor do Prêmio Especial do Juri do Festival de Cannes daquele ano. No ano seguinte, Jan Kadar dirigiu A Pequena Loja da Rua Principal e levou para casa o Oscar de melhor filme estrangeiro. O feito se repetiu em 1967, quando Jiri Menzel realizou Trens Estreitamente Vigiados.

Dentro destes nomes, o mais sucedido foi, sem dúvida, Milos Forman. Ele surgiu justamente nesta época. Sua estréia na direção de longas ocorreu em 1964, com o filme Pedro, o Negro. Forman já demonstrava enorme sensibilidade ao contar a história de um rapaz de classe inferior que trabalhava como vigia de um supermercado, cortejava a moça mais bonita da escola e, ao mesmo tempo, recebia uma educação do pai das mais severas. No ano seguinte, com a comédia amarga Os Amores de uma Loura, passou a ser reconhecido internacionalmente. Seu filme foi indicado aos Oscars de filme estrangeiro. Em 1967, voltou a fazer sucesso com esse O Baile dos Bombeiros, novamente agraciado com uma nomeação ao prêmio da Academia.

Com a tomada da cidade de Praga pelos tanques russos na mais famosa de suas primaveras, lábios foram selados e a liberdade de expressão colocada de lado. Obrigado a optar entre sujeitar-se à censura prévia ou a desligar sua câmera, Forman resolveu enfrentar o desafio de mudar de país, de continente, de língua, de culturas e hábitos. Foi morar na terra do cinema. E como a geografia não represa o talento, o diretor tornou-se um dos mais respeitados da sua geração. Fama esta construída ao longo de 30 anos de serviços prestados em solo ianque e – pasmem! - apenas sete filmes no currículo. Tal e qual Robert Altman e Woody Allen, talvez os maiores ícones da filmografia americana contemporânea em atividade hoje, Forman é referência para outros cineastas em início de carreira e daqueles que fazem com que atores embarquem em seus projetos antes mesmo de ler o roteiro. Não seria exagero afirmar que dois ou três dos maiores filmes americanos dos últimos 30 anos devem ser debitados na conta de Forman.

O Baile dos Bombeiros foi o último filme que Forman realizou antes de embarcar para os EUA e seu primeiro trabalho em cores. Lançado numa época em que a antiga Tchecoslováquia dispunha de pouca ou nenhuma liberdade cultural, o filme teve enorme restrição por parte da censura imposta pelo regime comunista do país. As autoridades observavam na história de um grupo de bombeiros que organizam um baile para presentear o seu comandante mais idoso, uma espécie de retrato dos problemas estruturais pelos quais a Thecoslováquia atravessava. A burocracia (a demora na escolha da rainha do baile), a ineficiência das autoridades públicas (o atraso dos bombeiros para apagar o incêndio no final), a escassez de bens de consumo(os pequenos furtos das prendas cometidos pelos participantes da festa) etc.

De sua parte, Milos Forman sempre negou estas acusações. Na edição americana do DVD, o diretor concede uma entrevista bastante elucidativa, dizendo que a intenção foi apenas realizar uma comédia ligeira,  sem qualquer conotação política. A própria duração da fita – pouco mais de 70 minutos – comprovaria isso. Segundo Forman, a implicância do governo em censurar partes do filme – ou até mesmo o filme inteiro - era a maior prova da estupidez e da insegurança do regime, sempre propenso a se perpetuar no poder e esconder as mazelas da administração através da limitação do direito de expressão dos administrados (mais tarde, como a historia nos contou, a queda de um certo muro, localizado numa certa cidade alemã, trouxe à tona os profundos problemas econômicos dos países comunistas do leste europeu).

