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Análise: A Very English Scandal

Categoria: Geral
Por Rafael W. Oliveira
Um texto e dois protagonistas afiados para os tons de um estudo social.
No que tange ao atual formato dos cinemas e da TV, ao menos para aquele leque que se contenta em ser mais formulaico, já não é mais incompreensível quando nomes fortes da grande tela migram para a telinha e dão continuidade ao seus próprios estilos dentro de abordagens mais “abertas”, por assim dizer, uma vez que a televisão é conhecida, principalmente, por conferir uma parcela de liberdade criativa mais ampla ao seu realizador. Stephen Frears foi um dos últimos nomes a fazer essa migração, e por mais que A Very English Scandal não seja nada atípico para muito do que o cineasta realiza desde os anos 70, essa minissérie em três episódios se mostra o que Frears nos entregou de mais consistente em mais de dez anos.

Baseado no livro A Very English Scandal: Sex, Lies and a Murder Plot at the Heart of the Establishment, de John Preston e roteirizado por Russell T. Davies (que carrega Doctor Who e Queer as Folk no currículo), a minissérie aborda períodos específicos do polêmico caso entre Jeremy Thorpe (Hugh Grant) e Norman Scott (Ben Whishaw), que após um período de uma relação homossexual, se viram diante de um grande escândalo indo a julgamento quando Scott acusou Thorpe de contratar alguém para matá-lo. Na época, a homossexualidade era considerada crime, algo que só se desfez em meados dos anos 80 no meio da sociedade britânica.

Com cada episódio reservando pra si pouco mais de 50 minutos, é impressionante como o trabalho de Frears ao lado da edição de Pia Di Ciaula (de The Crown) é acelerado, ligeiro, concentrando uma avalanche de informações precisas dentro de longas passagens no tempo e pulos temporais sem que, para isso, o espectador se sinta desnorteado sobre em que ponto a trama se encontra. Nos três minutos iniciais, Thorpe deixa clara sua personalidade ácida, debochada, moralmente dúbia (ajuda muito os diálogos escritos com um cinismo hilariante), e logo em seguida, Scott é rapidamente introduzido na história e estabelece seu relacionamento inicial com Thorpe. Tudo é carregado com o típico humor britânico corriqueiro, mas se Frears adota tal comicidade num primeiro momento, o decorrer dos episódios adotam o tom urgente e denunciativo, quase sombrio, do peso entre o maquiavelismo de Thorpe, que faz uso de sua posição social para burlar as regras que criminalizavam as relações homosseuxuais, e a assertividade apaixonante de Scott como um homem abertamente gay e afeminado, que se mantém de pé diante de um sistema que insiste em rebaixá-lo.

Como um estudo das questionáveis práticas jornalísticas da época (e claro, de hoje) e a fragilidade das leis estatais, A Very English Scandal se mostra uma reconstituição histórica tão primordial quanto impressionante, inclusive pouco fugindo dos reais acontecimentos que levaram os dois homens aos tribunais (até mesmos os pontos que parecem saídas fáceis realmente aconteceram). Davies desnuda os privilégios sociais que beneficiam uma parte muito específica daquela população, governada por homens que mantém um jogo de trocas e interesses para se protegerem, mesmo que isso signifique arquivar um caso sem nem ao menos conhecê-lo profundamente.

Grant e Whishaw defendem o texto no tom certo, e enriquecem ainda mais a experiência de acompanhar a mudança de tom entre aquelas relações ao longo dos três episódios (o último, em especial, é uma aula primorosa de como prender a atenção através de artifícios simples). Particularmente, nunca considerei Grant um ator de grandes nuances, em especial por seus projetos que pouco lhe desafiavam além de uma presença carismática para comédias românticas. Mas foi Florence - Quem é Essa Mulher?, também de Frears, que revelou um ator ainda mais preparado no auge de seus 60 anos, visivelmente carregando anos de experiência nas costas que lhe permitem conferir camadas aos seus personagens. Thorpe não se torna uma figura absolutamente desprezível para o público graças ao carisma tão humano do ator, que mesmo diante das atitudes de seu personagem, revela uma vulnerabilidade que, perto de seu desfecho, lhe dá a oportunidade de protagonizar a cena mais comovente dos três episódios. Wishaw igualmente acerta na posição de um sujeito sob o julgamento de uma sociedade moralista, e sua entonação nos monólogos de Scott, especialmente no tribunal, são deveras convincentes (não à toa, o globo de ouro de melhor ator coadjuvante em minissérie veio para as mãos de Whishaw pelo papel).

Falhando somente no ritmo mais arrastado do segundo episódio e em suas subtramas que, estranhamente, não se fecham em si e pouco adicionam para a narrativa principal, A Very English Scandal é um belo estudo social de época, costumes e manipulações, que varia com muita organicidade no tom dos episódios, capricha na reconstituição e traz dois protagonistas muito bem preparados para lidar com o texto com desenvoltura. 
Por Rafael W. Oliveira, em 16/02/2019
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