FILMES CRÍTICAS NOTÍCIAS PERFIS TRILHAS TOPS PREMIAÇÕES ARTIGOS COMENTÁRIOS FÓRUNS   SÉRIES PUBLICIDADE
CENTRAL DE USUÁRIOS   |    CADASTRE-SE   |   ENTRAR
   
FILMES
CRÍTICAS
NOTÍCIAS
PERFIS
TRILHAS
TOPS
PREMIAÇÕES
ARTIGOS
COMENTÁRIOS
FÓRUNS

SÉRIES
CADASTRE-SE   |   ENTRAR
CRÍTICA

Trama Macabra

(Family Plot, 1976)
Por Daniel Dalpizzolo Avaliação:                 8.5
Trama farsesca.

Apesar de eventuais flertes com o macabro, os filmes de Hitchcock não se aliam às escolas cinematográficas derivadas da literatura de Edgar Alan Poe e outros autores de horror fantástico. Suas imagens evitam a transcendência do campo, de modo que não permitam contato com o fantástico, com o que não pode ser visto ceticamente – ou, numa inversão de origens, com o que a câmera não possa documentar no mundo -, opção que confere uma tensão particular aos filmes. A imagem em Hitchcock, mesmo em seus trabalhos considerados inverossímeis, é resultado de um olhar pragmático que ilumina ao espectador o que há de visível no espaço cênico: o que deve ser assimilado pelo olhar sob mediação da câmera, antes ou através do personagem, desde que para sua compreensão não seja necessária outra manifestação de fé que não o simples – e ao mesmo tempo complexo e desafiador – ato de olhar.

Surge desse impasse uma questão que perpassa diversos trabalhos do diretor, a exemplo de Trama Macabra (Family Plot, 1976): como solucionar em cena a presença do fantástico, diante desta impossibilidade real de transformá-lo em imagens? Se filmes como este, Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958) e Os Pássaros (The Birds, 1963) seguem ainda hoje tão encantadores, é também por essa questão ser resolvida radicalmente de diferentes (e decisivas) formas: por exemplo, na ruptura da atmosférica ambientação sobrenatural da metade inicial de Vertigo, desmentida pela revelação da encenação que transforma completamente o contexto da narrativa; ou pelo final maldito de Os Pássaros, no qual, frente à impossibilidade de uma explicação lógica para a tragédia, o mistério do estranho comportamento dos animais é sustentado para além do filme com um tortuoso e prematuro fade out, deixando o espectador completamente à deriva.

Trama Macabra, neste aspecto, talvez seja um de seus filmes mais didáticos e representativos – e ganha conotação simbólica por ter se tornado a obra final da carreira de Hitchcock, em decorrência de seu estado de saúde, que o impediria de filmar a partir de 1976. A impossibilidade de registrar ceticamente o fantástico gera intervenções fundamentais no material escrito por Ernest Lehman (parceiro do diretor no antológico Intriga Internacional [North By Northwest, 1959]) para a adaptação do romance The Rainbird Pattern ao cinema – solicitadas a Lehman pelo próprio Hitchcock. A mais decisiva delas é justamente a subversão do elemento fantástico da história original, convertendo-o em uma grande piada que se prolonga durante todo o filme até a controversa e genial cena final. Com esta pequena alteração, a personagem de Blanchet (interpretada por Barbara Harris, falecida em julho deste ano), no romance uma mulher com poderes mediúnicos, é transformada para o filme em uma trambiqueira que finge ser vidente para arrancar R$ 10 mil dólares de uma senhora rica, a fim de localizar um parente de sua cliente desaparecido há quatro décadas - utilizando, para isso, inexistentes poderes especiais.

