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Análise: Black Mirror: Bandersnatch

Categoria: Geral
Por Bernardo D.I. Brum
Ousado, pero no mucho.
Charlie Brooker já havia abordado horror sobre tecnologia em formato serial na minissérie Dead Set, minissérie sobre um surto zumbi irrompendo em meio a uma gravação do reality show Big Brother, onde os participantes se viam isolados, porém salvos dos horrores lá de fora. O drama acabou indicado ao BAFTA de 2009. Em 2011, Brooker surgiu com Black Mirror, série antológica aos moldes de Além da Imaginação e A Quinta Dimensão que aborda principalmente a relação tóxica do ser humano com a tecnologia.

Em 2018, Black Mirror é agora uma série produzida pela Netflix e ruma para a sua 5ª temporada tendo vencido seis Emmys pelos episódios San Junipero e USS Callister, incluindo de Melhor Prêmio para Televisão. Brooker resolveu então dar um próximo passo e nos últimos dias do ano lançou o filme interativo Black Mirror: Bandersnatch.

Relativamente novo no cinema mas nem tanto na cultura pop, as histórias interativas são bem difundidas dentro do gênero de videogames conhecidos como adventure. De jogos clássicos até títulos mais recentes como Full Throttle, Grim Fandango, Heavy Rain, The Walking Dead e Detroit: Become Human, esse gênero de jogo virtual interativo elevou a outro patamar as aventuras de texto (ou livros-jogo) de publicações como Aventuras Fantásticas, de Steve Jackson. Os brasileiros também tiveram a sua cota de escolher o desenrolar de histórias com o programa Você Decide, veiculado pelo canal Globo entre 1992 e 2000.

Brooker faz também um metafilme narrativo, pois Black Mirror: Bandersnatch é uma história ambientada em 1984 sobre Stefan Butler (Fionn Whitehead, de Dunkirk), um jovem programador que aceita emprego em uma desenvolvedora de videogames para transpor para o videogame a história de Bandersnatch, considerado uma obra-prima dos livros-jogos mas que levou o seu criador Jerome F. Davies à loucura, decapitando a própria esposa. Logo ele vê que a transposição do jogo que envolve perambular por um labirinto mágico e através das escolhas fugir de uma criatura conhecida como “O Pax” fará com que ele espelhe a vida do autor original, pois logo realidade e ficção terão suas barreiras suspensas. 

Brooker tem um ponto: em uma história interativa, você só tem tantas escolhas quanto aquelas fornecidas pelo autor. Ou seja, em parte Bandersnatch seria uma obra sobre ilusão de controle e o fator de poder escolher não nos torna mestres de nada. Até aí um conceito interessante, com algumas referências a Lewis Caroll (Alice no País das Maravilhas), Philip K. Dick (Blade Runner - O Caçador de Andróides) e os próprios episódios anteriores de Black Mirror acabam criando uma atmosfera característica e fazer sentido dentro da “nova ficção científica” da série, que envolve contos de preocupação sobre o nosso cotidiano desequilibrado pela intervenção da tecnologia.

Por outro lado, isso não justifica também o quanto o roteiro de Bandersnatch é só um “passeio no trem-fantasma” genérico. Tudo é tão calculado - talvez por insegurança - que as escolhas feitas que determinam conclusões antecipadas da história voltam imediatamente para você escolher o outro caminho. Por um lado, isso é fiel a um conceito: nós não somos donos da história, no máximo exploradores da mesma. Por outro lado, os absurdos se empilham um sobre outro - as conclusões vão de assassinatos a experimentos científicos a lutas de Kung Fu e referências à própria Netflix, em momentos mais bem-humorados - que no final qualquer potencial reflexivo se esvazia sobre o que é proposto.

São tantos falsos caminhos, todos eles genéricos e desacreditados tão repetidamente que a execução falha nesse ponto: se a intenção era mostrar alguém que julgava ter o controle perder o mesmo, a narrativa é tímida demais, convencional demais. Brooker demonstra mais segurança explorando conceitos de maneira lienar, como em “The Entire Story of You”, “Fifteen Million Merits”, “San Junipero” e “Nosedive”, entre outros. Todos mostram histórias tecnológicas de maior potencial reflexivo para fruir. Enquanto isso, Bandersnatch é só a superfície da experiência. 

Por um lado, claro que surpreendeu a Netflix e seus criadores assumirem riscos em matéria de forma e narrativa. Por outro, acaba que essa “inovação” pareça um pouco rasteira demais, velha demais. Nesse sentido, o recente jogo de videogame Detroit: Became Human utiliza de maneira muito mais proveitosa o fator de escolhas, sejam certos destinos incontornáveis ou não, pois também aposta em um maior riqueza de narrativa, explorando dilemas morais e não apenas brincando com o espectador para basicamente mostrar “que pode”, como Black Mirror já tinha feito em “White Bear” e “Shut Up and Dance”. 

