Caio Blat e Maria Ribeiro receberam a equipe de Cineplayers para um bate-papo a respeito de Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos, filme protagonizado por eles, cuja estréia aconteceu na última sexta-feira.
Os atores, casados na vida real, vivem nas telas um jovem casal em crise que é perturbado ainda mais com a chegada de um terceiro elemento.
Cineplayers: Em 'Histórias de Amor Duram Apenas 90 Minutos' vocês encarnam marido e mulher, reprisando os papéis da vida real. Como surgiu essa oportunidade?
Caio Blat: Eu tenho essa coisa de me envolver muito em todos os projetos. Em todos os filmes que faço eu quero discutir o roteiro com o diretor, eu quero trazer amigos meus para dentro da equipe, é coisa da minha natureza. Nós fomos convidados a fazer esse filme e o Paulo (Halm, roteirista e diretor do filme) abriu a possibilidade de trabalharmos como casal. Nós sempre evitamos trabalhar juntos, porque é muito importante para cada um ter seu espaço. Só que nós ficamos completamente apaixonados pelo roteiro, achamos a história sensacional, muito contemporânea, que trata de relacionamentos da forma como poucos filmes fazem, que fala da gente mesmo, de gente de trinta anos.
Cineplayers: E como foi a experiência de filmar a intimidade de vocês?
Caio Blat: É aí que começamos a pesar as coisas, com todo o risco de estarmos expondo nossos corpos. No final, a gente achou que valia a pena entrar nessa. Pensamos em vários casais que trabalharam juntos filmando a relação. Eu amo os filmes do Woody Allen e o que ele fazia com as mulheres dele, discutindo a relação, discutindo a traição, o desejo, o ciúme, a crise. Tem o Domingos de Oliveira que fez vários filmes com a Priscilla (a atriz Priscila Rozenbaum), com as mulheres dele, discutindo relação...
Maria Ribeiro: Tem um diálogo que eu adoro, que o Domingos fala em Separações, mas que eu concordo em parte. Ele fala: “Se o trabalho é o melhor de tudo, como é que a gente vai perder essa?”. É uma coisa fascinante, realmente. Você juntar o prazer que tem pelo trabalho com a pessoa que você ama, é muito legal, porque você acaba dando o melhor de você.
Caio Blat: Não que não tenha sido difícil, não tenha sido sofrido. É complicado você estar apaixonado e chegar no set, durante dois meses, e ser parte de um casal em crise, que não tem mais interesse um pelo outro, que não está mais se entendendo direito. É um pouco constrangedor mesmo. Caramba, a gente pensou em tudo, só não pensou que agora tem que fazer uma cena de sexo aqui...
Maria Ribeiro: Eu realmente achei que fazer as cenas de sexo ia ser mole. “Ah, isso a gente não tem que se preocupar!” Mas não foi bem assim...
Cineplayers: Até porque é complicado chegar a um nível de intimidade em um set com mais quinze pessoas...
Caio Blat: É uma sensação engraçada porque a gente achou realmente que não ia ser um problema. Mas quando chegou a hora, foi tão constrangedor... É como se fosse um casal de verdade sendo filmado. Cheguei a pensar na hora de filmar que eu teria que dar um beijo técnico na minha esposa. É a minha mulher, mas está sendo filmado, vai ser mostrado! Mas aí você pensa que vai ter a luz do Nonato, que o roteiro é do Paulo, um mestre, tem a direção de arte da Renata Pinheiro, que eu considero um gênio... É todo um circo armado para a gente ser o centro das atenções, um presente que todo casal de atores sonha em ter, que não dá para recusar.
Cineplayers: Zeca, o personagem principal do filme, está passando por uma fase de transição, com a chegada – e recusa – da maturidade. O que há de Caio Blat nele?
Caio Blat: Eu acho que existe um sintoma geracional. Eu tenho muitos amigos que tem essa dificuldade com a chegada da maturidade, que estão saindo da casa dos pais cada vez mais tarde. As pessoas estão encarando relacionamentos sérios cada vez menos; eu vejo amigos de quase quarenta anos que não estão querendo ter filhos, e que só agora estão percebendo que não investiram nisso antes. Eu acho que a nossa geração é muito despolitizada, desinteressada. Eu sou o oposto, comecei a trabalhar com dez anos de idade, saí de casa com dezessete, e de alguns anos para cá tenho tomado bastante a rédea da minha carreira, para direcioná-la para o cinema e para o teatro. A oportunidade de dar esse direcionamento é um privilégio.
Maria Ribeiro: Mas nós temos amigos que dizem ser escritores, mas nunca escreveram nada, amigos que dizem ser cineastas, mas nunca fizeram um filme sequer. E que não conseguem se envolver com ninguém.
