Especial Wes Craven 02/08/1939 - 30/08/2015

Há algum tempo que o Cineplayers procura por uma ocasião singular para estrear o novo layout para artigos especiais. Diante da triste notícia da morte do grande Wes Craven no último mês, não restou dúvidas da chegada do momento certo para colocar em prática a iniciativa. Em sua memória, seguem abaixo breves análises para cada um dos seus filmes lançados nos cinemas. Esperamos que os nossos queridos leitores e fãs do diretor apreciem o conteúdo escrito e também do novo visual que preparamos com todo o carinho.

Leia nossa biografia!

Aniversário Macabro 1972

O debut de Wes Craven possui e crueza e brutalidade características do diretor e do cinema americano nos anos 1970. Por trás do orçamento modesto há valores cinematográficos notáveis em Aniversário Macabro. O mais impressionante deles provavelmente é o domínio que Wes Craven, logo no despertar de sua carreira como realizador, demonstra ter da NARRATIVA que dirige. Em pouco mais de 80 minutos, o filme possui pelo menos quatro arcos distintos, alguns deles paralelos entre si, cada um protagonizado por um grupo diferente de personagens. A articulação linear desses quatro arcos, realizada de maneira a transformar o filme em uma peça clássica de três atos, é bastante efetiva. Embora seja um filme curto e diversas das situações sejam resolvidas de maneira preguiçosa ou inexplicável, todos os momentos são preenchidos por uma textura viva latente, repletas de extrema violência, falta de moral e anarquismo. Em aniversário macabro, a força da lei (polícia) é alívio cômico, a jornada de marginais errantes é dotada de um caráter (quase SOBRENATURAL) implacável e avassalador, que só pode ser interrompida pela insurgência de violência brutal que, segundo Craven, é inerente ao ser humano a partir do momento em que os pilares do que tomamos como SOCIEDADE são desfarelados.

-- Guilherme Bakunin

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Quadrilha de Sádicos 1977

Em seu segundo trabalho, Craven segue a mesma linha de Aniversário Macabro, com um baixo orçamento e uma filmagem crua e brutal. Nada de monstros, fantasmas, demônios ou alienígenas. Aqui o mau é representado pelo próprio ser humano, em seu estado mais primitivo. Com a ressaca da guerra do Vietnã, a tragédia de Altamont e a heroína invadindo as ruas, o terror ganhou uma nova releitura, transformando-se em um meio de expressar todo o clima de pessimismo que rondava a nova década. Em Quadrilha de Sádicos conhecemos os membros da família Carter que em uma viagem de volta para a Califórnia, se acidentam e ficam presos e incomunicáveis em pleno deserto. Sem perceberem, começam a ser vigiados por um misterioso e perigoso bando de canibais incestuosos que vivem nas montanhas. A câmera em primeira pessoa dá a sensação de impotência e de perigo iminente. O suspense e a tensão são instaurados desde os primeiros momentos, exalando toda a angústia das personagens de estarem à deriva, impossibilitados de pedir socorro. Através de closes bruscos, cenas noturnas e violência explícita, Craven expõe todos os conflitos e contradições da exemplar família de classe média alta vivendo uma situação extrema, onde todos terão que se submeter ao nível mais baixo de crueldade e desumanização se quiser sobreviver. Quadrilha de Sádicos é um perfeito exemplar do gênero de terror nos anos 70, onde a natureza humana mostra-se mais assustadora que qualquer fenômeno sobrenatural.

-- Bruno Marise

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Benção Mortal 1981

Influência direta da onda slasher, Benção Mortal foi a única vez na qual o diretor utilizou durante algumas passagens no filme o ponto de vista do assassino, como Carpenter fizera em Halloween, chegando a confundir nós, espectadores, sobre quem é realmente o vilão que anda na comunidade na qual vemos uma luta entre os Hititas, uma seita religiosa, e uma recém-viúva com suas amigas. Conflitos religiosos, pecados, punições, um pouco do que o diretor passou na infância é usado aqui de algumas maneiras, mexendo com vários de nossos medos, indo do sobrenatural, pesadelos, ao uso de animais em sonhos e realidades das personagens, que podem ser vistos como metáforas para o pecado sexual (a cobra na banheira entre as pernas, a aranha representando o sexo oral), bem como o rapaz que é assassinado ao contemplar uma das mulheres mundanas em seu momento de nudez. Benção Mortal mostra um Craven mais amadurecido, que se utiliza da intuição e ensaia os primeiros sustos de sua carreira, ao contrário de jogar em nossa cara a brutalidade e crueldade de Aniversário Macabro ou Quadrilha de Sádicos.

