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PERFIL
foto de Alfred Hitchcock

Alfred Hitchcock

• Idade: 80 anos
• Nascimento: 13/08/1899
• Falecimento: 29/04/1980
• País de nascimento: Inglaterra
• Local de nascimento: Leytonstone, London

Alfred Hitchcock, um dos nomes mais importantes de toda a história do cinema, finalmente recebe nossa devida atenção.

O gênio do cinema. Podemos perfeitamente assim iniciar o perfil do melhor diretor de todos os tempos, o “Mestre do Suspense” (apelido dado por ele mesmo, se autopromovendo), responsável por nada mais, nada menos do que alguns dos melhores filmes da história. Tinha algumas características únicas que, sem dúvida nenhuma, o transformou junto com seu talento no diretor mais famoso que já existiu.

Nascido em Leytonstone, Londres, no dia 13 de Agosto de 1899, o inglês teve severa educação dos pais católicos, o que serviu diretamente em seu interesse pelo crime. Insistia em viajar de ônibus interurbanos e, como o pai era contra, puniu-lhe deixando-o preso por alguns minutos em uma cadeia onde era amigo do delegado. Desde então, Hitchcock adquiriu fobia a policiais, ironicamente os incluindo em quase todos os seus filmes.

Em 1919, com apenas 20 anos, conseguiu seu primeiro emprego na área cinematográfica. Foi nos estúdios da Players-Lasky, onde fazia interlúdios de títulos nos filmes, onde aprendeu a escrever roteiros, editar e diversos outros recursos ligados a arte. Seu primeiro filme foi The Pleasure Garden, de 1925, apesar de ter substituído o diretor em Always Tell Your Wife, em 1922, e escrever roteiros desde 1923.

Em 1926, em seu terceiro filme chamado O Inimigo das Loiras (The Lodger), Hitchcock começou a nos encantar com seu dom de fazer suspense. Fala sobre Jack, um homem que é injustamente acusado de um crime após ser confundido com o Estripador homônimo. Ele também pontilha o início de uma das mais marcantes características do diretor, a de fazer pequenas pontas em seus filmes. Característica que, por sinal, teve que ser alterada com o tempo: ele já não mais aparecia no meio de seus trabalhos, pois as pessoas ficavam entretidas a achá-lo e perdiam a atenção na trama principal, começando a aparecer então logo no início de seus filmes subseqüentes.

Nesse mesmo ano se casou com a também do ramo Alma Reville, mulher no qual nunca mais largou. Em 1928, nascia Patrícia, filha do diretor e que fez pontas em alguns filmes do pai (a secretária de Psicose, a irmã de Pacto Sinistro, etc). Dirigiu filmes britânicos até A Estalagem Maldita (Jamaica Inn, 1939), quando se mudou para os EUA. Contratado por David O. Selznick (produtor de E o Vento Levou e Começou em Nápoles), recebeu 800.000 dólares para realizar cinco filmes.

Desse contrato saiu um de seus maiores sucessos, Rebecca: A Mulher Inesquecível (Rebecca, 1940), a primeira fita do diretor a ganhar Oscar de melhor filme. A obra é realmente fantástica: fala de um homem viúvo que se casa com uma jovem, após sua ex-mulher falecer (interpretada por Joan Fontaine, que foi indicada ao Oscar por este trabalho). Com o desenrolar da história, a menina sofre com a “sombra” da ex-mulher, perfeitamente representada pela empregada da casa, inclusive no visual, onde Hitch a colocou com longos vestidos, que davam a impressão de fazê-la flutuar, afirmando e representando a fantasma da ex-mulher do dono da casa, tão amada por ela. Não sendo somente um filme com uma bela história, Hitchcock confirma sua genialidade através das técnicas utilizadas, extremamente avançadas e cheias recursos. A abertura já fala por si só: longos planos sequentes, efeitos de luz e fumaça para já introduzir o público ao clima que está entrando.

Ainda neste ano produziu o ótimo Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent, 1940), filme que trata de conspirações internacionais descobertas por um simples correspondente estrangeiro curioso a trabalho. É uma pena que aqui haja um deslize americanizado tão repudiado em certos filmes atuais, como Pearl Harbor e Independence Day. Aliás, algo que ele pode ter sido obrigado a incluir em seu filme, já que não foi ele o autor do roteiro. Deixemos isso de lado, há crédito suficiente em sua conta para tal deslize ser ignorado. No ano seguinte, Joan novamente fora indicada ao Oscar, porém desta vez levando a estatueta para casa por seu trabalho em Suspeita (Suspicion, 1941), terceiro filme americano do diretor que começava a se consagrar mestre em dirigir atrizes. Más línguas sempre falaram que paixões platônicas por elas eram consumidas internamente, algo nunca confirmado.

