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A ascensão fascista no cinema italiano

Se por vezes o cinema se configura como fuga da realidade, em muitas outras ele pode ser uma das ferramentas mais potentes para encará-la, aprendê-la e enxergá-la através de outros pontos de vista. Em um cenário mundial e nacional em que a política volta a flertar com o fascismo, vale lembrar a seriedade e perigo que nos ameaça, e nada melhor do que analisar um pouco da sociedade italiana do fim da Primeira Guerra, cenário em que o fascismo se fomentou, se estabeleceu e trouxe consequências catastróficas que ainda hoje podem ser sentidas. 
O totalitarismo, a antidemocracia, o nacionalismo exacerbado e xenófobo, o militarismo, a censura, a perseguição às minorias, a interferência da religião no Estado, a perda das liberdades individuais e cívicas – todos os sintomas desse nefasto sistema político se mostram a princípio muito atraentes em situações de desestabilidade econômica, de modo que nem sempre a população é capaz de enxergar o perigo que se esconde por trás disso tudo. Para entender como isso se permeou pela Itália, segue abaixo uma série de filmes que retratam em detalhes as características mais elementares do fascismo, e fica a reflexão e lição de como podemos evitá-lo no mundo contemporâneo. 
Vincere (2009) e o nascimento do fascismo italiano
Um dos grandes trabalhos italianos da década passada, Vincere é ao mesmo tempo um filme político e um filme de terror, que conta a história real de Benito Mussolini, o ditador que assolou a Itália e um dos fundadores do partido fascista de lá. O diretor Marco Bellocchio parte de uma figura humana, cheia de sonhos e boas intenções, explorando a fundo os dramas e conflitos do personagem, até chegar ao ponto de ele se perder e acabar se vertendo em uma das figuras políticas mais nocivas do século XX. Toda a perspectiva da trama é analisada sob o ponto de vista de Ida Dalser, uma mulher que acreditou nos planos de Mussolini e fez de tudo para ajudá-lo a crescer, para mais tarde se culpar conforme o via se transformar em um monstro incontrolável. Nesse sombrio retrato de Bellocchio, presenciamos o nascimento do mal a partir das melhores das intenções. 
Amarcord (1973), as propagandas fascistas e o apoio popular
No colorido pandemônio alegórico de Federico Fellini, o diretor revisita suas lembranças de infância na cidadezinha de Rimini, no interior da Itália, na época do nascimento do fascismo. Entre suas muitas metáforas e memórias, é possível presenciar uma das cenas mais impressionantes de sua carreira: um desfile militar aplaudido e aclamado por toda a população, além de cenas de tortura em sessões de interrogatório e de educação escolar militarista. Narrado em um fluxo de lembranças nem sempre linear ou lógico, Amarcord por vezes aponta as duras críticas de Fellini ao regime fascista de Mussolini e faz um aterrador apontamento da popularidade que ele alcançou em seus momentos de ascensão, com suas famílias apoiando os jovens no uso de armas, a religião cristã incentivando a barbárie, a exaltação da violência como resposta para qualquer situação e as propagandas incansáveis do governo voltadas para dopar a população enquanto a explora cada vez mais. 
A Estratégia da Aranha (1970) e a variação moral das noções de certo e errado 
A trama de A Estratégia da Aranha, de Bernardo Bertolucci, fala por si só: o personagem principal vaga pela Itália em busca de respostas a respeito do assassinato de seu pai, um líder da resistência contra o regime fascista de Mussolini. Na narrativa labiríntica que nunca de fato revela os verdadeiros acontecimentos e jamais se permite montar como um quadro claro, Bertolucci usa da história original de Jorge Luis Borges para tratar de um dos maiores perigos existentes em épocas de ascensão fascista: as falsas noções de certo e errado que se vendem e minam a moral do indivíduo, de modo que as figuras de heróis e vilões são facilmente confundidas. Nesse cenário incerto, corre-se o perigo de o mais perigoso dos homens surgir como um salvador e herói para uma população assustada e carente de uma figura política irrepreensível, enquanto os verdadeiros bem intencionados acabam marginalizados e culpabilizados pelos males sociais e econômicos.  
Concorrência Desleal (2001) e a degradação das relações humanas
O filme de Ettore Scola é um dos mais simbólicos no que diz respeito ao caráter violento do fascismo mesmo fora da esfera política. Dois alfaiates que são rivais no comércio durante os anos do regime fascista na Itália vivem em pé de guerra nos negócios, embora os próprios filhos sejam amigos próximos. Em uma das brigas pela clientela, um deles acaba revelando em público que o outro é judeu, o que ninguém na vizinhança sabia até então. Quando a polícia presencia a cena, o comerciante judeu passa a ser preso, perseguido e perde todos os seus direitos. Nessa história sobre antissemitismo, Scola mostra como o fascismo é capaz de se perpetuar mesmo nas relações interpessoais do dia a dia, criando atmosferas de paranoia, divisão, denúncia, perseguição e laços rompidos mesmo entre pessoas amigas. 
