Saltar para o conteúdo

Artigos

Amy Adams - Uma Atriz de Cinema

Vice (2018), dirigido por Adam Mckay, foi o último filme de Amy Adams a ser lançado nos cinemas. A obra foi indicada oito vezes ao Oscar - inclusive, de melhor atriz coadjuvante, para a intérprete de Lynne Cheney. Foi a sexta vez que ela concorreu à premiação (na atual geração, apenas Cate Blanchett e Kate Winslet, com sete indicações cada uma, superam Adams). Novamente, foi um grande trabalho da atriz que, cada vez mais, encontra um estilo muito particular.

Há uma sequência de Vice bastante relevante para entender a complexidade de sua interpretação. Em certo momento, a personagem de Adams recebe a notícia de que uma pessoa da sua família faleceu. O rosto da atriz está inchado, apesar de não derramar lágrimas. Ela encontra uma posição corporal incomum, como se estivesse quebrada. E ainda assim, parece extremamente espontânea. Difere, nessa postura, dos próprios colegas de elenco. Sam Rockwell, para expor a patetice de George W. Bush, joga as pernas em cima da mesa sem qualquer requinte ou engole M&M's como se mastigasse pedras. Steve Carrell, ao saber da sua demissão, treme ao telefone como se estivesse no Polo Norte. Adams, por sua parte, consegue imprimir naturalidade e sutileza em seus trabalhos como poucos.

É sempre uma revelação quando um ator consegue traduzir corporalmente aquilo que importa em um personagem. E Amy Adams tem a qualidade de fazê-lo com sobriedade. Quem mais debocharia sutilmente do marido abusivo, enquanto ele faz seu discurso supostamente triunfal para o júri em Grandes Olhos (2015)? Ou conseguiria se assustar e, ao mesmo tempo, se alegrar, quando a pata de um heptapode toca a barreira de vidro de uma nave espacial em A Chegada (2016), com um mínimo movimento do rosto? Ou desfaleceria com uma sutil troca de expressão, após ouvir de um rapaz que sabe que ela se mutila, no sétimo episódio da série Objetos Cortantes (2018)? Ou ainda consentiria que a filha mais velha fizesse algo que ferisse a irmã mais nova com um leve balançar de cabeça e um suave sorriso em Vice?

Hollywood sempre prezou pela narrativa melodramática. E o melodrama se caracteriza pelo excesso. O gênero ainda hoje é força motriz do cinema produzido nos Estados Unidos. O que Amy Adams faz, é confrontar essa tradição, traduzindo com propriedade as emoções das personagens (mesmo as mais intensas), mas com discrição nos gestos.

Shirley Maclaine em Se Meu Apartamento Falasse

Shirley Maclaine em Se Meu Apartamento Falasse

Não é que atores em melodramas sejam sempre expansivos. Há momentos de tons mais baixos, dedicados à sutileza. Contudo, Adams reconfigura certo classicismo hollywoodiano ao pontuar grandes emoções, a partir de ações reservadas. Shirley Maclaine, por exemplo, demonstrou um estilo parecido. Em Se meu apartamento falasse (1960), a atriz dá contornos muito sutis para a sua personagem, que mesmo abalada por um grande sofrimento jamais cede à explosão, pelo contrário, se retrai cada vez mais. 

Da mesma forma como o melodrama é inaugurado no teatro, a grande maioria dos atores inicia suas trajetórias nos palcos. A técnica teatral demanda uma imposição maior da voz e dos movimentos em cena para alcançar a plateia. O cinema, por outro lado, é constituído por diversos enquadramentos, como planos médios e close ups, que aproximam os intérpretes do público. Amy Adams utiliza a linguagem cinematográfica a seu favor, ao transmitir os sentimentos de seus personagens ciente de que a câmera a coloca a uma distância mínima dos espectadores - ela sabe que a tela ressalta seus movimentos mais discretos.