Diretor sempre muito inovador e criativo, nunca tinha medo de arriscar. Festim Diabólico (Rope, 1948) é um filme extremamente complexo e ousado: rodado todo com apenas oito cortes. Para não encarecer demais sua produção, todas as tomadas eram exaustivamente ensaiadas, com cenários móveis para facilitar a movimentação da câmera pelo set. Essa técnica, contudo, nunca mais foi usada, pois apesar dos incansáveis ensaios, o custo de uma produção desse escalão era muito elevado. Em todos os seus filmes, aliás, os planos eram estudados a fundo, muitas vezes o poupando da necessidade de olhar pelo visor da câmera com a certeza de que o pensado iria funcionar na prática.

Em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) criou uma enorme vizinhança nos estúdios da Paramount para poder ambientar sua trama de um jornalista, com a perna fraturada, que se envolve com as vidas dos vizinhos, ocupando assim o seu ócio e desconfiando de um assassinato cometido por um deles. James Stewart impecável, Grace Kelly inesquecível. No ano seguinte dirigiu Ladrão de Casaca (To Catch a Thief, 1955), muito mais romance do que suspense, mas com uma temática secundária de crimes, para variar. É um dos filmes que o diretor menos simpatiza, talvez pelo fato de ter perdido sua loira Grace Kelly, que conheceu o marido, o Príncipe Rainier de Mônaco, durante as filmagens, abandonando o cinema para sempre em seguida.

Em 1955, ganhou o seu próprio programa de televisão (“Alfred Hitchcock Presentes...”), o que aumentou muito a sua popularidade e o transformou em um homem rico. O programa, que trazia diversos episódios com histórias de crimes e mistérios, durou até 1961.

Um Corpo que Cai (Vertigo, 1958) é considerado por muitos a obra máxima de Hitchcock. James Stewart encarna um detetive prestes a se aposentar por um trauma do passado. Ele é contratado por um amigo para seguir sua mulher, que desconfia estar sendo possuída por um espírito, e acaba se apaixonando por ela. Depois de sua morte, tem que enfrentar todo o drama psicológico de achar estar sendo perseguido pela alma dela. O filme é um marco, fantástico em sua evolução, e serve de exemplo para as injustiças que a Academia faz: só foi indicado nas categorias de melhor Som e Direção de Arte ao Oscar de 1959. Pelo menos levou a segunda estatueta para casa.

No seu clássico absoluto, a obra-prima Psicose (Psycho, 1960), Hitchcock quebrou todas as barreiras imagináveis do Cinema. Além de rodá-lo propositalmente com um baixo orçamento (600.000 dólares, ao contrário dos 3 milhões investidos no último filme), mostrou pela primeira vez na história do cinema um vaso sanitário (até então proibido pela censura), filmou todo em preto e branco (ignorando a tecnologia das cores para não criar um contraste com o sangue), escondeu uma forte sexualidade (a cena em que Norman vai atender o balcão e diz que estava comendo, quando na verdade estava transando com a protagonista), enfim, quebrou todas as barreiras possíveis e de tudo o que já havia criado antes. Claro, isso sem falar na maravilhosa história com uma surpreendente (e quase única) troca de protagonistas no meio da produção, executada perfeitamente. A cena do chuveiro é uma das mais clássicas já vistas, com o gênio utilizando calda de chocolate para representar todo o sangue visto em tela.

Usou e abusou de recursos especiais em seus voadores de Os Pássaros (The Birds, 1963) para perseguir sua protagonista. Encerrou sua carreira com Trama Macabra (Family Plot, 1976), falecendo por complicações renais quatro anos depois. Além de todos esses filmes, Hitchcock tinha uma maneira muito peculiar de tratar com seus atores: sempre se referia a eles como sendo seu “gado”. Seu respeito dentro do cinema era tanto que ninguém ousava abrir a boca durante suas gravações.

Com todos esses sustos e cinismo ao seu redor, é até irônico pensar que, na verdade, Hitchcock era um homem caseiro, amante de sua família e um ótimo gourmet. É simplesmente inaceitável que a Academia nunca o tenha premiado com um Oscar de melhor diretor, ficando somente com as cinco indicações e o prêmio por sua obra dado em 1967.