A mediunidade em Trama Macabra, como o sobrenatural de Um Corpo Que Cai, é um embuste plantado na trama para dar corpo, neste caso, a uma encenação predominantemente cômica, cujo tom overreacted remete às screwball comedies dos anos 1930, de autores como Lubitsch e Hawks. Desde a cena de abertura, em que acompanhamos a primeira e divertidíssima sessão espírita de Blanche, quando a personagem é apresentada para o espectador do centro de uma bola de cristal verde e cartunesca, a narrativa é enviesada por truques e falsificações que a todo instante ressaltam os mecanismos da farsa, potencializados pelas ações dúbias dos personagens: dois casais de picaretas cujos planos se cruzam durante a segunda metade da obra. Os personagens permitem ao filme brincar com a percepção do espectador a todo instante: desde o uso de perucas para ocultar identidades e a existência de passagens falsas no cenário, até o desdobramento sobre a descoberta do paradeiro do homem desaparecido, vários elementos e imagens são incorporados às cenas para ressaltar mentiras, utilizando as regras básicas da narrativa de suspense para sustentar estas mentiras em tela antes de explorá-las comicamente em suas revelações.

A intenção de Lehman, inclusive, era nomear a obra como Deceit (em português, Enganação), um título que, embora substituído durante as filmagens, representaria perfeitamente a convergência de sua imaginação com a de Hitchcock – que já haviam sido combinadas em Intriga Internacional, quando levaram às últimas consequências o desejo de construir situações imageticamente fortes e um tanto insanas, apesar de perfeitamente críveis para a fé do olhar, situando nelas o tradicional personagem hitchcockiano: o homem inocente e ordinário, no qual o espectador naturalmente se projeta. Ambos os filmes dividem esta característica, e um mesmo desejo pela narrativa rápida, de cenas movimentadas e situações que permitiam a Hitchcock explorar diversos signos e locais com potencial imagético ou subversivo, como na perseguição sobre o Monte Rushmore de Intriga Internacional ou, em Trama Macabra, nas belas cenas filmadas no cemitério e na hilariante sequência do sequestro do padre que rezava seu culto em uma igreja católica.

A opção pelo tom de comédia farsesca também se alia às técnicas de encenação de Hitchcock (cenários elaborados com minúcia, coloridos e extremamente limpos, imagens filmadas com chroma key, o rigor formal dos enquadramentos planejados em precisos storyboards) para evidenciar Trama Macabra como um dos filmes mais anacrônicos lançados no cinema norte-americano pré-Star Wars nos anos 1970, considerando as transformações do sistema de produção da indústria e os interesses do público naquele período, identificado com abordagens estéticas mais realistas. Contextualizá-lo à história do cinema norte-americano setentista é curioso a medida que se tem como produções de sucesso daquele mesmo ano filmes radicalmente diferentes deste como Taxi Driver (idem, 1976), Rocky, Um Lutador (Rocky, 1976) e Rede de Intrigas (Network, 1976), que ganhavam a atenção do público por sua legitimidade no ambiente de produção da Nova Hollywood.

O anacronismo pode ser uma das justificativas para a recepção fria à obra, mas ver Trama Macabra hoje, com a merecida atenção, revela-o como um dos filmes mais divertidos de Hitchcock, em que o diretor se apresenta um hábil e assumido manipulador de imagens, condição essencial do cineasta. E é explicitando esta condição que Hitch viria a compor a cena que passaria para a história como sendo a última de sua extensa carreira, uma deliciosa brincadeira de percepção que sintetiza o espírito de seu cinema e sua habilidade inigualável como manipulador. Nesta sequência, Hitchcock retoma a dúvida da crença no fantástico para apresentar uma possível intervenção mediúnica verdadeira, quando Blanchet percorre de olhos cerrados uma espaçosa sala de estar até chegar ao pé da escada e apontar para o lustre cheio de brilhantes que adorna o cenário, identificando nele um diamante perdido. A encenação e a reação do personagem que divide a ação (interpretado pelo premiado em Cannes Bruce Dern) nos induzem a acreditar que a descoberta de Blanche, que resolvia o último ponto desamarrado da trama, finalmente evidenciou sua primeira ação legitimamente mediúnica. Mas, outra vez, não passava de uma brincadeira. Em um momento raro na carreira do diretor, a personagem quebra a quarta parede, olha diretamente para a lente da câmera e, com um sorriso malicioso, pisca para o espectador. Safadeza que se tornou o canto do cisne de um cineasta fundamental para a legitimação do cinema como a arte que reescreveria para sempre nosso ato de olhar e interpretar imagens.  

