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CRÍTICA

Ser ou Não Ser

(To Be or Not to Be, 1942)
Por Heitor Romero Avaliação:                 8.5
A arte como meio de resistência.
imagem de Ser ou Não Ser
O clássico personagem de Shakespeare, Hamlet, ainda está sofrendo o luto da morte quando fantasma de seu pai lhe aparece revelando a identidade de seu assassino, para o espanto do protagonista, que não consegue acreditar na gravidade da acusação. Depois de muito analisar a situação que tinha em mãos, Hamlet decide usar da farsa para descobrir se seu irmão Claudio realmente teve a crueldade e ambição de assassinar o pai e promove uma peça teatral que remonta indiretamente todos os acontecimentos narrados pelo fantasma. Diante da reação de mal estar e horror arrancada de Claudio durante a cena do assassinato recriada no teatro, Hamlet se livra das dúvidas e passa a ter certeza de que o fantasma de seu pai havia lhe dito toda a verdade, decidindo se passar por louco para concluir seu plano de vingança. De tão empenhado em sua obsessiva empreitada, o próprio personagem acaba se perdendo em suas convicções e no papel que escolheu desempenhar, o que culmina no famoso monólogo do “ser ou não ser”. 

Ora, a divertida comédia de espionagem de Ernst Lubitsch recebe o mesmo nome do monólogo – Ser ou Não Ser (To Be or Not to Be, 1942) –, mas não simples pelo fato de seus personagens fazerem parte de uma trupe de teatro polonesa que encena a famosa peça de Shakespeare, e sim pela questão da farsa e da arte usada como forma de desvendar a verdade, combater a opressão e vingar os injustiçados. Na Varsóvia de 1939, às vésperas do estouro da Segunda Guerra Mundial, esse grupo se atores se prepara para sair de cartaz com Hamlet e iniciar a peça intitulada “Gestapo”, na qual desempenham papéis de oficiais nazistas em uma intriga internacional. Mas na deliciosa lógica de Lubitsch, não há barreiras entre realidade e ficção e em questão de tempo o diretor estreita o laço entre as duas de tal forma que uma passa a emendar na outra ou mesmo se misturar. Logo, esse mesmo grupo se vê diante de um real conflito político com a chegada de um professor espião nazista que visa entregar para a Gestapo uma lista com todos os nomes dos aliados na Polônia. 

Temos diante desse plot uma situação em que a tragédia real alimenta o nascer de uma comédia, quando a arte nasce espontaneamente a partir de uma necessidade. Os atores que antes encenavam por uma mera questão de profissão, vaidade, glamour e fama, de repente se veem no desespero de assumirem os papéis mais importantes que poderiam desempenhar para salvar não somente as próprias vidas como também o destino de seu país. Alemão que veio tentar a vida em Hollywood, Lubitsch entendia muito bem desse impasse, tendo sido obrigado a largar sua terra natal em busca da oportunidade de combater através de sua arte e talento a terrível sombra que se estendia por sua terra natal, assim como tantos outros diretores europeus tais como Fritz Lang, Billy Wilder e F.W. Murnau. 

O mais engraçado e ao mesmo tempo tocante é a sensibilidade com que o diretor extrai das situações cômicas que se seguem quase ininterruptamente um pouco do medo, caos e mágoa que assolavam os países atingidos pela guerra, lembrando que o filme foi rodado em meio ao conflito. Seguindo os passos de Charles Chaplin, que dizia que a vida de perto é uma tragédia e de longe uma comédia (e que também havia satirizado o nazismo através de seu icônico O Grande Ditador [The Great Dictator, 1940]), Lubitsch teve a garra de defender seu povo e bater de frente com os ideais nazistas ainda vigentes em boa parte da Europa ocupada. Ele reescrevia a História de acordo com sua óptica otimista onde a arte prevalece sobre a vida em meio a um ciclo confuso em que uma se emenda na outra. 