Atualizando - 03/03/2005

Recentemente, escrevi mais um pouco sobre outros de seus filmes. Por isso, conheçam mais algumas obras do gênio:

Rebecca - A Mulher Inesquecível (1940)

Sr. Alfred Hitchcock foi trazido da Inglaterra por David O. Selznick, que havia acabado de faturar uma boa quantidade de Oscar pelo seu épico E o Vento Levou. Acreditando no potencial do quase menino Hitchcock, deixou em suas mãos um ambicioso projeto que contava a história de uma jovem mulher, interpretada por Joe Fontaine, que conhece e se casa com um rico nobre inglês chamado 'de Winter' (Laurence Olivier, do clássico O Morro dos Ventos Uivantes). Quando vai morar na mansão de seu esposo, ela descobre que ele é viúvo de uma mulher que muito amava, morta de forma trágica. Gradativamente, se vê à sombra da antiga esposa, tendo que se vestir igual a ela, ter os mesmos hábitos e tudo mais. Tudo controlado pela sinistra Sra. Denvers, que mais parecia um fantasma na história.

A submissão de nossa protagonista ao novo mundo a seu redor era tanta que nem um nome fixo ela possui. Era conhecida apenas como a Sra. de Winter, exatamente como a outra esposa era chamada. O filme foi premiado com a estatueta de Melhor Filme naquele ano, que Hitchcock considerava de Selznick, e não um prêmio seu. Isso porque essa categoria premia os produtores dos longas, e não seus diretores, que possuem uma categoria própria na premiação. Deixar o 'Mestre do Suspense' sem o devido reconhecimento foi uma das maiores injustiças de todos os Oscar da história. Pelo menos ficou a marca de, em apenas o seu primeiro trabalho dentro de Hollywood, já faturar a maior premiação que os EUA dava a seus filmes.

Correspondente Estrangeiro (1940)

No mesmo ano de Rebecca, Hitchcock fez um thriller fantástico, que persiste até hoje com seu charme e mistério, chamado Correspondente Estrangeiro. Conta a história de Johnny Jones (Joel McCrea), um correspondente de um jornal de Nova York que vai à Europa com um nome falso para cobrir aquilo que seria um inevitável começo da Segunda Guerra Mundial. Durante um turno de trabalho, presencia a morte do diplomata holandês Van Meer (Albert Bassermann). Tudo se complica quando ele descobre que quem morreu na verdade não foi o diplomata, e sim um sósia, e que na verdade ele fora seqüestrado por agentes que desejam um segredo seu.

Nesse filme, Hitchcock utiliza pela primeira vez um recurso que se tornaria sua marca registrada posteriormente, o famoso MacGuffin. É uma técnica de roteiro que permite o diretor prender as pessoas à história sob algo que, na verdade, não é interessante para sua resolução. Nesse caso, o filme nos mantém curiosos sobre o tal segredo, que quando é revelado, pouco depois da metade, demonstra não ser o real interesse da história, que, na verdade, quer aprofundar o psicológico dos personagens em meio à situação gerada. Não muda em absolutamente nada descobrirmos o ponto inicial de tudo, o segredo que deu o pontapé inicial da investigação. É importante saber o que é o MacGuffin em um caso simples como esse para entender melhor obras mais complexas do diretor, como Interlúdio e Intriga Internacional, que também utilizam do mesmo recurso, só que de maneira ainda mais confusa.

Interlúdio (1946)

Passado no Rio de Janeiro, conta a história de Alicia (Ingrid Bergman) e Devlin (Cary Grant), dois pólos completamente opostos que acabam se apaixonando devido ao tempo em que trabalharam juntos. Ela é filha de um espião alemão preso pelo governo dos EUA e, para evitar a morte do pai, é obrigada a ajudar o governo americano a prender inimigos mais importantes. Ele é um agente do governo que vai comandar a operação, monitorando para que tudo saia nos mais perfeitos moldes planejados.