-- Ítalo Lobo

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O Monstro do Pântano 1982

Baseado em um popular comic book, O Monstro do Pântano é Craven fazendo terror à moda antiga, evocando o cinema de monstros dos anos 1950, revestindo-o de uma linguagem cartunesca, e adaptando-o aos moldes do terror adolescente oitentista. Ao mesmo tempo que possui toda essa característica vintage, também se mostra bastante na vibe das ficções-científicas de horror sobre mutações e deformações, tão comuns no cinema de John Carpenter (seu amigo pessoal e ídolo confesso), David Cronenberg e Stuart Gordon. O saudosismo com que Craven trata do tema revela seu coração infantil-cinéfilo amador, e expõe toda sua base com o gênero de forma singela e propositalmente grotesca. É o terror mais típico de sua carreira – assustador de uma maneira quase cômica, delicado e ao mesmo tempo nojento, e, sobretudo muito apaixonado.

-- Heitor Romero

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A Hora do Pesadelo 1984

Para a platéia de hoje, mais acostumada com o terror diegético, ao estilo Rec e Atividade Paranormal, é difícil compreender o impacto gerado por A Hora do Pesadelo. Em 1984, quando todos ainda estavam sob o impacto de Halloween (1978) e Sexta-Feira 13 (1980), o diretor Wes Craven inovou com a figura de Freddy Krueger e suas icônicas garras de metal, um vilão menos robótico, de certa forma mais humano que seus “concorrentes” Jason Voorhees e Michael Myers, e que ficaria marcado para sempre como uma referência do seu cinema e da cultura pop em geral. Além do carisma do seu protagonista, A Hora do Pesadelo se diferencia dos demais terrores produzidos até então ao explorar com habilidade temas como o poder dos sonhos, o medo de dormir sozinho e a vingança (Krueger invade o sono daqueles jovens indefesos com um propósito). É verdade, porém, que o filme não resistiu plenamente à passagem do tempo. Os efeitos especiais envelheceram, o elenco é fraco, a conclusão não faz muito sentido, e o próprio Freddy Krueger já não assusta tanto. Apesar destes problemas, cenas como a garra entre as pernas da heroína e o primeiro assassinato sobre a cama, marcaram toda uma geração e fazem com que A Hora do Pesadelo, mesmo 30 anos após sua estréia, se mantenha uma referência (ainda que imperfeita) do gênero de terror.

-- Régis Trigo

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Convite Para o Inferno 1984

Ao analisar a filmografia de Craven, podemos perceber que um dos temas mais recorrentes nela, ainda que de forma sutil em alguns casos, é o amor pela família ou por outra pessoa querida. Sendo um de seus trabalhos mais desconhecidos, Convite Para o Inferno é o exemplar no qual esse sentimento de afeto mais salta aos olhos. Como em todo filme de horror, temos aquela personalidade a qual o mal não atinge. Um homem em progresso na carreira vê aos poucos que sua família e amigos, sobretudo a esposa, estão cada vez mais imersos nesse novo mundo, que se mostra perfeito, mas com um fundo maligno, que interfere no comportamento dos que a este meio pertencem, como nosso atípico “herói” (que, ironicamente, mesmo sendo o responsável por tal mudança, não se encaixa nessa nova vida) percebe aos poucos. Sendo um filme feito para a TV, com toda aquela limitação seja de metragem ou de conteúdo, é uma história em que no fim das contas o protagonista deve salvar os que tanto amam, exatamente como o telefilme anterior do diretor, Verão do Medo. Não espere aqui uma qualidade igual à de outros filmes de Craven, mas sua eterna relação entre amor x medo torna o filme digno.

