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CRÍTICA

Sociedade dos Poetas Mortos

(Dead Poets Society, 1989)
Por Helena Novais Avaliação:                   9.5
Ao lembrar que ideias e ideais são potências que o tempo não mata, Peter Weir mostra a força dos anseios das almas de todos os tempos.

Enredados em suas próprias emoções, pressionados pelas circunstâncias sociais e aspirando à eternidade, os homens constroem a história e deixam seus brados registrados no tempo, ao transformar em poesia seus próprios anseios. Peter Weir, passando da escrita para o cinema, é um notório contador de histórias a serviço da desconstrução do senso comum. Ao imprimir doses nem tão sutis de lirismo épico/existencialista em cada um de seus filmes, Weir não deixa de ser, ele próprio, um poeta.

Em Sociedade dos Poetas Mortos (1989), com base no argumento roteirizado por Tom Schulman, Weir narra a história de John Keating (Robin Williams) e seus alunos. Em 1959, Keating é o ex-aluno da Welton Academy que retorna à instituição, então como o professor de Literatura destinado a substituir outro que se aposenta. Bem conceituada, exigente quanto ao rendimento de seus estudantes, rígida em seus princípios, a Welton é uma escola preparatória para rapazes em regime de internato. A instituição adota, como pilares de sua atuação, a tradição, a honra, a disciplina e a excelência.

Keating é apresentado à comunidade escolar em cerimônia que dá início a um novo período letivo. Após esse evento, Weir nos apresenta seus protagonistas. Aqueles que os conheceram no início dos anos 90, época de lançamento do filme, não poderão reencontrá-los sem uma ponta de emoção.

Todd Anderson (Ethan Hawke) chega para seu primeiro ano na Welton. Tímido e inseguro, Todd é irmão de um brilhante ex-aluno e passa a dividir o quarto com Neil Perry (Robert Sean Leonard), estudante aplicado e talentoso, com ambições próprias, mas pressionado por um pai que controla cada uma de suas atividades. A Todd e Neil juntam-se Charlie Dalton (Gale Hansen), de espírito independente, ousado e um tanto anárquico; Knox Overstreet (Josh Charles), descontraído e romântico; e Steve Meeks (Allelon Ruggiero), o de natureza mais de acordo com às convenções tradicionalistas da escola. Eles formam a típica turma de adolescentes meio ingênuos dos anos 50, empenhados nos estudos, mas que não deixam de burlar a vigilância da escola e encontrar espaço para a diversão.

Para os rapazes, Keating seria apenas um novo professor igual a todos os outros. Porém, já na primeira aula, eles percebem que não é bem assim. Nada convencional, o mestre chama a atenção para o tempo que flui constantemente, transformando em nada tudo o que nasce, e faz conhecer seu lema: “aproveitem o dia” e “tornem suas vidas extraordinárias”. O desafio é renovado a cada aula. Keating adota uma metodologia de ensino que desperta a sensibilidade dos alunos, fazendo-os pensar de forma autônoma e perceber, na expressão literária, o eco da própria vida: “Não lemos nem escrevemos poesia porque é bonitinho. Lemos e escrevemos poesia porque somos humanos. A raça humana está repleta de paixão”.

Todd talvez seja o que mais sente o impacto dos métodos de Keating. Percebendo a insegurança do jovem – que vive à sombra do irmão mais velho e sem maior atenção dos pais para suas próprias características e necessidades –, o professor sacode seu mundo e o desperta para si, para seu potencial. Todd é o personagem emblemático, representativo de todos aqueles que sentem sua sensibilidade em conflito com os chamados de uma sociedade que insistentemente lhes dita como devem pensar e se comportar. E Keating incentiva: “Todos temos uma grande necessidade de aceitação. Mas vocês devem acreditar que suas crenças são únicas, são suas, mesmo que outros as achem estranhas, raras, apesar do gado dizer que são muito ruins”.

Submissos aos pais e ao sistema escolar, porém descobrindo o mundo e formando suas próprias personalidades, os rapazes percebem que Keating lhes apresenta as portas da liberdade, embora não possam entender ainda o que isso implica. Como quem elege um novo ídolo, um guia, o grupo procura saber mais sobre o novo professor. Nos anuários da escola, encontram referências a uma certa Sociedade dos Poetas Mortos, da qual ele teria sido membro em sua época de estudante da Welton. Keating, então, lhes diz trata-se de um grupo de colegas que se reuniam para ler poesia. É Neil quem convoca os outros e faz nascer uma nova versão da antiga sociedade.

Em meios às reuniões secretas da turma, a vida segue. Knox vive às voltas com a descoberta do amor; Chalie faz piada com tudo e parece não levar nada a sério; Steve é o mais dedicado aos estudos, um nerd mal disfarçado e certinho; Todd e Neil se tornam cada vez mais amigos e confidentes. Os métodos de Keating passam a ser questionados pelos outros professores e Neil, reagindo ao controle paterno, se decide a participar da encenação de uma peça teatral, mesmo sem autorização da família. É o início de um desfecho cheio de significados.

