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CRÍTICA

Veludo Azul

(Blue Velvet, 1986)
Por Daniel Dalpizzolo Avaliação:                 8.5
"Go to sleep. Everything is all right."

Quando In Dreams, a bela e soturna canção de Roy Orbison, irrompe o silêncio da madrugada para embalar o espancamento de Jeffrey Beumont, nosso protagonista e guia em Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), já estamos suficientemente imersos no universo subversivo de David Lynch. O carro está estacionado à beira de uma auto-estrada mal iluminada, pessoas bêbadas riem da desgraça de Jeffrey, que por sinal está com a boca toda borrada de batom vermelho, assim como seu algoz, Frank Booth, o insano personagem de Dennis Hopper que acabava de lhe beijar antes de sentar a porrada. Uma mulher de formas estranhas dança sobre a lataria do carro, um homem com aspecto de boneco de cera acompanha tudo com encantamento. Arquitetura de um pesadelo, e Jeffrey o sente na pele; é real.

Mesmo em seus filmes mais narrativos, como Veludo Azul, o cinema de David Lynch é todo sensorial. Imagens, canções, diálogos; os elementos são dispostos cuidadosamente para a composição desta atmosfera onírica, e geralmente possuem significância metafórica ou dúbia. Lynch é um grande reconhecedor da essência artística de construção de novas realidades; os filmes discursam sobre nosso mundo, sobre como nos relacionamos com ele e com quem o habita, sobre as perversões, fobias e sentimentos destes habitantes, mas sua representação extrapola os significados que estes signos receberiam do lado de cá. Filmar, para Lynch, não é cercar, induzir ou subtrair-se até atingir a fórmula precisa; mas desbravar, expandir e, principalmente, explorar sensações, nem que isso resulte em um filme de três horas cheio de excessos.

Veludo Azul abre mostrando o cotidiano de uma pacata cidade do interior dos Estados Unidos. Casas com cerquinhas brancas, flores coloridas, crianças brincando no jardim, o caminhão de Bombeiros passeando lentamente pela rua enquanto seus passageiros, sorridentes e num slow motion tosco, acenam para os vizinhos. Tudo muito bonito e tranquilo em Lumberton. A superfície da cidade é a representação estética do american way of life, o tal sonho estadunidense, a vida perfeita, aquela comercializada nas publicidades de creme dental onde o branco soa mais branco do que você jamais poderá ver, mas debaixo da grama os insetos remoem a terra e compõem uma paisagem negra de depredação, e a câmera de Lynch, é claro, faz questão de os perseguir.

Viver na cidade dos sonhos? Ah, puta tédio, hein. Andar pelo campo sentindo o ar fresco da natureza? Tédio. Tédio redobrado. A vida só volta a ficar interessante para Jeffrey em sua viagem ao interior quando finalmente encontra uma orelha humana grudada na grama, apodrecendo aos poucos. A câmera de Lynch, é claro, faz questão de persegui-la. Mais: de penetrá-la. A orelha é um portal e um brilhante truque narrativo: adentramos, através dela, ao outro lado desta realidade. The dark side. Sai o sonho idealizado, surge o pesadelo do obscuro e do sadomasoquismo, essa mistura de dor e fascínio que nos regra. Um lado precisa existir para que também exista o efeito do outro, e é a partir deste paradoxo que Lynch dá início à sua viagem por esse pesadelo carnal – e real.

O universo de Veludo Azul respira ares de sarcasmo em torno deste paradoxo subversivo. O romantismo soa cafona, a perversão uma comédia, o sexo quase um ato de violência. Aqui, a excitação é medida na ponta da navalha. Se Jeffrey tem duas opções (dificilmente existe apenas uma saída para qualquer situação, isso na vida mesmo), depois da orelha escolhe sempre a mais estranha. “Não sei se você é um detetive ou um pervertido”, diz a formosa loira (Laura Dern, é, nem tão formosa assim) pela qual ele se apaixona, depois de vê-la surgir da escuridão da forma mais brega possível durante uma caminhada noturna – aparição que inclui iluminação over no rosto da atriz e trilha de conto de fadas. “Isto eu sei, e você terá que descobrir”, responde. Dito isso, se enfia dentro de um armário e observa uma mulher perturbada tirar a roupa e, logo em seguida, trepar de um jeito um tanto quanto maluco com seu homem, que a espanca, preenche a boca com pedaços de veludo e respira com auxílio de um inalador aos gritos de “baby wants to fuck!”.

Depois de situados nessa ótica perversa de Lynch, só resta mesmo nos entregarmos e aproveitarmos o espetáculo. E Veludo Azul é um deslumbre. Suspense oitentista com cara de aventura juvenil filmada por alguém que viu muito filme noir e resolveu desmistificar o lado negro do ser humano misturando aromas vespertinos com odor de sangue e esperma. David Lynch abre espaço para diversas sensações, algumas delas chegando juntas num misto de fascínio e horror bastante semelhante ao vivido por Jeffrey nessa jornada insana. As reações do lado de cá podem soar tão subversivas quanto alguns dos melhores momentos do filme; ou vá dizer que as bizarrices de Dennis Hopper e suas dezenas de frases de efeitos, palavrões e atitudes inconsequentes não são o máximo de comicidade que se pode extrair de um filme que chafurda tão a fundo na podridão dos instintos carnais humanos?

