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Abrasileiramento apropriador do Halloween

O marco primordial do horror nacional "À Meia-noite Levarei sua Alma" (1964), de José Mojica Marins, o Zé do Caixão.

Outubrão do Halloween. Seja uma festa pagã do século XVIII ou outra cristã de período similar, o lance é que estes festejos foram apoderados habilmente no (e pelo) capitalismo, como sempre, das mais diversas maneiras. Seja a jeito de brinquedos, putarias diversas e na arte. E no cinema, que é o que me interessa. Então, para comemorar e frescar com este festejo alheio, basta sermos marotos para aproveitarmos o espaço. Por isso, a pretensão aqui é aloprar em cima do cinema de horror, exploitation, udigrúdi, avacalhacional e gore brasileiro do seu nascedouro até o macabroso 2020.

Aqui o modus operandi será pela simplicidade do exagero. Este é visto com desdém e desimportância na sua breguice, mas o exagero é uma maravilha quando bem empregado. Portanto, o que vocês receberão na cara serão vários textos sobre o horror nacional. De todo o jeito, de todas as figuras possíveis envolvidas. Vocês serão afogados nessa ruma de textos tal qual uma piscina de sangue criada e profanada pelo próprio Zé do Caixão.

As fitas do horror brasileiro, propriamente dito, surgiram de modo literal com o maior mestre de todos, José Mojica Marins, o nosso Zé do Caixão. Isto no alto de 1964 com o clássico absoluto À Meia-noite Levarei a sua Alma, na criação do seu icônico, lendário e absolutamente imortal personagem. O cinema brasileiro já provava de um desconforto social e moral na funcionalidade de microcosmo dum país em ebulição política. Como mostravam filmes como Rio 40 Graus (1955), Rio Zona Norte (1957), Cinco Vezes Favela (1962) e Barravento (1962), pra citar alguns da turma do cinema novo.

Estes filmes representam um mal-estar de classe média que viam no cinema sua válvula de escape em prol da comunicação e tesão de linguagem. Um cinema inquieto e aterrorizante pela realidade retratada de um Brasil por tantas vezes escamoteado no cinema. Esse tal mal-estar vinha, em parte, de uma intelectualidade com uma preocupação terceirizada – por vezes altamente honesta, como de um genial Glauber Rocha – acerca dos problemas sociais do país. Nisso o horror era social. Pútrido e virulento. Mas ainda faltava alguma coisa. Faltava mais esculhambação, transgressão e visceralidade.

"Zombio" (1998), média-metragem de Petter Baiestorf; e "Liliam, A Suja" (1981). De Antonio Meliande.

E é aí que entra o Zé do Caixão com seu personagem amoral, escroto, irascível, genial e carismático. O protagonismo de um monstro destruidor moral. O foco é nele, e não para antagonizá-lo, mas, sim, mostrando sua perspectiva das coisas. A destruição em prol do cinema. Com violência e muito abuso. Este esquema visceral, e altamente brasileiro em sua formatação, foi o marco do horror que possibilitou o crescimento não só do gênero, mas da transgressão cinematográfica cada vez mais contumaz, inspirando uma gama de artistas, culminando em movimentos tais quais o cinema marginal (de invenção) e também as bocas do lixo.

A nossa originalidade vem abraçada com a apropriação de material estrangeirescoso, mas este que fique nosso refém ou simplesmente copiado na cara de pau. Não interessa. Nosso terror é terceiro-mundista, marginal e contestador de cara. Contestador apontado para todas as direções. Politicamente, moralmente e nos termos de linguagem mais estuprados que o sejam. Desde o incômodo gradual mantenedor de esquemas, do cinema de um Júlio Bressane em Barão Olavo o Horrível (1970), ou no mal estar obscurecido e belamente concatenado do cinema do Walter Hugo Khouri. Ou a putaria solta de um Jean Garret? Ou a cara de pau de um Cláudio Cunha? Mais avacalho abusivo dum Ivan Cardoso em Nosferato no Brasil (1971)? Um esquema terrir a nos aloprar. Pupilo assumido do mestre Zé. Ou a contestação cinematográfica de exclusão dum Horror Palace Hotel (1978), do maluco do Jairo Ferreira, que foi a exasperação de cineastas marginais que não conseguiam entrada no festival de Brasília e propuseram sua própria marmota para exibirem seus filmes? Do inconformismo esporrático dos anos sessenta ao esquema deliciosamente erótico dos setenta, passando pela pornografia abusiva dos 80 e 90, ao sangue novo dos 2000. Um equipamento imagético de plena força e ligado com a nossa história de maneira totalmente indelével. Este terror é nosso porra. A gorechanchada de um Petter Baiestorf vem nos estuprar com o nível de putaria no teto. E novas figuras como Rodrigo Aragão e Dennison Ramalho nos trazem novas perspectivas modernosas sem esquecerem daquilo que nos é nacional. Nosso terror é podre, seboso, iconoclasta, conspiratório e revoltado.

A grande Helena Ignez em "Barão Olavo, O Horrível" (1970), de Júlio Bressane; e uma cabeça morta em "Snuff - Vítimas do Prazer" (1977), de Cláudio Cunha.