Por Daniel Dalpizzolo, em 03/09/2013
Avaliação:                 8.5
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 5.0
• Daniel Dalpizzolo 8.5
• Rodrigo Cunha 6.0
• Régis Trigo 6.0
• Silvio Pilau 6.0
• Vlademir Lazo 7.5
• Heitor Romero 8.0
• Rafael W. Oliveira 4.0
•  Média 6.4
Notas - Usuários
7.2/10 (141 votos)
Minha nota:
0.5 1.0 1.5 2.0 2.5 3.0 3.5 4.0 4.5 5.0 5.5 6.0 6.5 7.0 7.5 8.0 8.5 9.0 9.5 10.0
    --
• Todas as opiniões 
Comente no Cineplayers (13)
Por Luiz Fernando de Freitas, em 07/06/2014 | 14:32:27 h
Trama Macabra é um dos filmes mais divertidos do diretor. A direção é estilosa (grande influência para Tarantino, De Palma e os irmãos Coen), as atuações inspiradas (Barbara Harris, o destaque), o roteiro inteligente e a trilha sonora de John Willians, perfeita à proposta do filme. Vale ressaltar também a última cena do filme e da carreira do cineasta, com uma brincadeira que só poderia ter saído da mente do mestre do suspense (comprovando sua genialidade no humor também).
Por Luís Eduardo da Conceição Santos, em 05/09/2013 | 22:35:05 h
Engraçado que hoje eu estava passando na Cultura e vi o filme numa das prateleiras (que estavam bem vazias), também vi Suspiria e Demons.
Por Ricardo Nascimento Bello e Silva, em 05/09/2013 | 22:07:52 h
Sim, passou no Cult! Não tive tempo de ver, mas tenho ele em Blu-Ray graças a coleção do Hitchcock que comprei(e eu estou em falta, mas acho que consigo devorar ela até o fim do ano .). Leio a crítica assim que ver o filme...
Por Victor Tanaka, em 05/09/2013 | 18:24:37 h
Trama Macabra é um dos melhores do Hitchy. ♥
Por Alexandre Koball, em 04/09/2013 | 21:44:28 h
Não é meu objetivo.
Por Marcos andré Pereira, em 04/09/2013 | 18:11:21 h
me prova que não existe diretor sem filme fraco.
Por Alexandre Koball, em 04/09/2013 | 15:58:18 h
Não existe isso de que não tem diretor sem filme fraco. Todos são humanos e em um assunto tão subjetivo quanto arte, é impossível não ter um filme "fraco".
Por Conde Fouá Anderaos, em 04/09/2013 | 11:52:01 h
Começo a acreditar que Alfred Hitchcock não possui filme fraco. A fraqueza vem de quem assiste (incluo-me na lista).
Por Conde Fouá Anderaos, em 04/09/2013 | 11:49:01 h
Um grande filme, desprezado e colocado no panteão dos fracos. Ridículo pensar assim. As interpretações são ótimas, a direção primorosa. E existe algumas sequências brilhantes: o sequestro do clérigo, o final e a sabotagem do carro.
Por Robson Nakazato, em 04/09/2013 | 10:11:09 h
Este é um dos 3 ultimos filmes do diretor que pode ter dominio dos atores,já que nenhum teve algum famoso.
Falando nisso,falta uma crítica de sua obra prima: Um Corpo Que Cai (1958) na qual foi considerada no ano passado o melhor filme de todos os tempos,derrubando ninguém menos que Cidadao Kane(1941).
Por Heitor Romero , em 04/09/2013 | 09:24:52 h
Acho que passou no Telecine Cult recentemente, eu quase assisti, mas não deu. Esperar passar de novo.
Por Gustavo Hackaq, em 04/09/2013 | 00:22:26 h
Tava esperando uma resenha pra esse nessa semana e esperava por uma do Dalpy. Vou apostar na loto amanhã.
Por João Paulo , em 03/09/2013 | 23:31:23 h
Dos mais subestimados do mestre, apesar de não considerar OP é um ótimo filme, certamente é uma grande influencia para os primeiros filmes dos Coens
Comente no Facebook
Todas as informações aqui contidas são propriedades de seus respectivos produtores. Sugestões? Reclamações? Elogios? Faça valer sua opinião, escreva-nos!
 CINEPLAYERS CAST
CP Cast
#55 Halloween (2018)
#54 O Primeiro Homem
#53 Nasce Uma Estrela
#52 Musicais no Século XXI
#51 70 anos de John Carpenter
#50 Breaking Bad - 10 Anos
#49 Neorrealismo Italiano
#48 O Exorcista
#47 Wall-E
#46 The Last of Us
#45 60 anos de Tim Burton
#44 Meu Amigo Totoro
#43 Missão: Impossível - Efeito Fallout
#42 Filmes da Sessão da Tarde
#41 Batman: O Cavaleiro das Trevas
#40 100 anos de Ingmar Bergman
#39 Os Incríveis 2
#38 Era Uma Vez no Oeste
#37 Jurassic Park e Jurassic World
#36 O Bebê de Rosemary
#35 A Noite dos Mortos-Vivos e Despertar dos Mortos
#34 Han Solo: Uma História Star Wars
#33 Deadpool 2
#32 Um Corpo que Cai
#31 Stephen King no Cinema
#30 Vingadores: Guerra Infinita
#29 A Franquia 007
#28 Um Lugar Silencioso
#27 2001: Uma Odisseia no Espaço
#26 Jogador Nº1
#25 Planeta dos Macacos
#24 Quentin Tarantino
#23 75 anos de David Cronenberg
#22 Projeto Flórida
#21 Trama Fantasma
#20 Três Anúncios Para um Crime e Lady Bird
#19 Oito e Meio de Fellini
#18 A Forma da Água
#17 The Post e os filmes de Jornalismo
#16 Indicados ao Oscar 2018!
#15 20 Anos de Titanic
#14 Nostalgia Cinéfila - Especial 15 Anos!
#13 Melhores de 2017
#12 Star Wars: Episódio VIII - Os Últimos Jedi
#11 Especial Natalino
#10 Assassinato no Expresso Oriente
#9 Onde os Fracos Não Têm Vez
#8 Liga da Justiça
#7 Stranger Things
#6 45 anos de O Poderoso Chefão
#5 Branca de Neve e os Sete Anões
#4 Halloween
#3 Blade Runner / Blade Runner 2049
#2 De Volta Para o Futuro
#1 Os Goonies
#0 O Piloto
 LEIA TAMBÉM
 FICHA DO FILME

