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Críticas

Cineplayers

O longa-metragem de estreia de Esmir Filho é o retrato de uma geração.

7,5

É um tanto sintomático que a música-tema do longa-metragem de estreia de Esmir Filho seja “Mr. Tambourine Man”, de Bob Dylan. Utilizada para pontuar a ligação que o protagonista tem com o cantor, ela se encontra na fase inicial da carreira do cantor, um pouco antes de seu amadurecimento artístico. Assim também se encontra o protagonista do longa, ainda procurando uma direção em sua vida, e a própria carreira do cineasta, que apesar de já aperfeiçoar a parte técnica de seu ofício, ainda lhe falta uma maturidade para desenvolver melhor o rumo de sua história, além das motivações das personagens.

O filme segue criteriosamente o estilo de seus curtas, e se foca numa geração muito específica de pré-adolescência. A trama gira em torno de um protagonista cujo nome não conhecemos, estudante do ensino médio, que mora em uma cidade bem pequena do interior gaúcho, de colonização alemã. Preso entre amigos com quem vaga pelas ruas, e toda a imensidão da internet - em seus blogs, YouTubes, MSN's e afins - o jovem tenta encontrar uma válvula de escape.

O filme segue por este caminho de tentar mostrar esse mundo desorientado dos jovens da região. A maioria dos planos são realizados lateralmente ou de costas, preferindo os frontais geralmente nas externas, que são poucas, causando um maior deslocamento das personagens com o mundo em que vivem. O protagonista passa o filme inteiro querendo ir no show do Bob Dylan, mas é longe de sua cidade, e já temos uma certeza que ele não vai conseguir atingir seu objetivo, ao menos não no filme.

No fim, fica claro que o tema principal do filme são as memórias, de todas as formas: Aquelas que criamos baseados em histórias que aconteceram, aquelas que imaginamos, ou as que ainda estão em processo de formação. Uma cena marcante é a em que a câmera fixa focaliza o protagonista e a mãe sentados nas beiradas do sofá, e ela diz que prefere manter a casa como está para que os supostos netos dela (“um dia serei avó”) vejam aonde o rapaz cresceu. “Quando seu tempo passar, tu vai ver que teu tempo foi aqui”, ao que ele nega. Mas ali está uma personagem que, por mais que queira sair daquela vida, ainda é muito presa a ela, e não conseguiria se desvencilhar ainda. Por mais que ele queira sair daquele ambiente, e de certa maneira a internet já o ajuda, ele continua preso àquela rede real.

Essa é uma maneira de explicar a atenção demasiada que Esmir tem com a festa junina, na sequência final do filme. Enquanto vemos toda a trajetória do protagonista durante o clímax de sua história, temos também longos planos das danças dos habitantes da cidade ao som de músicas típicas alemães. A princípio, as duas seriam cenas muito opostas (e o são na maneira em que Esmir as registra) mas elas se conectam no fato de que aquela festa nada é mais do que a celebração de feitos antigos, e retrato de uma tradição já estabelecida.

Ainda por este campo, também é quase uma cena-chave aquela em que o menino vai visitar os avôs na casa da fazenda. Quando a avó toda afetuosa e amorosa saiu pra buscar pão, ficam um de frente para o outro, neto e avô, alemão que praticamente não fala português. Dois homens de gerações muito distintas, tendo problemas de identidade e de expressão, mostrando como apesar de terem décadas a parte, sofrem de medos e de tiques similares, preferindo muitas vezes pertencer ao próprio mundo do que ao mundo exterior.

E o refúgio desta geração mais recente é, obviamente, a internet. A única maneira de identificar o nome do protagonista é, inclusive, pela rede, com seu apelido de “Mr. Tambourine Man”. O fato de não conhecermos seu nome, apesar de tentar ser uma demonstração do quanto nossa identidade atual está ligada com a internet tanto quanto ou mais até do que na vida real, se mostra na verdade como uma metáfora mal feita para mostrar que o protagonista é um adolescente como todos no Brasil, assim como seu interlocutor na internet tem o nick de “E.F.” – “Esmir Filho”, que inclusive tem uma das frases de maior efeito no filme, apesar de não escapar do clichê: “Longe é o lugar que a gente vive de verdade”. Em tempos modernos ganha triplo sentido: Além dos tradicionais (literal e sonhador), hoje as redes sociais fazem com que tenhamos uma intimidade imensa com pessoas que nunca conhecemos pessoalmente, ou mesmo passamos mais tempo conversando mais tempo na internet do que ao vivo com amigos que moram no mesmo bairro.

É para o mundo virtual que o protagonista se veste com seu nick e vai para ficar se lembrando de sua melhor amiga (o filme nunca explicita a relação que eles tinham), que não aguentou tanta indefinição no modo de viver, e acabou pulando na ponte local. É da internet também que saem as inspirações pra quando o protagonista se masturba. E é onde ele passa as madrugadas. Mas em alguns momentos, tem a obrigação e a necessidade de se desconectar e voltar ao “mundo real”, como na cena em que ele se aproxima da mãe.

Mas a amiga não é a única que usou a ponte da cidade para por fim em sua vida. O filme é inteiramente melancólico, e apresenta um retrato de personagens bem diferente daquele mostrado em Verdes Anos, de Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil, apesar de partir da mesma premissa - alguns dias um grupo de adolescentes do interior gaucho. No filme recente, são jovens com muito mais experiências (devido ao intercâmbio diário na internet), e justamente por isso mais complicados, sem direção, sem ilusão quanto às cidades grandes. Os finais deixam isso claro: enquanto no primeiro filme é de certa maneira uma pancada, neste aqui tudo fica muito mais aberto, sem o “domingo de manhã” para tentar pôr um fim às coisas, mesmo que este nem sempre seja o fim que desejamos.

Aí está o real problema do filme, aliás: Nada contra finais em aberto, ou filmes com maior margem de subjetividade, mas tudo parece um grande rascunho perfeito que não soube encontrar, pelo diretor, uma forma ideal. A personagem da amiga não é desenvolvida, e aparece em situações em que não precisava, como na sequência decisiva, além desta também ter uma conclusão muito fraca quanto aos protagonistas, e não por ser justamente inconclusiva, mas por apresentar poucos argumentos convincentes para que possamos montar em nossas cabeças o que de fato aconteceu.

O longa transita constantemente na questão de real e imaginário, o que acontece em nosso interior e em nosso exterior. Por vezes, parte para comparações um tanto ultrapassadas em variantes desta pergunta, como se sempre duvidamos do quanto da vida virtual é real, devemos duvidar também do quanto da vida real não é uma fachada. Mas apesar de sempre esbarrar em clichês já esperados, ele acaba se saindo com um vigor impressionante, mesmo que muito provavelmente soe forçado e datado e apenas cative um grupo muito fechado de pessoas. Para quem conseguir viajar com o filme, porém, é um belo filme saudosista e melancólico.

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