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Análise: A experiência sem igual de revisitar Twin Peaks

Categoria: Geral
Por Heitor Romero
E a oportunidade única de ver David Lynch em ação após mais de uma década.

Quando Twin Peaks veio ao mundo nos anos 1990 e trouxe consigo o enigma da morte da jovem Laura Palmer (Sheryl Lee), era inimaginável para qualquer pessoa que o diretor Davi Lynch partiria daquela premissa policial aparentemente simples para a inacreditável experiência que se concluiu nesta semana com a exibição do último episódio da terceira temporada da série. A tão aguarda continuação após o cancelamento abrupto da segunda temporada, veio depois de um período de mais de vinte anos, e ao contrário do que todos esperavam (como sempre é em se tratando de David Lynch), seu objetivo jamais foi concluir ou fechar as pontas soltas deixadas em 1991. Para ser mais específico, a terceira temporada de Twin Peaks é o simétrico oposto das duas primeiras, ainda que haja um ponto óbvio de conexão narrativa entre as três. Se nas temporadas 1 e 2 os criadores começaram com uma investigação policial com ares de novela e brincando com os limites dos formatos entre cinema e TV, para depois aos poucos diluírem essa estrutura em uma experiência cada vez mais estranha e onírica, agora na terceira o ponto de partida é o exato inverso. 

O destino do agente Dale Cooper (Kyle MacLachlan) permaneceu um mistério durante esses anos em que a série esteve fora do ar. Na tentativa de salvar sua amada Annie Blackburn (Heather Graham), ele havia sido atraído para a misteriosa Sala Vermelha, um lugar extradimensional que interliga a Black e a White Lodge, dois locais opostos que abrigam, cada qual, entidades e espíritos bons ou maus. Uma vez preso em outra dimensão, ele encontrou seu doppelgänger (uma representação folclórica de seu lado mau) e foi substituído por ele, ficando sua alma verdadeira presa na Black Lodge, enquanto seu duplo voltava para a nossa realidade sem levantar suspeitas. Agora que os 25 anos prometidos por Laura se passaram, Cooper terá a chance de retornar à nossa dimensão, mas o espírito BOB, que antes possuía Leland Palmer (Ray Wise), tem o controle sobre o doppelgänger de Cooper, e elaborou um plano para que esse retorno não aconteça como o esperado. 

Partindo de uma lógica inversa, Lynch e Frost agora começam no limbo, no abstrato e no extradimensional para aos poucos esclarecerem pontos de apoio e reconhecimento. A própria Twin Peaks deixa de ser onipresente e se torna apenas parte de um todo que se expande para outros locais e cidades maiores. O que se pode deduzir disso tudo é na verdade muito simples. Lynch sempre foi um artista inflexível, jamais se deixou podar ou limitar por exigências de estúdios ou emissoras, de modo que nem sempre teve o apoio e o financiamento necessários para colocar em prática muito de seus projetos. A própria segunda temporada de Twin Peaks se perde no ponto em que a interferência da emissora alterou o propósito dele com a história e acabou por afastá-lo, o que resultou numa evidente queda de qualidade e no subsequente fracasso de crítica e público que precipitou o cancelamento da série. 

A trajetória de Lynch dali em diante com estúdios e produtores não melhorou muito, e desde 2006 o diretor não lançava nada para cinema ou TV. Mas nesse meio tempo Twin Peaks foi ganhando o peso de um cult cada vez mais idolatrado por fãs mundo afora e logo a ideia de uma terceira temporada para desvendar o destino do Agente Cooper foi cogitada. A emissora Showtime embarcou no hype e deu carta branca para que Lynch e Frost realizassem uma nova temporada com toda a liberdade de criação. Eis que Twin Peaks - O Retorno se mostra então, mais do que um simples revival, um acúmulo de ideias e experimentos de um artista que esteve fora de cena por mais de dez anos. Lynch extravasou aqui o que jamais lhe permitiram extravasar antes. É um acontecimento notável e o fechamento perfeito de um ciclo, com os criadores revirando a TV americana do avesso novamente, assim como fizeram há décadas atrás.


Inclusas nessa grande viagem, estão as mensagens de carinho e memória por aqueles do elenco original que já morreram desde os anos 1990, como Jack Nance, Don S. Davis, Miguel Ferrer, David Bowie e, principalmente, Catherine E. Coulson, que viveu pela última vez a icônica Senhora do Tronco em uma das cenas mais emocionantes da série, em que tanto personagem quanto atriz se despedem e por fim se entregam (“a morte não é um fim, apenas uma mudança”, revela Margaret em seus últimos suspiros). Toda essa preocupação e delicadeza dos criadores com seus atores/personagens denota o caráter fraternal que prevalece sobre a série, mantendo tudo dentro de um ar muito familiar, embora diferente. 