O Conformista (1970), o perfil do fascista e a censura 
Também dirigido por Bernardo Bertolucci, O Conformista é considerado por muitos como o filme definitivo sobre o fascismo ao tratar da história de um homem cheio de traumas e repressões morais e sexuais, que termina por aceitar um trabalho para Mussolini e começa a perseguir um professor acusado de traição ao governo. O filme trata da censura à liberdade de expressão, a perseguição à classe educadora e traça uma análise cruel do perfil de um fascista típico: muitas vezes, ou quase sempre, um homem comum, cheio de autoimposições e frustrado, que aos poucos se conforma com o estado das coisas e se junta à maioria por ser o caminho mais fácil a seguir, na esperança de pelo menos uma vez poder se considerar alguém presente no lado supostamente vencedor da história, nem que isso custe as pessoas que ama e sua própria alma. 
O Jardim dos Finzi-Contini (1970) e a perseguição às minorias 
Vittorio de Sica foi um dos cineastas mais importantes do cinema italiano e em parte fundador do movimento neorrealista, que foi tão essencial para a Itália perceber os efeitos nocivos do fascismo em sua sociedade. Já nos anos 1970, com O Jardim dos Finzi-Contini, o diretor adaptou o romance de Giorgio Bassani para contar uma história muito humanista e alegórica sobre uma família de judeus italianos. O jardim do título surge como um símbolo de resistência do último membro da família, que aos poucos teve todas as suas liberdades proibidas e seus direitos retirados. A terrível onda nacionalista tão típica dos regimes fascistas aqui mostra seu lado mais desumano e cruel, quando nem mesmo a população chega a se chocar ou sequer se importar com a situação da família judia. 
Verão Violento (1959) e a alienação da burguesia
Conforme o regime fascista de Mussolini vai minguando e o fim da Segunda Guerra Mundial se aproxima, os jovens ricos personagens de Verão Violento parecem somente se interessar pelos prazeres que o dinheiro pode comprar. Mas quando um deles se apaixona por uma mulher mais velha, que perdeu o marido na guerra, tudo se reconfigura. Valerio Zurlini, o mais melancólico dos cineastas italianos, traça um paralelo perfeito entre a decadência burguesa e a situação política catastrófica da Itália fascista, e mostra aos poucos os efeitos da guerra alcançando mesmo as classes mais abastadas, que durante toda a tormenta só soube se preocupar com os próprios interesses, ignorando o apelo de uma população carente e à deriva do horror, sem perceber que a queda que se aproximava seria de todos. 
Um Dia Muito Especial (1977) e a anulação da liberdade individual 
Enquanto a família sai para comemorar o encontro de Adolf Hitler e Benito Mussolini no dia em que os dois ditadores firmaram alianças, em 06 de maio de 1938, a dona de casa vivida por Sophia Loren é obrigada a ficar para arrumar a cozinha. Ela acaba conhecendo no mesmo dia o novo vizinho, um radialista recém-demitido após descoberta sua homossexualidade, vivido por Marcello Mastroianni. Ettore Scola faz dessa amizade improvável um retrato cortante e doloroso sobre duas das classes mais afetadas por regimes totalitários: os gays e as mulheres. Os dois personagens, vividos pelos maiores astros da época, se afundam em solidão ao perceberem que serão obrigados a se reprimir e se esconder, a aceitar sua exclusão em uma sociedade dominada por homens machistas e violentos. Enquanto ela se mostra conformada, embora triste, ele lhe presenteia com o que ninguém da família dela jamais poderia sequer considerar. Em um mundo onde mulheres não passam de escravas do lar, ela recebe o presente mais sensível e libertador que alguém poderia lhe dar: um livro. 
Paisà (1946) e os efeitos finais do fascismo em uma sociedade 
Nenhum diretor italiano acompanhou tão em tempo real os efeitos das guerras mundiais sobre a Itália, assim como as consequências devastadoras do fascismo, quanto Roberto Rossellini. Quase um documentarista, ele fez uma trilogia de filmes que analisou a fundo esses traumas. Paisà veio logo após o fim da Segunda Guerra Mundial e se divide em seis segmentos independentes, todos girando em torno de alguma trama deixado pelas guerras. Cada um dos segmentos é capaz de trazer um olhar devastador sobre os principais pilares do fascismo: o nacionalismo, o preconceito, a violência, a desumanização, a nociva participação da igreja na política e na guerra, e principalmente a capacidade do humanismo prevalecer de alguma forma sobre todos esses males. Apesar de todo o horror que Rossellini exprime tão bem, sobra a sensação de que algumas coisas nem mesmo a guerra, nem mesmo as ditaduras ou nem mesmo qualquer outra forma de violência são capazes de matar, como o calor humano e a necessidade de se demonstrar amor ao próximo, independente de qualquer barreira. 

