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CRÍTICA

O Senhor das Armas

(Lord of War, 2005)
Por Silvio Pilau Avaliação:                 8.0
Um filme elucidativo sobre um tema que está trazendo cada vez mais caos a nosso mundo.

Andrew Niccol é um cineasta que merece muito mais atenção do vem recebendo. Roteirista extremamente talentoso, ele não se limita a criar tramas originais com personagens bem construídos. Mais do que isso, Niccol é corajoso: basta assistir a filmes como O Show de Truman, Gattaca – Experiência Genética e até S1m0ne para verificar que ele não se acovarda diante de discussões sobre temas de alta relevância no mundo atual.

Eis que chegamos ao seu último trabalho, O Senhor das Armas. Dessa vez, Niccol conta a história da vida de Yuri Orlov, um ucraniano que imigra para os EUA com toda a família. Após presenciar um assassinato, ele decide ingressar no mundo de venda de armas. Em poucos anos, torna-se um dos maiores traficantes do planeta e, enquanto tenta escapar dos policiais que o perseguem, deve evitar que suas atividades influenciem sua família.

Supostamente baseado em fatos reais (Niccol afirmou que Yuri Orlov é um amálgama de cinco traficantes existentes), O Senhor das Armas começa de maneira magistral. Parado sobre milhares de cartuchos usados, o personagem de Nicolas Cage dispara algumas frases que já deixam clara a moralidade de seu personagem: “Existem mais de 550 milhões de armas de fogo em circulação no mundo. É uma para cada doze pessoas no planeta. A única pergunta é: como armar as outras 11?”

Em seguida, o espectador é apresentado a uma das melhores seqüências de créditos de abertura nos últimos anos. Andrew Niccol acompanha toda a trajetória de “vida” de uma bala, desde a sua fabricação até o seu destino final na cabeça de uma criança em algum país de terceiro mundo. É um momento brilhante e forte, tanto visual quanto conceitualmente.

Se em seus trabalhos anteriores Niccol havia se demonstrado melhor roteirista do que diretor, em O Senhor dos Armas o realizador consegue atingir um equilíbrio entre as duas funções. Não obstante alguns problemas, que explicitarei mais adiante, o roteiro é inteligente o bastante para evitar as soluções fáceis e não resvalar em clichês.

O ponto alto da trama é a forma como ele disseca o mundo do tráfico de armas. Muito mais do que um projeto com carga dramática, a força de O Senhor das Armas vem do fato de ser altamente elucidativo a respeito de um assunto sobre o qual o espectador pouco sabe. Além de mostrar a mecânica do tráfico, o roteiro é ousado para criticar as relações de poder entre os países, inclusive com a hipocrisia que as domina. A conversa final entre o personagem de Nicolas Cage e o policial interpretado por Ethan Hawke é emblemática nesse sentido, com o traficante acabando com qualquer ilusão que seu perseguidor tinha a respeito de justiça.

Niccol também merece destaque como roteirista por não julgar o seu protagonista. Evitando o previsível arco dramático de fazer o personagem passar por uma redenção ao final, o cineasta opta por não apresentá-lo como mocinho ou como vilão, deixando esta decisão para o espectador. Isso engrandece a obra, uma vez que foge do melodrama e aumenta a verossimilhança da trama.

O aspecto moral de Yuri Orlov, aliás, leva a outro ponto exemplar de O Senhor das Armas: os diálogos. Os momentos nos quais o personagem tenta justificar suas ações contêm frases de pura sagacidade de Niccol, como quando Yuri afirma que cigarro e carros matam muito mais pessoas do que armas. Mas o roteiro ainda oferece diversas outras pérolas, por exemplo, o momento no qual o traficante interpretado por Ian Holm diz: “É mais garantido mudar governos com balas do que com votos”.

E já que falei da amoralidade do protagonista, é necessário destacar também que a escolha do intérprete de Yuri Orlov não poderia ter sido mais acertada. Além de ser um ator talentoso, Nicolas Cage possui uma imagem extremamente benévola com o público. Este fato é fundamental para que o espectador não sinta repulsa pelo personagem, o que seria fatal para O Senhor das Armas.