No final das contas, Black Mirror: Bandersnatch não é totalmente desprovido de valor, mas ao mesmo tempo é confortável demais. Parece que quer expandir o que se tornou uma “marca” mas já não dando passos tão ousados quanto lá no início.
Por Bernardo D.I. Brum, em 30/01/2019
Comente no Cineplayers (9)
Por Rodrigo Cunha, em 30/01/2019 | 23:15:28 h
O filme se baseia nessas voltas nos livros jogos, quando as pessoas decoravam as páginas e voltavam se a opção fosse ruim ou game over. Achei interessante, apesar de concordar que deveria terminar. Mas, comercialmente falando, isso talvez tornasse o filme um fracasso. Eu adorei.
Por ●•● Yves Lacoste ●•●, em 30/01/2019 | 22:53:14 h
O que resultou tbm foi um filme que o telespectador de uma certa forma não controla o destino da situação, já que ao optar pela escolha errada, o filme obriga você a voltar e escolher a certa!
Por ●•● Yves Lacoste ●•●, em 30/01/2019 | 22:47:39 h
Não concordei com a opção de voltar. O filme em si devia se finalizar diante das escolhas feitas durante o decorrer da projeção. Se a curiosidade de ver as outras opções vem depois, cabia assistir o filme de novo desde o começo!!!
Por Araquem da Rocha , em 30/01/2019 | 22:05:33 h
Black Mirror (comparada a Além da Imaginação, minha série favorita de sempre) é genial e excelente.Na última temporada já um desgaste, e esse filme/evento tem uma proposta interessante, mas achei um pouco raso.
Espero que a quinta temporada seja muito boa. :)
Por Seja Lá Quem Tiver Sido, em 30/01/2019 | 19:11:32 h
Eu entendo isso de querer que a gente sinta a mesma frustração ao ter que voltar, mas o problema é que vai ficando chato voltar toda hora, por exemplo, teve vezes que nem volta com dois ou três minutos depois de escolher a opção errada, algumas vezes eu tive que ver dez ou quinze minutos pra voltar no 'choose again'. Mas é ae que torna Bandersnatch complicado de ser analisado também, pq se for pensar nele como um jogo até que funciona um pouco melhor, mas pensando como um filme interativo que é a intenção deles, fica muito cansativo.
Por Chrystian, em 30/01/2019 | 19:04:34 h
Sendo Black Mirror não duvido que fosse a intenção inicial. Pra além disso é bem o que o Brum escreveu mesmo.
Por Chrystian, em 30/01/2019 | 19:01:40 h
Acredito que nessa questão das escolhas que não levam a alterações muito grandes na história elas estão lá para servir ao propósito metalinguístico dela, o que já é jogado logo de cara na opção da Tuckersoft. Partindo dessa visão o fato de o filme ter escolhas certas e te obrigar a voltar de quando em quando (algum dos sites que li chamava isso de "sistema de game over", o que fez bastante sentido) serve como aproximação da situação em que o protagonista se encontra. A mesma frustração que ele sente quando percebe que não está no controle das próprias escolhas e que o seu jogo igualmente não pode satisfazer essa condição é a mesma frustração que você experimenta quando percebe que você não tem controle da narrativa, o que aproxima Bandersnatch mais de um jogo que de um "filme interativo".
Por Seja Lá Quem Tiver Sido, em 30/01/2019 | 18:42:37 h
Quando o protagonista lá perguntou quem tava fazendo aquilo com ele e apareceu na tela a opção Netflix eu rachei o bico e fiquei muito contente, achei que ia puxar pra um lado de ele ficar sabendo que é personagem preso num filme e que ia ficar brigando com nós sobre as decisões que tomamos por ele; ou algo parecido nesse sentido. Mas acaba escolhendo rumos muitos rasos.
Por Seja Lá Quem Tiver Sido, em 30/01/2019 | 18:24:56 h
Eu fui com a mente bem aberta pra ver Bandersnatch, e de início eu tava bem entusiasmado com o desenrolar da coisa, mas depois o que mais me incomodou é q MUITAS vezes as opções q você escolhe não fazem diferença nenhuma e ae o filme te joga de volta pra escolher a opção q vai dar continuidade na história. Por exemplo, eu escolhi entrar na Tuckersoft, ae o jogo é um desastre e eu volto pra opção de entrar ou não na empresa. Então pra q dar duas opções se quando eu escolher a errada eles vão me mandar de volta pra eu escolher a opção q eles querem q eu escolha? Eu sei q nos livros interativos funciona mais ou menos assim mas acho q nesse formato de filme acaba ficando meio cansativo essas partes 'choose again', chegou um determinado momento q eu já não aguentava mais voltar pra mesmas alternativas pq eu escolhi a errada. Seria muito bacana se você escolhesse a opção e não tivesse mais volta, ficaria mais com cara de filme e acaba valorizando mais as decisões tomada.
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