Hummm. Comédia ligeira? Mero passatempo? Difícil acreditar. Basta observar o conjunto da obra de Forman, e nela vamos perceber a presença constante da temática política. Logo na sua estréia, no já citado Pedro, o Negro, o garoto Peter sofre com a educação quase que militar do pai. Sua expressão de passividade, sua subserviência enquanto o patriarca desfila suas lições de moral, são emblemáticas. Ainda que de forma sutil, o diretor usa a instituição familiar (pais versus filhos) para construir com eficiência a metáfora da relação dos cidadãos tchecos com o estado autoritário. Anos depois, já em solo americano, ao adaptar o livro de Ken Kesey, Um Estranho no Ninho, talvez seu filme mais famoso, Forman troca o ambiente familiar pelo hospitalar, e mantêm-se fiel à sua temática: a dominação do particular pelas instituições. A enfermeira vivida por Louise Fletcher é, antes de um personagem, um símbolo. Ainda nos anos 70, Forman trouxe para as telas sua versão de Hair, cujo conteúdo político é a própria essência do filme. Na década de 80, com Na Época do Ragtime, adaptado da obra de Doctorow, o cineasta toca na ferida do racismo e, como não podia deixar de ser, investiga a dominação do negro por um estado dominado por brancos. Mais recentemente, em O Povo Contra Larry Flynt, Forman volta suas atenções novamente (e dessa vez de forma mais explícita) à relação do indivíduo e o estado. Para tanto, foi buscar seu cenário perfeito no mundo da pornografia e na luta obstinada que o editor da revista Hustler empreende contra as autoridades americanas que teimam em proibir a divulgação do seu material.

Diante destas evidências, parece difícil negar que O Baile dos Bombeiros tem intenções mais ambiciosas do que ser uma simples comédia passageira. Na verdade, Forman utiliza-se de um expediente comum aos cineastas de países com forte repressão política. Para driblar a censura, os artistas valiam-se das simbologias e metáforas para discutir os temas que realmente importavam. Na época franquista, por exemplo, Carlos Saura cansou de fazer filmes alegóricos (Ana e os Lobos, Cria Cuervos, A Prima Angélica, etc.), em que os personagens não representavam pessoas propriamente ditas, mas sim as instituições oficiais, como o exército, a igreja e a família. No Brasil mesmo, durante a ditadura militar, cineastas como Glauber Rocha, Cacá Diegues e Arnaldo Jabor faziam das tripas coração para que os censores não percebessem as mensagens decodificadas. Por vezes, como por exemplo em Barravento (1962), de Glauber Rocha, o roteiro era tão alegórico, que os espectadores saiam do cinema sem entender onde estava o começo, o meio e o fim.

Talvez para o público de hoje, do pós-Muro de Berlim, seja difícil captar o impacto da obra na Tchecoslováquia e a reação das autoridades às mensagens veladas. Mas o lado mais irônico de tudo isso é que, mesmo abstraindo as entrelinhas políticas (ou até mesmo para quem não as perceba), O Baile dos Bombeiros funciona. A ambientação, os atores não profissionais, a escolha de pessoas não propriamente bonitas (ao contrário do padrão, as meninas escolhidas para o concurso de rainha do baile estão a anos luz do protótipo de beleza), a espontaneidade, o humor por vezes ingênuo, enfim, tudo colabora para sentirmos a veracidade daquela história. O plot é simples: os bombeiros de um vilarejo decidem dar um presente ao chefe da corporação, já com seus 86 anos e devidamente aposentado. Decidem oferecer ao velhinho um machado em miniatura dentro de um estojo luxuosamente embalado. A entrega caberá à rainha do baile, escolhida durante a festa, dentre as moças ali presentes. Uma série de incidentes ocorrem no transcurso do evento, todos deles tratados com humor e muita sensibilidade. Ao final, um incêndio numa cabana de um morador da região fará com que os bombeiros abandonem seu baile e assumam suas funções.

Os mais acostumados à carreira americana de Forman, construída à base de filmes mais imponentes, mais longos, mas não por isso menos profundos ou de menor qualidade (pelo contrário, como não gostar de Amadeus?), é curioso assistir, com os olhos de hoje a O Baile do Bombeiros. Uma fita que o diretor consegue aliar humor, sensibilidade, simplicidade e sutileza, sem perder de vista seus temas mais caros, sua coerência artística.

Não deixem de conhecer este O Baile dos Bombeiros.

Por Régis Trigo, em 15/03/2006
Avaliação:               7.0
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Por Silvia Lima, em 28/09/2013 | 02:17:56 h
Adorei o filme. Toda aquela ingenuidade.. senhores de respeitos envolvidos como comadres em prosaicas discussões. Ri muito.
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 FICHA DO FILME

 Baile dos Bombeiros, O
(Horí, Má Panenko, 1967)
• Direção:
- Milos Forman
• Elenco Principal:
- Jan Vostrcil
- Frantisek Debelka
- Josef Sebánek
• Sinopse: O Corpo de Bombeiros de uma pequena cidade está tendo uma grande celebração, quando um ex-chefe do departamento comemora seu aniversário. As coisas acabam não saindo como o planejado: há um ladrão entre os convidados e o concurso de "Miss Corpo de Bo...
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