O roteiro, no entanto, não é feito só de acertos. Talvez para condensar a história em apenas duas horas, a trajetória de Yuri é prejudicada por certos “pulos”. Senti falta, por exemplo, de mais detalhes sobre o início de sua carreira, especialmente na forma de como ele foi fazendo seus contatos. Se Niccol tivesse optado por começar sua trama quando o personagem já tivesse estabelecido na atividade, isso não seria problema. No entanto, como a intenção foi mostrar a jornada desde o início, estas lacunas acabam deixando questões sem respostas na mente do espectador.

Da mesma forma, a história também enfraquece na abordagem da relação entre Yuri e sua família. Apesar de Bridget Moynahan ser linda, falta-lhe química com Cage, além de ser frustrante ver um roteiro tão corajoso apelar para cenas que caem no lugar-comum quando a esposa e o filho de Yuri entram em cena. Isso sem contar a inexplicável revolta da personagem de Moynahan quando descobre sobre as atividades do marido, uma vez que ela mesma havia demonstrado saber que ele estava envolvido em alguma atividade ilegal.

Como já havia afirmado antes, a direção de Niccol é outro destaque de O Senhor das Armas. O cineasta imprime grande energia ao filme, não deixando o ritmo cair em momento algum. Ainda que o roteiro sofra com algumas falhas (já citadas), a produção mantém o dinamismo, fluindo de uma cena a outra se grandes percalços. Um dos exemplos do bom trabalho de Niccol, além da cena dos créditos de abertura, são as seqüências que envolvem os confrontos entre Yuri e Valentine, sempre ágeis e com ótimos diálogos, estabelecendo um interessante antagonismo entre os dois personagens.

Outro fato a ser ressaltado é o tom descontraído com o qual Niccol conta o filme. Ainda que esteja longe de ser uma comédia, O Senhor das Armas tem momentos de cinismo e ironia que poderiam classificá-lo como uma espécie de sátira (como quando Yuri diz que nunca vendeu a Osama Bin Laden porque seus cheques sempre voltavam). Essa opção pela leveza resulta em uma dualidade que traz certa estranheza ao filme, pois, ao mesmo tempo em que torna a obra mais agradável de assistir, acaba amenizando o impacto que essa história poderia ter.

No geral, O Senhor das Armas é um filme acima da média. Possui dois diferenciais: coragem e inteligência. Se já é difícil encontrar um deles na grande maioria do que sai de Hollywood hoje, é ainda mais raro achar essas duas características juntas na mesma obra. E só o fato de fazer o espectador pensar sobre um assunto tão importante já é um excelente motivo para assistir a este último trabalho de Andrew Niccol.

"Sabe quem vai herdar o mundo? Os traficantes de armas. Porque todo mundo está muito ocupado matando uns aos outros."
Yuri Orlov

Por Silvio Pilau, em 21/04/2006 Avaliação:                 8.0
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• Daniel Dalpizzolo 6.0
• Rodrigo Cunha 6.0
• Régis Trigo 6.5
• Silvio Pilau 8.0
•  Média 6.5
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Comente no Cineplayers (4)
Por Walter Prado, em 22/11/2013 | 14:56:35 h
"Esse filme prova que Cage ainda tem salvação."

É, só que este filme já tem 8 anos...
Por Cristian Oliveira Bruno, em 22/11/2013 | 14:23:30 h
Esse filme prova que Cage ainda tem salvação. O cara sabe interpretar, mas escolhe mal seus projetos e acaba caindo naquela cara de paspalho que ele faz. A abertura do filme é sensacional!!!
Por Rosana de Almeida Machado, em 14/04/2013 | 21:25:12 h
Excelente critica...
Por Jairo Simões, em 07/11/2011 | 13:08:17 h
Boa crítica a um filme que recebe muito menos atenção do que deveria, não só pelo tema discutido, mas também por ser um ótimo filme! Um dos poucos do Mr. Cage que dá para assistir...
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 FICHA DO FILME

 Senhor das Armas, O
(Lord of War, 2005)
• Direção:
- Andrew Niccol
• Elenco Principal:
- Jared Leto
- Ian Holm
- Donald Sutherland
• Sinopse: Yuri Orlov (Nicolas Cage) é membro das Nações Unidas, mas atinge o auge da sua carreira vendendo armas. Apesar do "sucesso", Yuri coloca em risco sua família por causa de seus atos.
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