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PERFIL
foto de Dennis Hopper

Dennis Hopper

• Idade: 74 anos
• Nascimento: 17/05/1936
• Falecimento: 29/05/2010
• País de nascimento: Estados Unidos
• Local de nascimento: Dodge City, Kansas

Uma das figuras mais polêmicas de Hollywood, morreu em 29 de maio de 2010 por complicações com um câncer na próstata.

Se fosse possível resumir a vida de um homem numa única palavra, a de Dennis Hopper exigiria a reunião de várias delas: louco, doido varrido, rebelde, enfant-terrible, alcoólatra, drogado, talentoso, psicótico, violento, e maníaco-depressivo. Sim, ele era tudo isso e muito mais. Mas apesar de todos esses adjetivos (nem todos abonadores), será que, afinal de contas, sabemos quem foi Dennnis Hooper?

Dennis Lee Hopper nasceu em Dodge City, Kansas, em março de 1936. Passou a maior parte da sua infância com seus avós. Após a 2ª Guerra Mundial, ele se mudou para Kansas City. O jovem Hopper dividia seu tempo entre a escola e as aulas de artes dramáticas, que freqüentava aos sábados, na Kansas City Art Institute. Aos 13 anos, sua família deslocou-se para San Diego. Nessa fase, o bichinho do cinema o fisgou e ele ficou obcecado por tudo o que dizia respeito à sétima arte. Ainda em San Diego, Hopper ganhou uma bolsa de estudos no teatro local, o que o permitiu a encarar seus primeiros textos de Shakespeare. Do teatro, ele conseguiu uma chance na série Medics, da rede de TV NBC, em que vivia um epilético. Logo em seguida, Hooper assinou com a Warner Bros, cujo chefão ficara impressionado com o boato que rolava em Hollywood, segundo o qual Hopper xingara o dono da Columbia, Harry Cohn, após esse ter criticado suas atuações no palco.

Hopper era incrivelmente auto-confiante. Ele se achava o "cara". Essa sensação durou até o dia em que conheceu James Dean, no set do clássico Juventude Transviada, de Nicholas Ray. Hopper ficou admirado por aquele jovem baixinho, topetudo e descolado. Por seu intermédio, ele conheceu pela primeira vez as técnicas de interpretação da Actor´s Studio. Hopper sempre citava a instrução que recebera de Dean sobre como fumar um cigarro diante das telas: "apenas fume o cigarro e não aja como você estivesse tragando um."

Eles trabalharam juntos mais uma vez, no épico Assim Caminha a Humanidade, de George Stevens, em que Hopper fazia o filho do personagem de Rock Hudson. A morte de Dean, logo após as filmagens, o abalou profundamente. Na falta de seu ídolo e mentor, Hopper viu a oportunidade de ocupar o vácuo que se formara, apropriando-se das imagem, das técnicas e da rebeldia de Dean. Isso fez com que ele, em 1958, durante as filmagens de Caçada Humana, confrontasse as ordens do veterano diretor Henry Hathaway. Resultado: aos 21 anos, Hopper estava queimado em Hollywood.

Sem espaço na terra do cinema, ele se mudou para Nova York, onde atuou na Broadway e na televisão. Hopper aproveitou a efervescência cultural da cidade para expandir seus horizontes. Foi nessa época que começou a cursar as aulas de Lee Strasberg, a pintar, a escrever poesias, a fazer os primeiros experimentos com a fotografia e a colecionar obras de arte, que incluía trabalhos de Jasper Johns, Roy Lichtenstein e Andy Warhol. Hopper perderia uma dessas coleções na divisão de bens de seu primeiro divórcio. Adquirida por U$ 28 mil, em 2000 ela valeria algo em torno de U$ 40 e 60 milhões.

Na segunda metade da década de 60, já casado com Brooke Hayward (filha de Margaret Sullavan), Hopper voltou à Hollywood, onde aos poucos conseguiu um espaço em papéis coadjuvantes. Em 1965, esteve ao lado de John Wayne, no faroeste Os Filhos de Katie Elder (ironicamente dirigido pelo mesmo Henry Hathaway). Dois anos depois, interpretou Babalugats, no policial Rebeldia Indomável. Em 1968, fez um personagem secundário em A Marca da Forca, com trazia um Clint Eastwood em ascensão como protagonista. Em 1969, voltou a atuar num faroeste com John Wayne, Bravura Indômita. Anos depois, em 1994, num talk-show, Hopper confessou que Wayne foi o grande responsável pela sua volta às telas de cinema, após um período 7 anos de inatividade e má reputação.

Por volta dessa época, Hopper cansou de ser colocado pra escanteio pelos grandes estúdios e resolveu dirigir seu próprio filme. Procurou os produtores Bert Schneider e Bob Rafelson, que eram conhecidos por dar plena liberdade criativa a diretores iniciantes. Hopper levou seu amigo Peter Fonda a tiracolo. Dois anos antes, ambos haviam trabalhado em Viagem ao Mundo da Alucinação, um daqueles vários filmes de motocicletas dirigidos por Roger Corman. Eles propuseram a história de dois motoqueiros – Billy e Wyatt – que cruzam os Estados Unidos regados a doses cavalares de bebida e drogas. Nascia ali o projeto de Sem Destino, um divisor de águas na cinematografia americana e que mudaria radicalmente a produção dos filmes durante toda a década seguinte.