 Trama Macabra
(Family Plot, 1976)
• Direção:
- Alfred Hitchcock
• Elenco Principal:
- Karen Black
- Ed Lauter
- Barbara Harris
• Sinopse: A falsa médium Madame Blanche e seu namorado taxista George tentam roubar o dinheiro da velhinha Julia Rainbird, dizendo que podem se comunicar com seu falecido sobrinho.
 FILMES RELACIONADOS
• Intriga Internacional
• Os Pássaros
• Rede de Intrigas
• Rocky, Um Lutador
• Taxi Driver
• Um Corpo Que Cai
CINEPLAYERS LTDA. (2003 - 2018) - TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

CENTRAL DE USUÁRIOS
FILMES
CRÍTICAS
NOTÍCIAS
PERFIS
TRILHAS SONORAS
HOME CINEMA
TOPS
COMENTÁRIOS
ARTIGOS
PREMIAÇÕES
JOGOS
FÓRUNS
PAPÉIS DE PAREDE
MAIS ASSISTIDOS
EQUIPE
NOSSA HISTÓRIA
CONTATO
PERGUNTAS FREQUENTES
PROMOÇÕES
ESTATÍSTICAS
ESPECIAL A NOVA HOLLYWOOD
ESPECIAL WES CRAVEN
CHAT
MAPA DO SITE
API CINEPLAYERS
ANUNCIE CONOSCO
         
CINEPLAYERS LTDA. (2003 - 2018)

           
 USUÁRIOS
 + ASSISTIDOS
 EQUIPE
 HISTÓRIA
CONTATO
FAQ
PROMOÇÕES
ESTATÍSTICAS
WES CRAVEN
MAPA DO SITE
API
ANUNCIE