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Análise: Maravilhosa Sra. Maisel

Categoria: Geral
Por Cesar Castanha
A restauração do moderno.
Na comédia Núpcias de um Escândalo (The Philadelphia Story, 1940), dirigida por George Cukor, há uma cena em que a personagem de Katharine Hepburn, dividida entre o atual noivo e o ex-marido, é confrontada pelo primeiro ao acordar de ressaca. Ele proclama: “É natural de um homem esperar que sua esposa...”. “Se comporte, naturalmente”, completa Hepburn; ao que seu ex-marido, interpretado por Cary Grant, corrige-a: “Se comporte naturalmente”. A ausência dessa vírgula já era, à época do filme, um leitmotiv para as personagens de Hepburn no cinema. Suas heroínas irreverentes, em Boêmio Encantador (Holiday, 1938) e Levada da Breca (Bringing Up Baby, 1938), eram mulheres que “se comportavam naturalmente” em oposição as que “se comportavam, naturalmente”. Nessas comédias românticas, Katharine Hepburn aparecia em cena como uma força da natureza quase totalmente fora de controle. Quase. É parte ideológica desses filmes, afinal, que a solução amorosa em favor de suas personagens (em outras palavras, o casamento) dê um sentido a sua irreverência.

Não é novidade que Amy Sherman-Palladino tem um gosto pela comédia clássica hollywoodiana. Em sua série de mais longa duração, Gilmore Girls, não apenas as personagens principais fazem uma série de referências cinéfilas a esses filmes como também se apresentam elas mesmas como uma tentativa de alcançar a forma, o ritmo de cena e o tom dos diálogos dessas primeiras comédias românticas. Em determinado episódio da série, Lorelai Gilmore (Lauren Graham) é repetidamente referida por uma estilista de sua família como “Katharine Hepburn” - e nunca o é por acaso, pois a personagem habitual das comédias de Hepburn parece reviver na interpretação de Graham.

Em sua nova série, Maravilhosa Sra. Maisel, a mais recente vencedora do Emmy de Melhor Comédia, Sherman-Palladino ambienta a trama e os personagens no fim dos anos 1950, quando Katharine Hepburn ainda estrelava comédias românticas nos cinemas (embora, nesse período, tenha mudado seu parceiro conjugal em cena de Cary Grant para Spencer Tracy). A protagonista da série, Midge (Rachel Brosnahan), a Sra. Maisel do título, também é, como Lorelai, como Hepburn, uma mulher que se comporta naturalmente, sem a vírgula. A trama a acompanha a partir de seu divórcio. Na mesma noite em que seu marido, e pai de seus dois filhos, separa-se dela, Midge sobe em um palco e improvisa uma performance de stand-up comedy. A partir daí, a personagem investe na possibilidade de uma carreira como comediante profissional.

A série, uma produção da Amazon, toma o período que representa como desculpa para se aproximar ainda mais da forma e do conjunto temático da clássica comédia hollywoodiana. Em parte, parece que o texto de Sherman-Palladino propõe uma revisão contemporânea desse material, mas me parece que tomar a série desse modo seria consideravelmente equivocado. Se trouxermos uma efetiva comparação entre Maravilhosa Sra. Maisel e as comédias românticas dirigidas por Howard Hawks, George Cukor e Preston Sturges, encontraríamos poucas revisões de fato. Não pretendo excessivamente apreciar ou depreciar nenhum desses nomes, de Hawks a Sherman-Palladino, quando digo que a série redescobre muitas das qualidades das filmografias desses diretores, assim como muitos de seus problemas.

Se Lauren Graham trazia em cena a lembrança de Katharine Hepburn, a Sra. Maisel de Rachel Brosnahan é como uma personagem cômica de Irene Dunne, franzina, enérgica e ágil diante da câmera. O texto sempre acerta no tom e no ritmo dos diálogos e da narrativa; e os atores sempre acertam no tom e no ritmo do texto. A boa noção de tempo cômico é compartilhada por todo o elenco e equipe criativa (montar esse tipo de comédia sempre me pareceu um acontecimento do campo do impossível, o que faz de obras-primas como Jejum de Amor, por exemplo, um milagre da natureza). Um nome que merece destaque aqui é Marin Hinkle, interpretando a mãe de Midge. Hinkle, que teve um papel de destaque por todo o decorrer da série Dois Homens e Meio, nunca foi estimada o bastante por seu carisma e talento cômico. Em Sra. Maisel, a atriz encontra o texto perfeito para a sua presença em cena: é surpreendente a dinamicidade com que transforma seus gestos e expressões de rosto em um único plano.

Por outro lado, como representação da classe média nova-yorkina e de suas relações de classe e de gênero, Maravilhosa Sra. Maisel também não se distancia de um cinema que a antecede em pelo menos 70 anos. No livro Pursuits of Happiness: the Hollywood comedy of remarriage, o autor Stanley Cavell reconhece a comédia romântica da geração de Cukor, Hawks e Hepburn como uma “comédia do recasamento”, por se aproximar da forma shakespeariana do texto cômico ao mesmo tempo que reincide um valor moral favorável à instituição do casamento, em que personagens divorciadas reatam seus laços com os antigos maridos, experimentando, simultaneamente, as possibilidades da vida moderna e o casamento como tradição. Pode ser surpreendente reparar que, em mais de um sentido, o texto de Sherman-Palladino se adequa a esse gênero.

Maravilhosa Sra. Maisel, ainda que seja frequentemente anacrônica no modo como percebe seus personagens e o mundo em que vivem, recupera muito do que há de brilhante na primeira década da comédia falada em Hollywood. Raramente vemos um trabalho com tamanha capacidade de se perder no tempo. Em seu investimento nostálgico, Sherman-Palladino restaura um cinema que ainda nos faz falta. Há algo de reacionário nessa sua iniciativa; e também há algo, como no próprio cinema que recupera, satisfatoriamente moderno.
Por Cesar Castanha, em 28/01/2019
Comente no Cineplayers (1)
Por Lucas Reis, em 03/02/2019 | 17:21:07 h
Amei a série. Os atore estão tão a vontade em cena que é perdoável esquecer que se trata de ficção. Belo texto!
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