Após uma filmagem das mais conturbadas, Sem Destino foi lançado no final de 1969, rendeu uma montanha de dinheiro, e indicações ao Oscar de melhor roteiro original e melhor ator coadjuvante (Jack Nicholson) e o prêmio de filme de estréia no Festival de Cannes.

Com o sucesso de Sem Destino, Hopper passou a se ver como um verdadeiro autor, no sentido "Cahiers du Cinema" da palavra. Ele sabia que seu filme comprovara que o público americano amadurecera. Ninguém suportava mais ver nas telas produções que nada diziam sobre a realidade vivida pelos EUA naquele exato instante histórico, quando milhares de jovens morriam a troco de nada em solo vietnamita. A platéia ansiava por uma temática mais adulta e que retratasse as convulsões sociais do momento, não só na America como também no mundo. Hopper quis ser o porta-voz dessa geração. Seu trabalho seguinte, O Último Filme, era a prova disso. Fortemente influenciado pelo estilo de Godard, Hopper queria contar a degradação da América pelo viés do faroeste (no fundo, Sem Destino não deixava de também ser um faroeste, com as motos no lugar dos cavalos). No entanto, por mais liberais que fossem os produtores Schneider e Rafelson, eles não estavam nem um pouco a fim de encarar o gênio instável (pra dizer o mínimo) de Hopper. O roteiro ainda previa locações no Peru, o que elevava o orçamento para patamares arriscados demais para se investir. Pra piorar, nenhum dos atores que eram testados por Hopper para o papel principal o agradava, motivo suficiente para que ele se escalasse na função. Foi a gota d´água. Após a longa noite de loucuras das filmagens de Sem Destino, nenhum produtor era louco o bastante para bancar Hopper novamente atrás das câmeras. Imagine, então, à frente delas.

Mesmo com toda essa fama, Hopper conseguiu convencer a Universal a lhe financiar o projeto. Com U$ 1 milhão no bolso, ele se mandou para o Peru e por lá ficou filmando praticamente durante todo o ano de 1970. Ao seu lado, estavam alguns de seus amigos e ídolos, como o ator e cantor Kris Kristofferson e o cineasta Samuel Fuller, a quem ele já havia reservado alguns personagens no roteiro. Depois de filmar sem parar, Hopper tinha horas e horas de material para editar. Ele se trancou na sua casa, no Novo México, e prometeu entregar o trabalho até o final do ano. No entanto, as drogas e as bebidas fizeram que ele só conseguisse dar conta do recado com quatro meses de atraso. Lançado em 1971, O Último Filme recebeu o Prêmio da Crítica do no Festival de Veneza, mas foi um estrondoso fracasso de bilheteria nos EUA. Após duas semanas de exibição em apenas um cinema de Nova York, os produtores resolveram tirá-lo de cartaz para diminuir os prejuízos. Hopper só voltaria a dirigir novamente uma década depois.

Entre 1971 e 1976, Hopper praticamente sumiu do mapa de Hollywood. Ele voltou a dar as caras em O Amigo Americano, elogiada adaptação do romance de Patricia Highsmith, dirigida por Wim Wenders, na qual interpretava o enigmático personagem título. Dois anos depois, no auge do vício da bebida e das drogas, apareceu em Apocalipse Now, egotrip dirigida por Francis Ford Coppola, em que interpretou – talvez sem muita consciência do que estava fazendo – um repórter que se enfiava na selva vietnamita em busca de fotos do Coronel Kurtz, papel vivido por Marlon Brando.

Em 1980, Hopper resolveu se arriscar novamente atrás das câmeras e dirigiu Anos de Rebeldia. Rodado no Canadá, o filme contava a história de uma garota punk de 15 anos (Linda Manz), que lutava para sair ilesa de uma família problemática (não por coincidência, Hopper interpretava seu pai alcoólatra) e de amigos viciados em drogas. A produção participou na mostra oficial do Festival de Cannes (perdeu para All That Jazz - O Show Deve Continuar e Kagemusha - A Sombra do Samurai), e foi bem recebida nos EUA (Jonathan Rosembaun, ex-jornalista do Chicago Reader e um dos mais respeitados críticos americanos, o relacionou na sua lista dos 15 melhores filmes da década de 80). Hopper estava de volta.

Apesar de ser novamente respeitado pela indústria cinematográfica, Hopper estava bebendo e se drogando cada vez mais. Naquela época, sua média diária de consumo era de três gramas de cocaína, dezenas garrafas de cervejas, e doses litométricas de tequilas e cubas libres. O ator se tocou que a coisa já tinha saído do seu controle e, em 1983, internou-se num programa de reabilitação. Após alguns meses, aparentemente recuperado, Hopper voltou a ser dirigido por Francis Coppola, no cultuado O Selvagem da Motocicleta, uma das produções de baixo orçamento que o cineasta se viu obrigado a realizar ao longo dos anos 80, após o retumbante fracasso de O Fundo do Coração. Hopper interpretava o pai (novamente com problemas de alcoolismo) do personagem de Matt Dillon e Mickey Rourke.