Nosso terror é brutal e putarioso. Não se limita ao gênero, mas abarca na construção social e moral de um cinema que no destroço se inspira. O Zé foi o escroto que explodiu a bomba rasga-lata monstruosa. O terror entra nas veias e searas dos diretores. Como incômodo social ou o grotesco em sua presença mais proeminente. Quer um exemplo? A personificação monstro de Helena Ignez em A Família do Barulho (1970) vomitando sangue. Ou então o esculacho desagradável e maravilhoso de um Rogério Sganzerla em seu O Abismo (1977). Um terror penetrante “de cum força”, como afirmamos no Ceará. Seu caráter de subversão fora caçado e proibido por diversas vezes, o que o torna um sobrevivente pela resistência forçosamente na marra. O terror na carne e na mente. Presente mesmo quando os filmes não são membros diretos do gênero. Um troço encruado mesmo.

O que diabos é o terror? Porque ele ainda nos fascina? O medo é sentimento mais primordial do instinto humano. É aquele que promove a adrenalina e nos tira do lugar da maneira mais corriqueira e abrasiva. Não importa se é um terror psichocrazy ou um slasher apelão, o medo se dá através das sinapses atingidas por imagem e áudio, seja pelo susto, nojo, surpresa e outras coisas que as valham. É o gênero mais desavergonhado e cara de pau, que exala podridão e apelação. E o que menos se masturba diante dos motes acadêmicos de linguagem. Por isso, e pela sua estupidez proposital, seja tantas vezes desprezado pela citada Academia.

Eo Brasil nisso? Qual o gênero mais marginalizado no país? Que diretor teve mais obras travadas? Preciso responder? Temos que fazer crescer o terror/horror do Brasil. Dar mais oportunidades na distribuição e exibição. E chegar junto na história deste cinema. Material do gênero estrangeiro a galera já consome. Temos que meter o nosso cada vez mais na jogada. Talento temos de sobra.  

E talento é o que vossas senhorias irão receber neste especial. Não vou aqui meter uma organização de movimentos de subgênero altamente disciplinada - ora, a indisciplina é o mote do horror. Receberão críticas e artigos variados dos diretores aqui citados e de tantos outros, culminando com a segunda parte do Especial Zé do Caixão, que venho montando desde sua morte.

Além de críticas, vocês obterão assertivas de opiniões espúrias, concatenações estapafúrdias e mais um número bom de opiniosos outros que primam por engrandecer o tesão pelo nosso cinema. Além dos materiais já existentes no site linkados aqui, todo dia um texto nos teus peitos. Vocês irão se contentar e, obviamente, se deliciar com aquilo que eu resolver lhes dar. Confiem no Ted. Ele é sábio.

"Amadas e Violentadas" (1975), de Jean Garret; e "Fábulas Negras" (2014), Episódio O Monstro do Esgoto, de Rodrigo Aragão.

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Zé do Caixão - Parte 1: O Monstro Descordial. Por Ted Rafael

Críticas
Estranho Encontro (1958), de Walter Hugo Khouri. Por Igor Guimarães
À Meia-Noite Levarei Sua Alma
(1964), de José Mojica Marins. Por Ted Rafael
Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver (1967), de José Mojica Marins. Por Ted Rafael
Nosferatu no Brasil (1970), de Ivan Cardoso. Por Ted Rafael
O Anjo da Noite (1974), de Walter Hugo Khouri. Por Francisco Carbone
O Signo de Escorpião (1974), de Carlos Coimbra. Por Pedro Lubschinski
A Mulher do Desejo (1975), de Carlos Hugo Christensen. Por Lucas Reis
Perversão - Estupro! (1979), de José Mojica Marins. Por Ted Rafael
Encarnação do Demônio (2008), de José Mojica Marins. Por Ted Rafael
Trabalhar Cansa (2011), de Marco Dutra, Juliana Rojas. Por Rafael Ciccarini
O Lobo Atrás da Porta (2013), de Fernando Coimbra. Por Marcelo Leme
Gata Velha Ainda Mia (2014), de Rafael Primot. Por Heitor Romero
Mate-me Por Favor (2015), de Anita Rocha da Silveira. Por Bernardo D.I. Brum
As Boas Maneiras (2017), de Marco Dutra, Juliana Rojas. Por Francisco Carbone
O Animal Cordial (2017), de Gabriela Amaral Almeida. Por Felipe Leal
Morto Não Fala (2018, de Dennison Ramalho. Por Bernardo D.I. Brum
Segredo de Davi (2018), de Diego Freitas. Por Rafael W. Oliveira

Comentários (2)

Maria José Barros | terça-feira, 13 de Outubro de 2020 - 21:51

O caos encarnado, Zé do caixão é um belíssimo monstro que exerce sua função de desestabilizar a ordem vigente.

Ted Rafael Araujo Nogueira | quinta-feira, 15 de Outubro de 2020 - 13:57

Com toda a certeza. A iconoclastia terrorífica cinematográfica. E estraçalhadoramente nacional.

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