E nessa de brincar com arte que imita vida que imita a arte, o diretor desenvolve sacadas excepcionais por diversas vezes reencenar com seu elenco as mesmas cenas. Porém, para cada nova encenação, cada ator assume um papel diferente do anterior, como quando Jack Benny se passa por um Coronel nazista para tirar informações do professor espião, para mais tarde ser obrigado pelas circunstâncias a assumir a identidade do próprio professor a fim de poder escapar das garras do Coronel verdadeiro. O jogo de cenas espelhadas uma na outra é tão ágil e sagaz que muitas vezes mal temos tempo de assimilar a tristeza que fomenta toda a comédia maluca de Lubitsch, como quando os estabelecimentos comerciais de Varsóvia aparecem depredados e destruídos pela Guerra depois de terem sido apresentados na abertura do filme com tanto carinho e ternura pelo narrador. 

A questão principal, tal qual a de Hamlet, é a da farsa, que de tão necessária se torna mais convincente, e que de tão convincente supera a própria realidade, ideia simbolicamente representada na cena da morte real do professor nazista anunciada e emoldurada por um teatral abrir de cortinas, ou na abertura em que a cidade de Varsóvia fica em polvorosa ao confundir um ator caracterizado como Hilter com o verdadeiro ditador. E a farsa que se torna convincente a ponto de confundir o próprio farsante é um tema recorrente na filmografia de Lubitsch, que fez parecido em Ladrão de Alcova (Trouble in Paradise, 1932), Ninotchka (idem, 1939) e A Loja da Esquina (The Shop Around the Corner, 1940), entre outros. Também foi um tema deixado de herança para seu pupilo Billy Wilder, que erigiu a grande maioria de seus filmes em torno do plot de um personagem fingindo ser outra pessoa para escapar de um perigo, ou conquistar um amor ou subir na vida, a exemplo de Amor na Tarde (Love in the Afternoon, 1957), Quando Mais Quente Melhor (Some Like it Hot, 1959), Cupido Não Tem Bandeira (One, Two, Three, 1961) e Irma La Douce (idem, 1963). Quentin Tarantino também bebeu muito dessa fonte em seu Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), no qual também vingou-se do nazismo por rebaixá-lo, satirizá-lo e literalmente metralhá-lo.  

Claro que a ideia do poder da arte em combater os problemas mais sérios é bastante romântica e por vezes absurda, mas possui em si o conceito mais forte possível do alcance da obra de um artista e do quanto o mundo pode ser transformado por ela ou o quanto ela pode transcender o mero entretenimento e contemplação para se mostrar uma ferramenta de resistência ideológica ou de insubordinação política. À sua maneira, Lubitsch fazia da arte o maior escudo e a maior lança, deixando um legado sem igual no cinema. 

Ser Ou Não Ser foi lançado no Brasil este ano em edição especial de DVD pela Obras-Primas do Cinema, uma chance rara de ter em casa uma das maiores comédias de todos os tempos. Nos extras, um documentário de quase uma hora sobre a carreira de Ernst Lubitsch, além de um curta inédito dirigido por ele em 1916.

Por Heitor Romero, em 14/04/2017
Avaliação:                 8.5
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 8.0
• Régis Trigo 8.0
• Vlademir Lazo 9.0
• Heitor Romero 8.5
• Bernardo D.I. Brum 9.0
• Francisco Bandeira 8.5
•  Média 8.5
Notas - Usuários
8.6/10 (55 votos)
Minha nota:
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Comente no Cineplayers (1)
Por DEMETRIO ISLAUSKAS DEMOSTENES IVANOFF, em 15/04/2017 | 12:05:26 h
Boa crítica filho, mas com um erro imperdoável. Tarantino em seu Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009) não se vingou do Nazismo, tampouco o rebaixou , satirizou ou o metralhou. Aquele bastardozinho ianque o aperfeiçoou na composição dos bastardos. Um doente perigoso capaz de iludir o público e até pessoas esclarecidas como o jovem editor. Os maus são ousados, pois mostram claramente suas intenções diante de um público que ainda o enaltece. Isso me deixa encalistrado.
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 FICHA DO FILME

 Ser ou Não Ser
(To Be or Not to Be, 1942)
• Direção:
- Ernst Lubitsch
• Elenco Principal:
- Carole Lombard
- Jack Benny
- Robert Stack
• Sinopse: Durante a Segunda Guerra Mundial, na Polônia ocupada pelos nazistas, um grupo de atores de teatro deve ajudar a evitar que um espião, que possui informação sobre a resistência polonesa, entregue-a aos alemães.
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• A Loja da Esquina
• Amor na Tarde
• Bastardos Inglórios
• Cupido Não Tem Bandeira
• Irma La Douce
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