Cary Grant e Ingrid Bergman fazem um casal incrivelmente belo. O diretor havia acabado de trabalhar com a atriz em Quando Fala o Coração, um ano antes. Atriz importante, já consagrada por seu imortal papel em Casablanca (não, ela não levou o Oscar para casa; nem ao menos indicada foi), foi uma adição bastante significativa à obra. Cary Grant dispensa apresentações. Já era absurdamente famoso por papéis como nas comédias Núpcias de Escândalo e Levada da Breca. Havia recusado a trabalhar com Hitchcock em Correspondente Estrangeiro, mas não deixou a segunda oportunidade passar e logo se agarrou ao papel principal do filme.

Aqui, o MacGuffin também é usado, de forma bem mais complexa, pois o segredo que o inimigo dos estadunidenses em nada interessava para a história. Estávamos ligados mesmo é no romance entre Alicia e Devlin, até o espetacular final que mistura diversas sensações que só um gênio como Hitchcock sabe criar sem que soe de forma estranha.

Ladrão de Casaca (1955)

Apesar de tudo o que foi dito sobre Interlúdio, ele não é um romance propriamente dito. Ladrão de Casaca sim poderia se encaixar perfeitamente em tal gênero. É, disparado, o filme mais romântico de Hitchcock. Novamente trabalhando com Cary Grant, conta a história de John Robie, um ex-ladrão de jóias que se torna o principal suspeito de um roubo de várias peças de luxuosos hotéis. Ele vê a oportunidade de pegar o verdadeiro bandido quando conhece a rica Frances (Grace Kelly), já que pode usá-la como isca em um plano que acaba tomando proporções bastante dramáticas.

Reza a lenda que todos que trabalhavam com Grace Kelly se apaixonavam por ela. Dizem até que o próprio Hitchcock, homem de família e respeitoso, fazia parte do bolo, de forma não assumida. O fato é que toda a beleza da atriz é utilizada em prol do filme, com belíssimas tomadas completamente apaixonadas e elevando ainda mais toda a estética natural disponível por ela, bem como foi feito na obra-prima Janela Indiscreta. O filme acabou faturando o Oscar de Melhor Fotografia.

Intriga Internacional (1959)

Um ano antes de fazer sua obra máxima, Hitchcock se mostrou em uma fase absolutamente inspirada. Um Corpo que Cai, Intriga Internacional e Psicose, se tivessem uma ligação, poderiam ser considerados a melhor trilogia de toda a história do cinema, com o diferencial que foram feitos apenas com um ano de diferença entre cada. Aqui o MacGuffin é elevado ao máximo, tendo um valor absolutamente vazio dentro da trama em si.

Uma das histórias mais fantásticas do diretor. Roger Thornill é um publicitário, cidadão correto como o manual do bom comportamento define. Em um dia, do nada, é confundido com um agente secreto e acaba, sem querer, entrando em uma confusão inimaginável. Algumas cenas entraram para a história, como a do avião que tenta matar Roger, e o final, em pleno Monte Rushemore (aquele com o rosto dos 4 presidentes esculpidos na pedra). Fica difícil falar mais sobre o filme sem soltar alguma informação importante, claro, sem me referir ao MacGuffin, porque o segredo que o espião carrega obviamente não existe, a partir do ponto que ele simplesmente não é o homem que os rapazes acreditam ter prendido.

Cortina Rasgada (1966)

O filme mais criticado de Hitchcock. Isso porque ele simplesmente não parece ser um trabalho do diretor e, quando traz suas características, não sentimos nada de novo. Porém, vou contra esses argumentos e digo que ele tem, na verdade, uma identidade própria. Após ter a verba de suas pesquisas cortada, o cientista Michael Armstrong (Paul Newman) vai para Copenhagen participar de um congresso sobre física. Sua noiva (Julie Andrews, de A Noviça Rebelde) o segue e, sem querer, descobre que ele pode estar envolvido com os alemães, afim de continuar seus estudos financiados por eles.

Possui um desenvolvimento brilhante e algumas ótimas cenas de suspense, principalmente a do ônibus. O problema maior aqui é que ele não tem os diálogos característicos de Hitchcock, cheios de humor negro, que distraem um pouco o público da tensão. Tudo é muito direto e cru. Há também uma das cenas de assassinato mais espetaculares de toda a carreira do diretor, que demonstra perfeitamente o quão difícil é matar uma pessoa. É algo agoniante, forte e realmente impressionante - alguns chegaram a fazer a infeliz comparação do término do assassinato (que se fecha com uma pessoa morrendo com gás de fogão) com as temíveis câmaras de gás dos alemães. Imaginação fértil é pouco, viu...

Por Rodrigo Cunha, em 02/11/2006

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