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CRÍTICA

O Discreto Charme da Burguesia

(Charme discret de la bourgeoisie, Le, 1972)
Por Heitor Romero Avaliação:                   9.5
Cinema, jantares e travessuras.

A burguesia foi um dos maiores alvos de críticas por parte de muitos cineastas, em especial europeus, por ser composta normalmente pelos tipos mais mesquinhos, egoístas e interesseiros da sociedade (entre outras características mais indigestas). Donos de uma fortuna descendida da vergonha, de uma educação duvidosa e de um requinte inegável, sua função é basicamente ostentar algo do qual não é digna. Talvez decididos a expor isso ao mesmo tempo em que mostravam ao mundo sua indignação com tamanha futilidade, diretores como Godard e Antonioni focaram boa parte de suas respectivas obras em desmoralizá-la. No entanto, foi o espanhol Buñuel e seu senso de humor ácido que encontrou na comédia e na fantasia uma maneira de atingir a burguesia através de um caminho alternativo e um tanto mais perigoso - a humilhação.

Para entendermos como Buñuel realizou a tal façanha, temos que começar pelo jantar. Qual jantar? Aquele tão planejado por seis amigos burgueses que não tem absolutamente nada de melhor para planejar. Eles estão sempre a combinar, mas parece que nunca conseguem concretizar o evento da maneira esperada, sendo sempre interrompidos por situações absurdas que insistem em acabar com aquilo. Mas eles não são de desistir, até porque isso seria abdicar de toda a “emoção” de suas vidas, então o enredo deste filme é basicamente composto por uma série de tentativas frustradas de realizar uma refeição entre companheiros entediados.

A tática de Buñuel aqui é manipular tanto seus personagens quanto seu público, com um argumento um tanto apalermado. Desde o começo, ele nos vende essa idéia de que o tal jantar é o foco de tudo e que precisamos torcer por ele, por mais idiota que essa situação seja tanto para nós quanto para o filme. Isso porque não há um objetivo oculto por trás da refeição, nem um significado nas entrelinhas; é apenas um jantar mesmo, no pleno sentido descrito nos dicionários.

Começa então o joguinho aparentemente sem rumo do diretor, que se revelará no fim de tudo um belo tapa na cara da sociedade. Ele brinca com nossa percepção ao interromper a linearidade da trama com algum personagem acordando assustado, dando a entender de que tudo que vimos até então é apenas um sonho esquisito. Em seguida, ele começa tudo do zero e introduz de novo uma história simples de amigos combinando de jantar, para novamente serem interrompidos por fatores além da compreensão e paciência de qualquer um.

Personagens propositalmente carentes de profundidade guiam essa maluquice com muito humor e charme. Aliás, o charme de todos eles diante dessa enxurrada de devaneios é o que chama mais atenção. Enquanto nós ficamos perplexos diante de tamanha loucura, os amigos burgueses parecem não se impressionar com nada. Aparecem soldados traumatizados, policiais corruptos, padres assassinos (uma discreta prensada na Igreja), lendas fantasmagóricas, entre outras aberrações, para tirá-los da monotonia, mas nenhum consegue. O objetivo deles é o jantar e nada mais importa; a vida deles se resume nisso.

A falta de objetivo de todo esse filme representa bem a falta de sentido na vida dos seis amigos, que apesar de usarem drogas, adulterarem, matarem e assim por diante, parecem nunca estar satisfeitos. Eles são blasé - preconceituosos com os pobres, passam por cima de leis, subornam autoridades e traficam drogas de maneira sempre metódica e impessoal. No fim, a única coisa que mexe com eles é o acordar dos sonhos, momento de “fraqueza” em que se mostram assustados.

Os recursos para manter a narrativa interessante são muitos. Primeiramente, Buñuel escolheu a comédia como gênero principal, fazendo engraçadas todas as situações absurdas que permeiam a trama. Depois, ele nunca abusa do onírico em sua temática de sonhos, já que isso poderia causar ainda mais confusão na mente dos espectadores, e fugiria da sua intenção de fazer tudo parecer concreto e verossímil. Ele nos faz acreditar em situações improváveis para depois nos fazer cair na real, como se estivéssemos acordando do sonho junto com os personagens. Apesar de isso ir se repetindo diversas vezes, parece que ele sempre consegue nos pegar e, de repente, estamos pensando numa lógica para tudo aquilo – até que ponto foi real e a partir de que momento começou a se desenrolar um sonho. Resta juntar as peças do quebra-cabeça e torcer pelo bendito (ou maldito?) jantar acontecer.