As citações dos poetas românticos não poderia ser mais pertinente. Walt Whitman (1819 – 1892) e Henry David Thoreau (1817 – 1862), por exemplo, são dois destacados representantes do Romantismo norte-americano. Eles remetem ao idealismo enquanto realização do potencial individual. Whitman, tido como o poeta da democracia americana, cantou a confiança no homem natural mais do que nas instituições. Foi ferrenho opositor de modos de vida e de costumes que considerava ultrapassados. O crítico literário Walter Fuller Taylor  conta que Thoreau, por sua vez, “propositalmente abraçou a pobreza, preferindo a liberdade vagabunda de roupas velhas e broa de milho à confortável escravidão suportada por seus concidadãos”.

Época de dualidades e contradições, o Romantismo corresponde ao período em que o suicídio foi entendido como uma forma de evasão da alma, ou seja, caminho para o desejável distanciamento do mundo real e consequente encontro integral consigo mesmo, com a verdade individual. Longe de ser um ato de covardia ou desespero, portanto, pode ser entendido como gesto de auto-libertação.  Mas, enquanto alguns cultuam a morte, outros cantam a vida. Keating adota o carpe diem – palavra de ordem do Barraco, período marcado pela vaidade e irracionalidade, tanto quanto pela preocupação com a transitoriedade de todas as coisas –, mas a tragédia se revela como resultado de seu empenho mal interpretado, de suas ideias que ganham autonomia na mente de adolescentes.

A adolescência é uma fase de descobertas e de emoções violentas, quando, muitas vezes, sem conhecer ainda os efeitos da passagem do tempo e da dinâmica da vida, se confunde momentos com eternidade, se toma imprudência, irresponsabilidade, desrespeito, como caminhos para a glória. Há uma larga distância entre sabedoria e ignorância. Keating bem sabe disso e o demonstra ao chamar a atenção de Charlie: “Tirar a essência da vida não significa afogar-se nela. Claro que há hora para atrever-se e há hora para ter cuidado, e um sábio sabe qual é a hora”.

Embora à primeira vista o filme soe tendencioso e reducionistas, pois coloca o professor como herói, os pais e a instituição escolar como vilões, Weir acaba por deixar em aberto uma discussão que vai muito além do certo e errado. Aos pais cabe encaminhar o futuro dos filhos, escola e professores têm papéis a cumprir. Trata-se, portanto, de questões profundas que não podem ser apresentadas superficialmente, em meio à frases de efeito. O desafio do sábio é avançar sempre sem desperdiçar nada nunca, pois há valor em todas as coisas, mas em Sociedade dos Poetas Mortos não há sabedoria em personagem algum. Keating é um idealista bem intencionado e um mestre apaixonado, mas sua paixão o torna imprudente, embora não possa ser culpado pela tragédia criada e orquestrada por um pai insensato. À direção da Welton caberia a postura adotada pelo personagem de Al Pacino em Perfume de Mulher (1992). Afinal, que espécie de adultos a Welton espera formar adotando práticas de opressão e humilhação que só atestam a inabilidade e baixo nível moral de seus diretores?

Antes de ser uma crítica ao controle das liberdades individuais, Sociedade dos Poetas Mortos é uma crítica aos atritos de comunicação entre gerações, às resoluções extremadas, às conclusões precipitadas e irrefletidas, às fórmulas prontas. Em meio à falta de equilíbrio surgem, se mantém e se agravam as desarmonias que estão na base de boa parte das insatisfações humanas, que nutrem tanto as tragédias quanto a poesia.

Com fotografia por vezes belíssima, envolvida pela discreta música de Maurice Jarre, o cineasta registrou um longa inesquecível, cuja força está na combinação de conflitos poderosos, complexos e universais com interpretações inspiradas e carismáticas de jovens atores. A Weir cabe o mérito por  ter combinado cada elemento com naturalidade, bom senso e bom gosto. Inimigo dos melodramas lacrimosos, surpreende pelo emprego de um roteiro que funciona como guia sutil, rumo a um momento exemplar da força que a linguagem cinematográfico pode atingir ao utilizar soluções simples, mas inteligentes. Assim, o cineasta  nos brinda com a visão da liberdade verdadeira, aquela que habita o lugar seguro que há dentro de nós, onde podemos guardar sonhos, esperanças e estratégias para continuar lutando sempre,  discretamente. É neste lugar, individual e imperceptível aos olhos alheios, que nasce e resiste a força dos poetas, dos outsiders, dos heróis mais discretos que, sem alarde, sustentam com sabedoria os verdadeiros pilares da humanidade.

Por Helena Novais, em 12/02/2009 Avaliação:                   9.5
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 7.0
• Daniel Dalpizzolo 5.0
• Rodrigo Cunha 7.0
• Régis Trigo 8.0
• Demetrius Caesar 4.0
• Vlademir Lazo 6.0
• Heitor Romero 6.5
•  Média 6.2
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 FICHA DO FILME

 Sociedade dos Poetas Mortos
(Dead Poets Society, 1989)
• Direção:
- Peter Weir
• Elenco Principal:
- Robin Williams
- Josh Charles
- Ethan Hawke
• Sinopse: Em 1959 na Welton Academy, uma tradicional escola preparatória, um ex-aluno se torna o novo professor de literatura. Porém, ele propõe métodos de ensino que incentivam seus alunos a pensarem por si mesmos e apresenta aos alunos a Sociedade dos Poetas...
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