Comentários (68)

Igor Guimarães Vasconcellos | sexta-feira, 02 de Novembro de 2018 - 07:35

Gente, se vcs são leitores das críticas ou até mesmo das lupas, seguem o site há um tempinho já deveriam ter entendido que o cineplayers está sendo apoiado pelo Roger Waters, a Globo Mano Brown, Gaviões da Fiel E O CONSULADO ALEMÃO( principalmente financiado essas críticas aos filmes do Fassbinder) contra o Bolsonaro.

Por favor, gente. Eu não sei o que vcs estão entendo quando lêem as coisas não.

Pedro Ruback | quarta-feira, 26 de Dezembro de 2018 - 14:29

Gente, que loucura esses comentários. Muito triste isso tudo aí. É foda, porque nem dá vontade de vir debater nos fóruns e de ler os comentários. E pelo visto o Kadu continua na mesma de anos e anos e anos atrás. Posta várias coisas e não tem coragem de sustentar o que diz - ou ofende tanto no maior estilo olavo de carvalho e nando moura que se torna insustentável nos fóruns e é banido. Esse estilo é o oposto de um debate construtivo pois não tem a intenção de construir nada. Pior é que temos uma ascensão desse tipo de comportamento hoje em dia. Aos sãos, esse tipo de gente deveria ser ignorada, pois nada de construtivo sairá de uma conversa com ela. A propósito, deveríamos printar algumas coisas para nunca nos esquecermos de que não vale a pena estabelecer diálogo com gente assim.

Pedro Ruback | quarta-feira, 26 de Dezembro de 2018 - 14:36

Eu faço essas observações pois estamos em um site de cinema discutindo em fóruns. Normalmente uma discussão preza a construção de algo e não esse tipo de embate animalesco onde o achismo de alguém, sem embasamento algum, se propõe convencer o outro ou simplesmente "refutar" o outro a todo custo. Enfim, como o Daniel disse, se alguém ficou ofendido com essa lista, se a carapuça serviu, é porque precisa ser discutido até com mais afinco. A proposta foi uma discussão, se querem calar essa discussão ou evitar que ela se dê nesse momento é porque tem um problema aí com a tal opinião de vocês e com o momento atual.

Pedro Ruback | quarta-feira, 26 de Dezembro de 2018 - 14:41

Eu não tinha visto quase nenhum filme dessa lista. Assisti a 4, filmes maravilhosos por sinal. Que atuação absurdamente poderosa de Giovanna Mezzogiorno e Filippo Timi em Vincere. Eu estava há muito tempo sem ver algo tão forte e tão enérgico. Concorrência Desleal, aquele único cenário, conseguiu me trazer muitos risos e no fim, lágrimas doídas. A capacidade de gerar empatia pela construção maravilhosa dos personagens em relação ao contexto... cara, isso precisa ser visto por todos. Meus parabéns aos editores do site e ao Heitor Homero - que já agradeci pela oportunidade de ver essa lista pelo Facebook.

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