-- Ítalo Lobo

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Quadrilha de Sádicos 2 1985

Perturbador – não exatamente pela perspectiva que muitos costumam utilizar como um elogio. Complicado assistir a essa sequência de Quadrilha de Sádicos (The Hills Have Eyes, 1977) sem fazer ao menos uma careta involuntária. Tudo de ousado que o anterior conquista é desprezado por este; não exatamente por incompetência do nome por trás da direção, mas pelas circunstâncias – a produção do filme foi marcada por problemas e perdas, no final das contas acarretando uma postura de renegação do próprio Craven. Evidentemente que existe um talento por trás, porém não existe uma noção de unidade com todo o material colocado em cena. Quando temos meio mundo de cenas do filme anterior inseridas aqui para a elaboração equivocada de referências e de reestruturação de elementos (principalmente em torno de personagens – o retorno do carismático Michael Berryman com o escroto Pluto, a mulher selvagem do primeiro filme, o cachorro implacável etc.), fica a forte impressão de que esta sequência não passa de um bichinho de pelúcia feito de pedaços rasgados de algo maior. Não é por acaso que se trata de um título constantemente ofuscado.

-- Victor Ramos

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A Maldição de Samantha 1986

O cinema de fantasia/horror dos anos 80 muitas vezes discutiu, à seu modo kitsch e absurdo, uma questão que tantas vezes marcou vez em filmes mais sérios: a ressurreição. A inabilidade humana de lidar com a morte e a forma de procurar por um prolongamento ou sobrevida ganha um viés mórbido quando analisado sob um prisma de horror, vide o clássico A Hora dos Mortos Vivos (1985), de Stuart Gordon. Wes Craven também se interessou pelo tema em A Maldição de Samantha, filme de relativo bom orçamento que veio após o prestígio que o cineasta ganhou com o sucesso de A Hora do Pesadelo. A princípio o foco seria adentrar na doçura tristonha do drama do menino impopular e solitário que deseja trazer novamente à vida sua única amiga, mas os estúdios não gostaram da vontade de Craven em tentar fazer um filme menos assustador e exigiram que o foco recaísse sobre o terror. Mesmo o resultado não saindo como o diretor planejou, Deadly Friend demonstra um bonito cuidado com os personagens e um carinho muito especial de Craven com sua história. Vale a pena tentar ignorar toda a parafernália cafona oitentista e enxergar por trás de tudo o sensível retrato da solidão e amizade na juventude pintado pelo cineasta.

-- Heitor Romero

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A Maldição dos Mortos-Vivos 1988

Craven foge da representação contemporânea de George A. Romero para fazer seu filme, uma ficção adaptada de não ficção. A obra de um etnobotanista é vertida em um horror de perseguição com pano de fundo político , onde o protagonista encontra um Haiti socialmente conturbado devido às disputas territoriais e hostilidade contra o homem branco. Diferente de outra famosa obra de zumbis haitianos, A Morta-Viva de Jacques Tourneur, Craven é bem menos feérico em seu horror de estranhamento e bem mais explícito e vísceral, com uma violência que lembra seu início de carreira em sua crueza e reviravoltas que deixam o mundo contemporâneo e científico e o tradicionalista e superticioso em pé de igualdade, ambos capazes de violência, ambos ameaçadores, dois lados em uma disputa por território. Um campo de batalha à moda do terror setentista, que escancarou o realismo e varreu o onírico para debaixo do tapete.

-- Bernardo D.I. Brum

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Shocker - 100.000 Volts de Terror 1989

Com esperanças do diretor e da produtora Universal de deslanchar uma nova franquia que fizesse páreo a A Hora do Pesadelo, Shocker encontrou uma recepção fraca de crítica e público ao mostrar uma história em que um assassino serial, após ser condenado à cadeira elétrica pelas visões mediúnicas de um jogador de futebol americano, ganha a habilidade de possuir diferentes corpos e viajar através de correntes elétricas. Em absoluto, Shocker é um arremedo do clássico de Freddy Krueger, com um vilão bem mais "rústico" e menos astuto, pouco aproveitando as relações familiares e afetivas dos personagens e carregando as tintas em um camp melodramático e artificial, embalado pelo hard rock à moda da época com nomes como Paul Stanley e Alice Cooper. O terço final do filme é especialmente emblemático em mostrar os problemas do filme, ainda que bastante cômico - uma barriga narrativamente desnecessária onde o que salva é a inventividade de Craven, em uma das suas primeiras brincadeiras referenciais com a cultura pop, perdida em um filme que oscila entre o slasher genérico e o nonsense perdido, sem saber para onde atirar em sua tentativa de singularizar o filão com as novas possibilidades que arranha. Se O Novo Pesadelo era o ensaio para Pânico, Shocker foi a jam improvisada.