É de Hopper os melhores momentos de Veludo Azul, aqueles que os fãs do filme lembram com maior entusiasmo e dos quais sabem todos os diálogos de cor. Não é pra menos. Frank Booth é seguramente o personagem mais icônico construído pelo cinema de Lynch, que se aproveita da figura doentia do ator para viajar por sequências que beiram o seu surrealismo futuro. De frases antológicas como “I'll fuck everything that moves!” a imagens bizarras como as inspirações com inalador, Frank Booth é ele próprio um genuíno personagem dos pesadelos, mas que, em Veludo Azul, representa perigo real ao nosso protagonista. E se ao final de tudo Lynch insinua um retorno aos comerciais de creme dental com aquele epílogo sobre pintarroxos e sonhos idealizados, o belo e vasto gramado do quintal não nos deixa iludir. Afinal, debaixo dele sempre existirão os insetos.

Por Daniel Dalpizzolo, em 14/08/2010
Avaliação:                 8.5
Notas - Equipe
• Alexandre Koball 7.0
• Daniel Dalpizzolo 8.5
• Rodrigo Cunha 8.0
• Régis Trigo 7.0
• Vlademir Lazo 8.0
• Heitor Romero 9.5
• Marcelo Leme 8.0
• Rafael W. Oliveira 8.0
• Victor Ramos 9.5
•  Média 8.2
Notas - Usuários
8.1/10 (533 votos)
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Comente no Cineplayers (22)
Por Bill Coln, em 04/08/2017 | 01:17:52 h
Ótima crítica.
Por Pedro Zeffer, em 07/09/2014 | 15:52:48 h
que texto foda, parabéns.
Por Caio Henrique, em 20/07/2014 | 17:58:56 h
Blz jovem...
Por Luiz Fernando de Freitas, em 20/07/2014 | 15:16:43 h
"Juro que ainda venho a entender porque as pessoas insistem em divulgar seus tops sempre que veem uma oportunidade..."

"Cidade dos Sonhos" é o melhor dele galera? Não vi sua filmografia completa...
Por Caio Henrique, em 20/07/2014 | 15:11:27 h
Juro que ainda venho a entender porque as pessoas insistem em divulgar seus tops sempre que veem uma oportunidade...
Por Luiz Fernando de Freitas, em 20/07/2014 | 12:15:56 h
Meu Top dos filmes que assisti do diretor:
1- Cidade dos Sonhos.
2- Veludo Azul.
3- O Homem Elefante.
4- Império dos Sonhos.
Por Guilherme Santos , em 19/07/2014 | 20:46:58 h
Top 3 David Lynch(um dos melhores diretores do mundo)
1-Cidade dos sonhos
2- a estrada perdida
3- veludo azul
Por Luís Eduardo da Conceição Santos, em 19/07/2014 | 12:17:18 h
O sotaque de Isabella Rossellini S2
Por Lucas Souza, em 18/07/2014 | 20:05:50 h
"Cidade dos Sonhos" é o melhor dele galera? Não vi sua filmografia completa...
Por Luiz Fernando de Freitas, em 18/07/2014 | 13:39:19 h
Só fica atrás de Cidade dos Sonhos mesmo. Uma obra-prima sensorial, única, instigante e surreal. Denis Hopper no melhor desempenho de sua carreira, além de uma crítica feroz e inteligente ao "american way of life".
Por Francisco Bandeira, em 18/07/2014 | 12:54:59 h
Uma das cenas mais WTF do cinema: a dublagem para a canção de Roy Orbison!
Por Rafael F., em 18/07/2014 | 12:18:59 h
Texto excelente para o melhor filme do Lynch (pelo menos na minha opinião).
Por Caio Henrique, em 18/07/2014 | 11:45:05 h
"A candy colored clown..."


Essa cena jamais sairá da minha cabeça...
Por Gustavo Hackaq, em 18/07/2014 | 11:40:31 h
Minha frase favorita do filme: "Heineken? FUCK THAT SHIT! Pabst Blue Ribbon!"
Por Luis Felipe, em 18/07/2014 | 10:34:49 h
Delicia de filme
Por Caio Henrique, em 18/07/2014 | 08:27:08 h
Não acho David Lynch um diretor subestimado. Pelo contrário. Cada filme novo que o cara faz(quando faz) causa um rebuliço e chama atenção. Sempre. Subestimado é o Ferrara.
Por Gustavo Hackaq, em 18/07/2014 | 00:05:47 h
Ai, que, fil, me, ma, ra, vi, lho, so
Por Paula Lucatelli, em 11/01/2014 | 19:54:47 h
Perde apenas para Cidade dos Sonhos! David Lynch é um dos diretores mais subestimados do cinema, mas com talento para figurar na lista dos dez maiores diretores de todos os tempos (infelizmente, grande parte da população não tem capacidade de apreciar tal obra). Fica a dica: a série Twin Peaks é uma excelente pedida!
Por Angelão, em 13/10/2012 | 09:14:04 h
Crítica espetacular mesmo.
Por Wellington Junior, em 06/12/2011 | 23:05:53 h
Fabuloso!
Por Dave Campos, em 17/08/2011 | 00:51:32 h
Um dos melhores textos deste site mesmo.
Por Bruno Kühl, em 16/08/2011 | 15:26:53 h
Meu Deus, o texto até chegou perto da magnitude do filme!
Parabéns, uma das melhores críticas do CP ever!
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 FICHA DO FILME

 Veludo Azul
(Blue Velvet, 1986)
• Direção:
- David Lynch
• Elenco Principal:
- Kyle MacLachlan
- Laura Dern
- Isabella Rossellini
• Sinopse: Jeffrey retorna para sua cidade depois de estar fora algum tempo e descobre uma orelha humana sobre o chão, em meio ao mato. Não satisfeito com a passividade da polícia em relação ao caso, ele e a filha de um detetive da polícia resolvem fazer sua pr...
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