Seu retorno se consolidou para valer em 1986, quando o ator lançou cinco filmes em sequência. Alguns deles, como O Massacre da Serra Elétrica 2, de Tobe Hooper (sem parentesco), e Juventude Assassina, de Tim Hunter, não deixaram maiores impressões. Mas sua carreira seria marcada por outros dois trabalhos. Em Momentos Decisivos, de David Anspaugh, o ator interpretava Shooter, papel que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor ator coadjuvante (perdeu para Michael Caine, por Hannah e Suas Irmãs). Curiosamente, apesar da indicação ao Oscar, é pelo outro filme que Hopper será sempre mais lembrado. Em Veludo Azul, de David Lynch, o ator encarnava Frank Booth, o psicótico marido da personagem masoquista Dorothy Vallens (Isabella Rossellini). Ficaram famosas as sequências em que ele inalava um gás misterioso e gritava "mommy!!". Por esse papel, Hopper ganhou o prêmio de melhor ator coadjuvante pelos críticos de Los Angeles e Boston e pela Associação Nacional de Críticos do EUA, além de ter sido indicado ao Globo de Ouro na mesma categoria.

Após um ano tão produtivo, Hopper voltou a conquistar a confiança dos estúdios. Isso abriu espaço para que ele dirigisse As Cores da Violência, seu quarto filme e certamente aquele de maior orçamento. Robert Duvall e Sean Penn interpretavam dois policiais que lutavam contra a violência das ruas de Los Angeles. Apesar dos nomes envolvidos na produção, o roteiro não conseguiu escapar dos clichês do gênero (policial veterano x policial novato). A recepção da crítica americana foi morna e a expectativa que se formou em torno do filme não se confirmou.

Pior ainda foi sua experiência seguinte na direção, em 1990, uma miscelânea chamada Atraída Pelo Perigo, com Jodie Foster no papel principal. Hopper brigou com o estúdio, que remontou o filme à sua revelia e o lançou com o título original de Catchfire. Em reposta, ele se recusou a assinar a direção, que acabou sendo creditada ao eterno parceiro dessas horas, Alan Smithee. Tempos depois, a TV americana exibiu aquela que seria a versão reconhecida por Hopper, com o título Backtrack.
 
Apesar desse quiproquós com o estúdio, Hopper teve tempo de lançar um outro filme ainda em 1990, batizado no Brasil de The Hot Spot - Um Local Muito Quente. Estrelado por Don Johnson, Jennifer Connelly e Virginia Madsen, a fita era uma incursão pelo gênero noir, estranha de mistura de Corpos Ardentes, O Destino Bate à Sua Porta e Gata em Teto de Zinco Quente. Seu maior trunfo era a construção do clima e da tensão sexual entre o trio central, elemento fundamental para que o público embarcasse na trama. No entanto, o filme era banal e descartável demais e logo foi caindo no esquecimento.

Dali em diante, Hopper passou a aceitar praticamente todos os projetos que lhe eram oferecidos, como se tivesse a consciência de que somente o trabalho incessante o manteria afastado da bebida e da cocaína. Se fosse indagado, provavelmente Hopper nem se lembraria de como embarcara em muitos desses filmes e muito menos se orgulharia de tê-los feito. Mesmo assim, mesmo em papeis coadjuvantes, ele deixou sua marca em várias dessas produções, como em Unidos pelo Sangue, de Sean Penn; Morte por Encomenda, de John Dahal; Amor à Queima Roupa, de Tony Scott; Velocidade Máxima, de Jan de Bont, Waterworld - O Segredo das Águas, de Kevin Reynolds; Atos de Amor, talvez o melhor filme de Bruno Barreto nos EUA; Basquiat - Traços de uma Vida, de Julian Schnabel; Edtv, de Ron Howard; Fatal, de Isabel Coixet (uma de suas melhores interpretações); e Palermo Shooting, de Wim Wenders. Entre 2008 e 2009, ainda encontrou forças para participar de 26 episódios de Crash, série de TV baseada no filme homônimo de 2005.

Sua última aparição diante das câmeras foi em fevereiro de 2010, quando deixou sua marca na calçada da fama em Hollywood. Visivelmente debilitado pelo câncer, Hooper sabia que o fim estava próximo. Ele morreria três meses depois, em 29 de maio de 2010, aos 74 anos. Dennis Hopper é daquelas personalidades que os americanos costumam chamar de bigger than life, que vivia sempre no limite (muitas vezes, além do limite), para quem uma só vida não bastava. Durante o tempo que esteve conosco, deixou como o legado o retrato de artista que encontrou um modo de se expressar por meio do talento e da rebeldia (ou vice-versa).

Por Régis Trigo, em 09/06/2010

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