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Análise: The Handmaid's Tale - 2ª Temporada

Categoria: Geral
Por Bernardo D.I. Brum
Quando o sensacionalismo traga o potencial.

Após cobrir todo o livro O Conto da Aia, lançado em 1985 pela romancista Margaret Atwood, a série The Handmaid’s Tale, do showrunner Bruce Miller, teve o desafio de continuar expandindo o universo caótico de Gilead após uma muito bem recebida e premiada primeira temporada (vencedora das principais categorias do Emmy de 2017). 

O livro (e a primeira temporada) acabam com um final instigante: após incitar desobediência contra os fanáticos religiosos que governam Gilead, June Osborne ou Offred (Elisabeth Moss) é levada em uma van preta, um futuro ambíguo à sua frente. Atwood talvez devesse ter considerado que não há muito a fazer depois dali, e, a julgar pela segunda temporada entregue pelo canal Hulu, talvez estivesse mesmo certa. 

Por que a segunda temporada é um “lá e de volta outra vez” de June. Dispensada a tensão dramática da primeira temporada - alguém denunciaria o Comandante Waterford (Joseph Fiennes) por suas transgressões secretas? Moira (Samira Wiley) e Luke (O.T. Fabenle) denunciariam os crimes contra a humanidade cometidos no regime teocrata? June, afinal, escapou ou foi para a morte? - a série aposta muito mais no “pornô de tortura”, como chamam. Boa parte da segunda temporada é dedicada, sem nenhuma outra função narrativa, a mostrar como os governantes de Gilead são cruéis e exibir o carnaval grotesco sem fim de suas crueldades. 

Nessa nova temporada, conhecemos as Colônias, campos de concentração para onde são enviadas as aias “rebeldes” para trabalho escravo, mexendo em lixo radioativo, através dos olhares de Janine, a antiga Ofwarren (Madeline Brewer) e Emily, a antiga Ofglen (Alexis Bedel), onde se veem, subitamente, chamadas de “não-mulheres” por não cumprir o papel em Gilead. Enquanto isso, June tenta fugir, é capturada, torturada psicologicamente por conta de suas ações rebeldes e tem uma gestação particularmente difícil enquanto tenta se aproximar de sua “dona”, Serena Joy (Yvonne Strahovski), acreditando ainda haver um pingo de empatia por trás dos atos vis da Senhora Waterford. Ao mesmo tempo, um atentado terrorista de uma das aias vitima várias comandantes e uma visita dos Waterford ao Canadá estoura um escândalo internacional dos crimes humanitários do fanático país que já foi os Estados Unidos.

The Handmaid’s Tale em sua segunda temporada compartilha boa parte dos problemas das séries atuais a saturação que a tal “era de ouro da televisão” trouxe: é grande demais sem precisar. São treze episódios que poderiam ser sete ou oito tranquilamente; para chegar ao último episódio, o espectador precisa passar por tantos estupros, execuções sumárias, desfiguramentos, decepamentos, torturas físicas… Que em algum ponto a crítica de Atwood ergueu lá em 1985 pára de surtir efeito. É crueldade o suficiente para amortecer o espectador, deixá-lo passivo em uma narrativa cíclica onde June se rebela, é punida, depois disso se rebela mais ainda, e é punida mais ainda. E nisso a série não afunila dramaticamente, não completa uma ideia, não chega a lugar nenhum. 

Se é um fracasso total? Não, pois ainda tem bons momentos. A fotografia da série, com suas objetivas fixas e a grande valorização de closes e detalhes mais do que na ação valorizam e muito as atuações de Bedel, Strahovski e Moss, dando muitas vezes um ar para a série algo de impressionista (na forma de utilizar os match cuts, ou seja, rimas visuais que conectam o presente aos flashbacks, para mostrar o passado familiar de June ou a vida como ativista conservadora de Serena) e para a fotografia inspirar em tons barrocos - as cenas entre June e Frederick Waterford carregam nas luzes e sombras, nos movimentos econômicos, no enquadramento perfeito. 

Porém, tal construção opulenta nem sempre se justifica, já que narrativamente estamos em um choque sem fim entre o “tease and denial” da audiência, ou seja, “provocar e negar”: toda hora temos uma espécie de indução catártica que não virá. Uma tática narrativa bastante sensacionalista muito usada por obras que querem tratar de assuntos pesados; manipular a sensação de aflição, pena e raiva da audiência até o fim como uma forma de ser um atrativo bastante paliativo, pois a sensação que esconde no final é a falta de uma história para contar. 

Quando deixa o grotesco um pouco de lado e foca na diferente personalidade que June guardava de sua mãe Holly, ou na resiliência que Serena Joy mostrava para encarar públicos universitários para defender suas visões de mundo, ou como o motorista e espião Nick (Max Minghella) aguenta calado todas as obrigações e vê June e outras pessoas com quem se importa sofrerem, mais reagindo e contemplando do que propriamente abrindo a boca para discursar, a série cresce. O episódio que June se esconde na redação de um jornal e, ao ver relatos de mulheres, acaba erguendo um mural para as vítimas do tradicionalismo homicida de Gilead tem sua carga de beleza por evocar empatia por outros sofredores, e não brincar com catarse e anti-clímax. 

Mais problemático, talvez, seja a reta final da segunda temporada, por um motivo muito simples: não há antecipação de nada. June foge, mas sua fuga só é anunciada lá para o final do episódio. Serena se cansa da crueldade de Frederick, mas até o momento agia da maneira vilanesca como sempre agiu. Gilead sofreu um atentado terrorista onde perdeu vários dos seus comandantes e pouco depois foi denunciada para a comunidade internacional, mas não há um verdadeiro enfoque da decadência que Gilead enfrenta ou como os governantes de outros países estão agindo. O que está acontecendo? A mesma coisa: violência sexual, dedos cortados, repressão policial, lá e de volta outra vez. 

É necessário que Handmaid’s Tale “arrume a casa” na terceira temporada. Que pare de se ancorar no que deu certo na primeira (as cenas escandalosas que deram para falar) e trabalhe narrativa. Que seque os arcos dramáticos excessivos, dispense os mil e um plot twits baratos, que dê mais questões interessantes para seus personagens trabalharem. Pois Handmaid’s Tale pretende-se mais adulto que o típico produto blockbuster. A opressão do monstruoso contra a resistência do justo, conceito tão antigo, permite muito mais camadas que o “pornô de tortura” que certamente pode ser bem falado de maneira espontânea, mas dificilmente é pungente, atravessando gerações como o livro o foi ao abordar a ficção especulativa de maneira tão original. 

E é por isso que temos tantas séries estreando o tempo todo, cada vez mais bombásticas, cada vez com mais personagens, cada vez mais calculadas, e tão poucas alcançam o patamar de Breaking Bad - A Química do Mal, Família Soprano, A Escuta ou Oz. No todo, essa segunda temporada é fruto de uma indústria completamente saturada.
Por Bernardo D.I. Brum, em 03/08/2018
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