-- Bernardo D.I. Brum

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As Criaturas Atrás das Paredes 1991

Um garoto negro e carente entra em uma casa tradicional em busca de um tesouro e descobre que o casal tradicional esconde os visitantes incautos dentro do porão, onde privados e abusados tornam-se fisicamente deformados. A luta pela vida filmada por Wes Craven mostra ao contrário de Aniversário Macabro uma família degenerada e violenta desde o início, e na verdade as "criaturas" do título em português são um povo oprimido e assustado, tentando escapar por quaisquer meios que encontrem. Não é a primeira vez que um filme desmantela locações idealizadas por sonhos de consumo, mas Craven, pautado em extrair o lado sombrio de famílias tradicionais ameaçadas, agora investe em falar dos oprimidos que pagam o preço pela estabilidade dos "normais". Craven já jamais foi tão certeiro em suas alegorias quanto nesse filme, onde o horror é arquitetônico, com limites e plantas, com uma estrutura de normalidade e bizarrice, superfície e profundidade, tranquilidade e medo, refletida através da casa, simbolizando o conflito de uma forma que só poderia ter sido filmada mesmo por um dos baluartes daquela geração revoltada com tudo.

-- Bernardo D.I. Brum

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O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger 1994

Um dos motivos pelo qual Wes Craven sempre soube se diferenciar dos demais diretores de filmes de terror foi a autoconsciência e a aplicação inteligente de metalinguagem. No início dos anos 1990, com a situação minguantes dos slashers adolescentes que tinham saído de moda na década anterior, como ressuscitar aquele que foi o vilão mais emblemático e reapresentá-lo novamente interessante para outra geração? Nada melhor do que usar a falta criatividade e a crise como combustíveis para a própria superação e reinvenção. Novo Pesadelo brinca habilmente com a trama de filmes dentro de filmes, com elenco real se confundindo com os personagens e o próprio Craven transitando na trama em uma aparente crise criativa. Freddy Krueger é reinventado ao surgir como vilão na vida real, rompendo a barreira dos sonhos e a barreira da própria ficção cinematográfica para invadir e atormentar o nosso mundo, nós os que estamos do lado de cá da tela. Servindo de ensaio para a brincadeira metalingüística que viria com Pânico e construindo uma ponte para livrar a indústria da total crise, Novo Pesadelo é uma espécie de um 8½ particular e muito criativo de Wes Craven.

-- Heitor Romero

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Um Vampiro no Brooklyn 1995

A proposta de Um Vampiro no Brooklyn é promissora: inserir um personagem recortado de uma mitologia fantástica dentro de um cenário e contexto moderno e realista. Mais precisamente, colocar um vampiro no meio do bairro periférico novaiorquino do Brooklyn, predominantemente habitado por negros. Desse ponto de partida sairia uma divertida sátira ao racismo velado da América pós-segregação, além de uma aventura cômica comandada por Eddie Murphy, de quem veio o argumento inicial. Craven poderia muito bem comandar o espetáculo, sendo tão hábil na mistura do terror com o humor, mas o diretor parece completamente perdido e descaracterizado, engolido pela produção claramente dominada por Eddie Murphy e seu mau gosto característico. Diante de um roteiro que beira a mediocridade, resta a Craven apenas seguir os comandos do estúdio e apostar no carisma de Murphy, e por isso Um Vampiro do Brooklyn afunda e acaba aparecendo como o ponto mais baixo da carreira do cineasta.

-- Heitor Romero

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Pânico 1996

Em meados dos anos 90 o cinema de terror estava jogado às traças, muito por conta do desgaste sofrido na década anterior, com uma infinidade de produções de baixíssima qualidade e os famigerados “terrir”. Sem falar nas infindáveis continuações de franquias consagradas, uma pior que a outra. Coube então a Wes Craven, que já tinha marcado duas gerações diferentes do gênero, voltar à boa forma e injetar vida nova na parada. Pânico apareceu em 1996, com um elenco de jovens promessas (Drew Barrymore, Courteney Cox, David Arquette entre outros) e um novo ícone do slasher, o Ghostface. O longa é divertidíssimo e nos brinda com um roteiro afiado e inteligente, cortesia de Kevin Williamson. Mas acima de tudo, Pânico é um filme de terror de fãs para fãs, recheado de referências e metalinguagem. Craven brinca com todos os clichês e características do gênero, tomando inspiração nos clássicos Halloween, Sexta-Feira 13 e, por que não, A Hora do Pesadelo. A fita foi um sucesso, dando o pontapé no slasher adolescente, que incentivaria inúmeras cópias mal feitas e continuações caça-níquel, que nunca sequer atingiram o mesmo impacto e frescor do original.