Caio Blat: Eu acho que nossa geração é um pouco careta nessa coisa de relacionamento. Se a gente for pensar nos anos 60, 70, houve um desbunde, um rompimento muito forte, com a posição da mulher radicalmente mudada. E até hoje a gente fica um pouco perdido, porque teve uma ressaca, com o advento da ditadura, da AIDS... Acho que houve uma regressão dos costumes. Por exemplo, o Zeca fica perdido diante de uma atração entre duas mulheres, e não sabe lidar com aquilo. Ele é homem, machista, criado pelo pai, e ainda fica desconcertado. É dificíl, ainda nos dias de hoje, falar sobre desejo, sobre traição. O filme se propõe um pouco a falar sobre isso. A graça do personagem não é uma graça de ser engraçado, é uma graça patética. Analisando do ponto técnico como ator, ele é um prato cheio, porque ele age na contra-vontade, ele sempre faz aquilo que ele não gostaria de fazer: ele não quer se envolver com aquela loira, ele não quer descobrir que o relacionamento dele está dando errado, ele não quer terminar o livro, então quanto mais o personagem sofre, mais engraçado o filme fica. É um cara sozinho, que tem dificuldades de crescer, é um cara criado por aquele pai durão, que não é carinhoso, que perdeu a mãe muito cedo.
Maria Ribeiro: Eu acho não casar uma coisa supercareta...
Caio Blat: As pessoas estão tendo uma dificuldade muito grande em se comprometer. Eu vejo vários amigos que estão numa relação há anos e se você perguntar “você ama, é a pessoa da sua vida?”, eles respondem “não, estou esperando, quero ter filho um dia, mas não agora”. As pessoas estão tendo dificuldades de se entregar, de se comprometer, e talvez seja mais ou menos isso que a Maria falou, que seja avançado as pessoas dividirem uma casa, ter filho. O normal hoje é as pessoas ir levando as coisas com a barriga, ir enrolando.
Cineplayers: É uma geração que não aconteceu?
Caio Blat: É uma não-geração, uma certa ressaca. Aconteceu uma explosão cultural, criativa, sexual, comportamental... tudo isso foi revirado no século passado, tudo ficou de cabeça para baixo. Até os yuppies tinham uma posição, eram executivos jovens que queriam se tornar milionários. Mas tudo foi por água abaixo. As drogas se tornaram uma roubada, a política se tornou uma roubada. Não adianta você querer mudar o mundo, não adianta querer que a esquerda mude o mundo. Há uma decepção muito grande com os ícones, com o PT. Fracassou tudo aquilo que a gente acreditava que ia mudar o mundo, que ia trazer novos valores. Até mesmo a revolução sexual trouxe uma geração mais careta ainda. Hoje as pessoas nem podem ter mais vários parceiros, tem que usar camisinha. Imagina como a coisa ficou mais constrangida.
Cineplayers: O filme traz uma linguagem muito próxima dos jovens dos 20, 30 anos, que não é retratada ou é mal retratada no cinema brasileiro.
Caio Blat: A Maria fala que uma coisa genial, que é o tipo de filme que a gente queria ver. Porque fala da gente, pra gente, é muito próximo do nosso universo, muito próximo do universo dos nossos amigos, então é um privilégio a gente se voltar um pouco para nossa própria turma. É um filme sobre a nossa geração, sobre pessoas próximas, nossos amigos. Espero que esse sentimento de que faltam filmes sobre isso faça com que bastante gente vá ao cinema.
Cineplayers: Quais são as expectativas em relação ao público?
Caio Blat: Eu acho que o filme vai ter muita sorte, que vai trazer muita sorte para a gente. É um filme contemporâneo, esperto. Ele é muito pequeno, a gente fez com um orçamento mínimo, equipe pequena, todos muito bem concentrados. E em todo lugar que a gente vai, as pessoas ficam encantadas. No Festival do Rio foi o filme nacional mais visto, mais procurado. A gente também ganhou prêmio do público em Portugal, eu ganhei prêmio em Goiânia.
Maria Ribeiro: Ele tem uma levada de público, eu acho...
Caio Blat: É um filme que surpreende as pessoas, despretensioso. Parece que é apenas uma comédia romântica. Eu espero que ele seja surpreendente, que faça uma carreira bonita. Ele tem toda a condição de conquistar o público, de atrair bastante gente. É muito gostoso de ver, muito atual, e isso é uma barreira do cinema brasileiro. De quinze, vinte filmes que eu fiz, apenas um fez boa bilheteria. Todos são maravilhosos, ganharam duzentos prêmios. Mas eu quero ver as pessoas indo ao cinema. Eu acredito que o filme tenha esse apelo.