O que une todas as tentativas dos personagens em fazer uma simples refeição é uma imagem que se repete entre as situações, de todos andando em uma estrada rumo ao nada. Eles caminham um ao lado do outro olhando fixamente para frente, batendo os pés e nunca chegando a lugar algum. De certa forma, se encontra aí a grande “moral da história”, expondo o vazio existencial de cada um deles. Por outro lado, não passa também de um recurso narrativo bem cuidadoso e focado em dar um belo nó na nossa cabeça.

Mesmo com o ácido insulto à burguesia escondido por trás de toda a brincadeira, não tem como encarar este trabalho como um filme pesado. Diferente de O Anjo Exterminador (El Ángel exterminador, 1962), uma produção também crítica e surreal, esta obra é um bem humorado ensaio sobre o tema. Isso impede que tudo se torne cansativo e enfadonho, se levada em conta a irregularidade da narração. Podemos definir então como sendo uma travessura de Buñuel, que manipula seus espectadores com tamanha habilidade ao nos vender esse conceito do jantar inútil como algo catártico. Nota-se a diversão dele em criticar os burgueses ao mesmo tempo em que brinca com nosso senso de realidade. Afinal, depois do término da seção, sobra uma sensação um tanto estranha de ouvir ecoando pelo ambiente uma risadinha sapeca e provocativa do cineasta, como uma criança maldosa que sabe ridicularizar na mesma medida que se diverte com sua vítima.

Por Heitor Romero, em 21/09/2011
Avaliação:                   9.5
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 8.0
• Daniel Dalpizzolo 9.0
• Régis Trigo 8.0
• Vlademir Lazo 9.0
• Heitor Romero 9.5
• Marcelo Leme 8.0
• Léo Félix 6.5
• Francisco Bandeira 10.0
• Felipe Leal 8.5
•  Média 8.5
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8.4/10 (355 votos)
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Comente no Cineplayers (11)
Por Taumaturgo Moura da Silva Teixeira, em 15/08/2017 | 00:54:09 h
Bela crítica Heitor, e imaginar o quanto enrolei para assistir esse Filmaço do Bunuel. a sensação que tive depois de velo foi como ter levado um Soco na Boca do Estomago.
Por Jairo Simões, em 26/10/2015 | 09:51:07 h
Ótimo texto, Heitor! Contribuiu para ampliar minha visão sobre o filme. Parabéns!
Por Jairo Simões, em 26/10/2015 | 09:49:26 h
Assisti ontem e gostei bastante! Achei fantástico a crítica a religiosidade hipócrita das pessoas colocando o padre como jardineiro... Mostrando que muitas pessoas usam a religião apenas para dar uma de bonzinho para os outros, mas no fundo são podres, pecadores como qualquer um. O jardim representa a visão externa das pessoas, assim como é a visão externa da casa. Uma casa que tem um jardim bem cuidado passa um boa impressão.
Por Francisco Bandeira, em 08/12/2013 | 00:57:31 h
Filmaço, OP incontestável
Por Renan Fernandes, em 08/12/2013 | 00:43:19 h
Amo Buñuel e seu surrealismo
Por Patrick Corrêa , em 22/09/2011 | 16:11:44 h
Ótimo texto!
Heitor, como sempre, em grande forma.
Por Adriano Augusto dos Santos, em 22/09/2011 | 09:03:54 h
Grande crítica.Divertida como o filme e o engrandecendo.
Essa é 5 estrelas.
Por Heitor Romero , em 21/09/2011 | 20:08:59 h
obrigado Bruno e Douglas *_*
Por Bruno Kühl, em 21/09/2011 | 13:35:22 h
Vi esses dias... Maravilhoso filme!
É uma daquelas experiências que melhoram cada vez que forem revisitadas.
E o texto está muito bom, um dos seus melhores Heitor
Por Dave Campos, em 21/09/2011 | 12:31:11 h
Obra-prima.
Por Douglas Rodrigues de Oliveira, em 21/09/2011 | 12:26:14 h
Ótima crítica, uma crítica completa e construtiva! O filme é um dos melhores do Buñuel!
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 FICHA DO FILME

 Discreto Charme da Burguesia, O
(Charme discret de la bourgeoisie, Le, 1972)
• Direção:
- Luis Buñuel
• Elenco Principal:
- Fernando Rey
- Julien Bertheau
- Paul Frankeur
• Sinopse: Em mais uma de suas travessuras surrealistas extremamante críticas, o espanhol Luis Buñuel conta a história de seis burgueses que se reúnem para um jantar, mas que, devido a estranhos acontecimentos, são impedidos.
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