-- Bruno Marise

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Pânico 2 1997

Inevitavelmente, Pânico 2 dificilmente vai além de replicar os acertos do primeiro, embora remende as arestas entre uma história e outra com certa dignidade. Há um evidente esforço de Craven e sua equipe em criar a impressão que, embora trate-se claramente duma sequência, o filme continua a história de seu antecessor de maneira tão natural e consistente, que poderia até tratar-se de uma sequência planejada. As referências cinematográficas permanecem em Pânico 2, e em muitas ocasiões os personagens brincam a respeito de como as sequências sempre são bastante inferiores aos filmes originais. A autodepreciação aqui não funciona como comentário irônico a respeito do que a acontece, mas como uma lembrança incômoda de que o material em questão não possui tanta qualidade. O trágico em Pânico 2 é que o filme respeita tanto seu percursor que decide pautar-se exclusivamente por ele, ao invés de si próprio. O resultado é uma versão consideravelmente menor de um filme que foi e ainda é muito, muito bom.

-- Guilherme Bakunin

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Música do Coração 1999

Poucos sabem, mas Wes Craven nunca teve como objetivo pessoal dirigir filmes de terror. Sua grande ambição profissional era comandar um filme mais “adulto” e sério. A primeira tentativa de fugir do gênero ao qual estava fadado foi com A Maldição de Samantha, quando procurou amenizar o máximo possível os efeitos do terror e da ficção-científica para se focar no núcleo dramático do roteiro. A ideia não vingou e ele teve de reeditar todo o trabalho como um tradicional suspense juvenil. Foram necessários anos para que ganhasse carta branca dos estúdios para filmar seu projeto pessoal, e só com o sucesso de Pânico que a chance chegou. Música do Coração é inesperadamente tocante, sensível, singelo e intuitivo, revelando um Craven que ninguém jamais havia sequer imaginado existir. Meryl Streep e sua delicada composição de uma mulher de meia idade abandonada pelo marido e que decide finalmente ir atrás de sua verdadeira paixão –a música –, encantou a todos e lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz. Foi o mais próximo que Craven chegou de realizar seu sonho, e mais do que o suficiente para provar esse seu outro lado, tão completo e afiado quanto o outro.

-- Heitor Romero

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Pânico 3 2000

Com toda a desenvoltura do recurso autorreferencial que banhou os dois primeiros Pânicos, fica fácil entender os que condenam a terceira parte. Sem Williamson no roteiro, toda a continuidade de eventos e ligações com os anteriores são resultados da riqueza que estes deixaram, e não méritos de Pânico 3. Outro artifício infeliz foi a introdução de sonhos de Sidney, algo que nunca foi preciso para apavorar quem assiste. Só que a alma de Ghostface nos faz não renegar o terceiro filho. Sidney está mais madura, evoluiu proporcionalmente ao que todos nós evoluímos ao acompanharmos suas primeiras aventuras. Esperamos até o último minuto para saber o que realmente houve com sua mãe e quem está por trás da máscara dessa vez. Randy volta para ditar as regras do fechamento de uma trilogia. Uma saída covarde do roteiro? Talvez. Mas, como personagem que representa a espinha dorsal da metalinguagem que consagrou a saga, vibramos com ele, mesmo que por poucos minutos, de volta. Os que aprenderam com Pânico e cresceram amando, perdoam os erros aqui. E perdoariam com ainda mais prazer a repetição de fórmula e algumas tosquices de Pânico 4, esse sim que veio para fechar com chave de outro a maior franquia de terror do cinema até os dias de hoje.

-- Ítalo Lobo

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Amaldiçoados 2005

Craven e Williamson retomaram a parceria de sucesso para tentar se reinventar mais uma vez com Amaldiçoados, onde a vencedora fórmula de Pânico foi usada em tom de paródia, com atores da moda (Christina Ricci, Joshua Jackson e Jesse Eisenberg, ainda novinho), contando uma história com tons sobrenaturais e previsível. O Lobisomem entra em cena, mas sem o mesmo brilho de outros filmes do diretor, sem inspiração, sem se decidir se será realmente comédia pastelão ou um assustador suspense. Acaba não fazendo bem nem um e nem outro, o que é decepcionante, principalmente pelo história de reinvenção de gênero que o diretor possuía.