O ano de 2013 foi um divisor de águas na carreira de Adams. Além de sua performance como Lois Lane no sucesso de bilheteria O Homem de Aço, ainda se destacou com outras duas interpretações muito diferentes entre si. Em Trapaça, Sydney Prosser, sua personagem vigarista de sotaque inglês propositalmente ridículo e falsa doçura, sobressai na obra histriônica de David O. Russell. A presença da atriz torna-se um dos principais momentos de pausas nas cenas e o ritmo frenético encontra em seu olhar profundo um contraponto delicado. Sendo ela o fio condutor da narrativa, é possível dizer que o sucesso do filme se deve em grande medida ao seu talento. Em entrevista, Louis C. K., ator de Trapaça, comentou que o método de direção de atores de O. Russell prima pelos gritos: “Mais alto! Mais intenso!”. No entanto, Amy Adams soube dosar esses estímulos ao excesso e construiu uma personagem misteriosa e comedida.

No mesmo ano, também foi lançado Ela, de Spike Jonze. Aqui, Adams construiu uma personagem completamente diferente de seu papel em Trapaça, equivalente apenas na medida de sua competência. Ela faz a melhor amiga de Joaquin Phoenix, sujeito que se apaixona por um sistema operacional de voz feminina. Adams compõe o contraponto do ser robótico. É uma mulher demasiadamente humana e cheia de imperfeições. Caminha de forma atabalhoada, insere palavrões que soam deslocados no meio de suas falas e não sabe o que fazer com o seu desgastado relacionamento. De fato, um dos trunfos da atriz é a capacidade de revelar a dimensão humana de qualquer personagem, impedindo que sejam modelos ideais de mulheres.

A Chegada é o ponto alto nesse quesito. A grandeza do filme está em sua presença multifacetada e profundamente cativante. Há uma imensa força em sua aparente fragilidade, há uma enorme coragem por trás daquela figura amedrontada. Ela é uma mãe como qualquer outra e, ao mesmo tempo, o elo de ligação entre a Terra e os seres extraterrestres que aportaram por aqui. Mesmo em uma sequência que poderia soar exageradamente rasa, com o único intuito de causar uma emoção óbvia - como na cena em que ela encontra o presidente da China, a atriz age com rigor. Compõe um olhar fixo e sutil, dividindo com o espectador a descoberta de Louise Brooks sem qualquer excesso. Instantes aparentemente minúsculos que fazem ascender o filme.

A capacidade da atriz de oferecer aos personagens grandes sentimentos em pequenos gestos ainda pode dar mais valor às sequências de maior intensidade. Como ocorre no quinto episódio de Objetos Cortantes, em que sua Camille Preaker está com os nervos à flor da pele, após mais uma briga com a mãe, e sente a necessidade de extravasar. Adams grita com a boca abafada por uma peça de roupa, tremendo de raiva no vestuário de uma loja. Expõe, assim, a ira da personagem de forma original e divide com o espectador sua incapacidade para se reconciliar com a mãe, criando um daqueles momentos que ficam na memória para sempre. Enquanto houver atrizes que elaboram com destreza única as menores ações para dar profundidade aos personagens, haverá um público sedento por novas obras audiovisuais. Quanto ao fato da atriz não ter se saído bem nas últimas premiações do cinema e da televisão nos Estados Unidos... Bem, pior para as premiações que não tem Amy Adams.

Comentários (2)

Bruno Duarte | sexta-feira, 13 de Novembro de 2020 - 02:57

Assisti recentemente ao trailer de "Era Uma Vez um Sonho" e fiquei curioso sobre a carreira de Amy Adams. Achei o artigo abrangente e ao mesmo tempo profundo. Consegui ver a carreira de Amy Adams em toda sua extensão.

Lucas Reis | sexta-feira, 13 de Novembro de 2020 - 16:55

Ótimo! Vale muito a pena conhecer os filmes em que Amy Adams atua! Creio que o meu preferido seja O Mestre, de Paul Thomas Anderson!

Rafael Rodrigues Mangueira | domingo, 15 de Novembro de 2020 - 11:06

Uma das minhas atrizes preferidas desse início de séc. 21. Ñ foi citado "Animais Noturnos", mas ela está ótima no filme e LINDA.

Lucas Reis | segunda-feira, 16 de Novembro de 2020 - 17:07

Legal, Rafael! Realmente, faltou Animais Noturnos. Ela está incrível nesse filme!

Faça login para comentar.