Também músico e pintor, Lynch incluiu no tour suas experiências nessas áreas, como a influência do pintor belga René Magritte (conforme imagem abaixo) e a profusão de experimentos musicais diversos que explodem ao fim de cada episódio. Nesse meio, o diretor também passeia por referência diversas à sua própria filmografia, sendo o mais interessante notar o destaque que ele dá para Eraserhead (idem, 1977) e Império dos Sonhos (Inland Empire, 2006) – justamente o seu primeiro e seu último filme. As rimas visuais e os reflexos com o filme de 1977 (conforme imagem acima) se espelham numa narrativa difícil e cheia de rupturas tal qual a do filme de 2006. As famosas tomadas de estradas escuras iluminadas pela luz dos faróis dos carros evocam títulos como Coração Selvagem (Wild at Heart, 1990) e A Estrada Perdida (Lost Highway, 1997) e parecem delimitar os fechamentos e recomeços de ciclos narrativos. Tudo contribui para a ideia de que todos os trabalhos de Lynch se cruzam cedo ou tarde em Twin Peaks, o que caracteriza essa temporada como a síntese de toda sua obra. 

 
No ápice de seu fôlego, Lynch insere sua câmera no abstrato extradimensional que conecta as várias realidades existentes em seu universo. O já clássico episódio 8, por mais surreal que pareça, é na verdade a cola que liga não somente algumas pontas de Twin Peaks, como também cruza a maioria dos signos e elipses de sua obra no cinema, na música e nas artes plásticas. Suas imagens e sons aqui são tratados em diversos níveis de intensidade, texturas, cores, formas e sentidos. A princípio linear, o episódio aos poucos vai se dissolvendo em torno de seu próprio eixo e se desprendendo de qualquer noção de realidade do tempo-espaço, pulando entre épocas diversas, dimensões paralelas, e abrangendo ideias que vão desde a vastidão do espaço sideral até algo de natureza mais espiritualista e sombria com as aparições disformes de tipos de existências sobrenaturais. 

A ambição é tão alta que, narrativamente falando, não estamos numa sucessão aleatória de imagens impactantes, mas dentro de um não-lugar, não temporal, um elo cósmico entre dimensões, um espaço físico sequer conhecido pelo homem, mas desvendado pela câmera de Lynch. Por entre os inúmeros estímulos neurovisuais, o diretor aos poucos cria pontos de ligação com outros trabalhos seus, como a possível materialização da White Lodge (até então apenas citada verbalmente na mitologia da série), um teatro abandonado que ao mesmo tempo lembra o Clube do Silêncio de Cidade dos Sonhos (Mulholland Dr., 2001) e o palco decadente onde uma criatura angelical e de aparência bizarra canta em Eraserhead. Ao mesmo tempo, também ocorre uma romantização e um passeio por estilos e escolas de cinema de horror, evocando o preto e branco dos filmes de monstros dos anos 1930/1940 do cinema B americano até a ficção-científica popular dos anos 1950. A mistura de efeitos visuais datados e modernos é outro fator que reforça a linha temporal percorrida em inúmeros níveis, seja dentro da diegese, seja fora. Essa amálgama da arte lynchiana é, de longe, a experiência audiovisual mais aterrorizante e fascinante da atualidade, tanto para TV quanto para o cinema, não encontrando qualquer rima ou similaridade com nada já criado para nenhuma dessas mídias em qualquer época. Prova de que David Lynch talvez seja o mais criativo e inovador artista em atividade. 

Para além das muitas teorias e interpretações para a experiência incrível que proporciona essa terceira temporada, vale lembrar que por mais que ela tenha se distanciado do formato e lógica das duas primeiras, seu cerne permanece intacto. A questão da identidade sempre tão presente na filmografia de Lynch aqui é tratada com mais fisicalidade do que nunca através de doppelgängers, tulpas, sósias e um protagonista fragmentado em três. A trajetória de um letárgico Cooper nesse mundo tão mudado após 25 anos é quase uma brincadeira cruel dos criadores para com sua fanbase (assim como a reconfiguração de Philip Jeffries/David Bowie em uma espécie de chaleira gigante e a mutação do Homem de Outro Lugar em uma árvore falante), um despertar e um encontro de duas eras, dois mundos tão distantes como o atual e o de mais de duas décadas atrás. Vai caber nesse ínterim algumas críticas políticas pontuais de Lynch sobre a América de hoje, assim como ocorreu no retrato do cidadão médio suburbano da primeira temporada. Cooper os atravessa e se encontra numa jornada de autoconhecimento, tentando encontrar e colar seus pedaços que ficaram pelo tempo. Na outra ponta, no verdadeiro âmago da questão, a figura sempre assombrada de Laura Palmer evoca o sentimento mais pulsante do universo Twin Peaks: o desamparo diante da adversidade. Criatura espiritualizada no episódio 8, Laura se mostra uma figura do bem rodeada por um mundo de sombras que a engole e a absorve, como sempre ocorre com os protagonistas de Lynch. Entre as muitas dicotomias de bem/mal, Black Lodge/White Lodge, Cooper/Dougie, Laura/Carrie, passado/futuro, o que brilha e prevalece sob a lente de David Lynch é sempre a luz do amor e da esperança ecoando em algum ponto da escuridão. 
Por Heitor Romero, em 05/09/2017
Comente no Cineplayers (1)
Por Henrique André Santana, em 06/09/2017 | 02:32:58 h
Excelente critica! Que temporada hein.. Lynch eh genio demais!
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