-- Rodrigo Cunha

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Vôo Noturno 2005

O que pode ser mais assustador do que a realidade? Filmes com vôos ganharam outras conotações após o 11 de Setembro. Em Vôo Noturno, Wes Craven aproxima-se bem mais do real, especialmente comparado as suas obras anteriores quando trazia monstros. Aqui ele explora um pesadelo a bordo de um avião no meio da madrugada. Se o diretor é reconhecido por seus longas de horror, com esse filme ele prova seu talento na condução de uma história que acentua-se quando o suspense se faz vigente. E ainda que esteja longe – longe mesmo – de ser um grande filme, tem elementos que demarcam sua competência na condução narrativa, na elaboração da atmosfera e, principalmente, na direção de seus atores. São basicamente 3 atos dissolvidos com intersecção de gêneros, estando o suspense mencionado no recheio. Suas conclusões podem ser frustrantes, mas a previsão é delineada pelo roteiro: é como se esperassem que os espectadores pensassem o que fariam no lugar da vítima e assistissem posteriormente as escolhas dela. Craven jamais será lembrado por Vôo Noturno, mas Vôo Noturno será lembrado como um filme cujas limitações narrativas foram dribladas pela precisão de um realizador completamente ciente do que desejava mostrar ao seu público.

-- Marcelo Leme

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A Sétima Alma 2010

Defender a um filme como A Sétima Alma (My Soul to Take, 2010) não é algo fácil. O diretor àquela altura do campeonato já estava marcado com coisas fracas como Vôo Noturno (Red Eye, 2005) e Amaldiçoados (Cursed, 2005); qualquer trabalho que pudesse sair depois disso seria tomado pela maioria com extremo cuidado ou até mesmo com má vontade. O penúltimo longa-metragem do finado pode não ser excelente, mas tem consigo uma série de sacadas interessantes que indicam a leitura de seu autor em relação a uma nova geração – claro que utilizando como base para reflexão a questão do passado e a influência que aquele exerce sobre o presente. O curioso é que até mesmo quando A Sétima Alma escorrega dá para tirar algo digno de nota: por exemplo, quando em uma específica cena simples uma música do Franz Ferdinand é jogada de forma solta – visivelmente com o intuito de criar sintonia com o que vinha rolando no meio indie (Craven é cultura pop também, afinal). Meio bêbado, cambaleante e velho, mas de alguma forma isso cria uma atmosfera amarga quando a nostalgia bate – quase como se toda aquela fraqueza o impedisse de relembrar com lucidez o que um dia criou.

-- Victor Ramos

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Pânico 4 2011

O caso de Wes Craven é bem curioso: o homem começou colocando o dedo na ferida e logo em seguida viu a oportunidade de dar um sorriso por meio desse mesmo canal. A morte, outrora representada pelo uso do repugnante e do choque, passou a ser vista ao lado do estúpido e do imediato – características estas que terminaram por ajudar a moldar o que veio a ser popularmente definido como “slasher movie”. Claro que tudo isso pode ser considerado como uma consequência do dinamismo existente dentro dos processos de leitura contidos no fazer artístico. Pânico 4 (Scream 4, 2011) pode não ter o amargor no olhar que o irregular – porém interessante – A Sétima Alma (My Soul to Take, 2010) tem em sua releitura do passado, mas de forma geral é certamente o seu momento mais feliz desde pelo menos a década de noventa. A verdade é que o título aqui risca a faca com a mesma jovialidade de 96; pudera: o equilíbrio do velho Kevin Williamson caiu como uma luva para guiar Wes Craven em seu universo (a)temporal. A esta altura do campeonato isso aqui toma o papel de testamento.

-- Victor Ramos

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Créditos:

Organizador:

Heitor Romero

Redatores (ordem de aparição):

Guilherme Bakunin, Bruno Marise, Ítalo Lobo, Heitor Romero, Régis Trigo, Victor Ramos, Bernardo D.I. Brum, Rodrigo Cunha, Marcelo Leme

Design e Programação:

Rodrigo Cunha

Agradecimentos:

Alexandre Koball, Vinícius Hildebrandt, Josiane K, Daniel Dalpizzolo