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Tobe Hooper: A maldição grotesca dos excessos

O desmesuramento como operacional dum cinema horrorosamente bom

O mestre Tobe Hooper (foto por www.cgmagonline.com)
O mestre Tobe Hooper (foto por www.cgmagonline.com)

Tobe Hooper foi um cara no qual dedicou sua existência ao cinema de horror, e nisso o fez usando das mais variadas artimanhas e tesões voltados à abundância do maravilhoso exagero. Ele não tinha concessões ao destroço e buscava usar das armas disponíveis mediante o que as décadas pediam. Uma dialética escrota entre suas idiossincrasias absortamente próprias dentro das esferas de adaptações cinematográficas históricas. Seja no tom sujo de sua masterpiece Massacre da Serra Elétrica (Texas Chainsaw Massacre, 1974) com toda a questão do caráter inicial em semidocumentário para a criação duma atmosfera sensacional de horror; à continuação da mesma – Massacre da Serra Elétrica 2 (Texas Chainsaw Massacre 2, 1986) – na qual abraça completamente o colorido que a década assim permitia, sem deixar de lado o tom podreira no tom de sarro; ou quando explicita alguma exorbitância nos 90 com a fita subestimada Mangler – O Grito Horror (Mangler, 1995), onde uma máquina de lavar assassina é o destaque junto a um caricato Robert Englund, o eterno Freddy Krueger, montando uma seboseira na qualidade e abarrotada de barbaridades, como se somente o fato da antagonista lavadora de roupas não fosse um absurdo por si só, e num momento com a crescente de narrativas mais sóbrias a crescer não somente eram mais adotadas, mas apontadas como caminho mais certeiro em detrimento do excesso de outrora.

O diretor não queria conversa, fazia seu legado autoral. Pro bem e pro mal. Para muitos fãs da fita primordial citada dos anos 70, o Hooper teria se mantido a posteriori como uma eterna promessa. Isto por conta do sucesso colossal da história do Leatherface e seus camaradas canibais, que trouxe altas expectativas onde aquilo se repetisse. A todo trabalho a seguir eram o slogan do diretor de “Massacre da Serra Elétrica”, e o papo de que o cara não alcançava o sucesso era repetida, sem comentar a citação sub-reptícia do Poltergeist – O Fenômeno (Poltergeist, 1982), no qual Hooper é diretor de aluguel (mesmo tendo ideias levemente macabras com o dedo dele) para as pretensões do produtor Steven Spielberg. O mais invocado disso tudo é fato do cara não querer se meter a repetir a dose. Nem em tramas subsequentes similares ou uma repetição visual encarnando o espírito dos famintos de 1974. O seu cinema foi desenvolvendo caraterísticas próprias – muitas nascidas de fato no primeiro filme da motosserra –, como o uso pesado dum cenário ultracolorido personalista tanto quanto as criaturas humanas ou monstruosidades outras; ou os traquejos de iluminação abusiva a visar encaixar criaturas e cenários de forma amalgamática. Esse era o seu operacional independentemente da proposta escolhida. E quando um diretor fica estigmatizado por uma obra-prima no início de sua carreira, por vezes sua realização geral acaba sendo perseguida por esta sombra, no caso dele isso é multiplicado por conta de suas escolhas como diretor no crescer do exagero deveras citado. Algo pertencente à sua estrutura narrativa e considerado chamativo por demais. Ele tem suas características, mas fora se metamorfoseando nalgumas searas que com o tempo foram consideradas superadas por muitos, mas pro Hooper fazia pleno sentido. Coerência autoral dele em conurbação com as temáticas escolhidas.

Existe uma espécie de equilíbrio esquizofrênico entre o que a história propunha com aquilo que o Hooper abarcava. Quando o momento pedia secura e aspereza, ele a dava com sobras. Em 1974 ele era um cara jovem em busca de provação e construção de legado inicial que todo diretor tem tesão em conseguir, e somado ao caráter de escassez de verba, o cara inventa o Massacre. A posteriori ele viria a passar dos pontos conhecidos e estabelecidos (de bom senso) com sobras. A diferença dele pra outras figuras que se rebolaram no abuso, é que o Hooper teve acesso a orçamentos graúdos, e ao invés de polir seus filmes dum verniz moralmente mais acabado, ele decidiu pisar no acelerador mesmo. Viu uma oportunidade para meter o seu cinema com liberdade de verba (mesmo com as interferências de estúdio de sempre) que o horror não tem muita abertura para tal. Isso o tornou, não uma figura incompreendida por conta da má recepção do meio dos 80 em diante, mas uma peça amaldiçoada mesmo. Com o ranço da sombra de seu primeiro sucesso. O preço da manutenção do caráter autoral por vezes cobra pesado.

A trajetória dum maluco diretor é medida tanto pelo seu legado histórico quanto pela seu autorismo visceral. O Hooper é um caso no qual o segundo item sobrepuja o primeiro. A termos de legado sempre se discute seu filme primordial e algumas citações a materiais dos anos 80, e para-se por aí, algo que me é uma fuleiragem com o cara. Por isso o seu caráter próprio em pensar o horror faz-se presente. Como o encaixe entre cenário e personagens – algo já citado –, e a confluência de temas dentro duma mesma fita no fantástico/horror como desenvolvido no imensamente caro Força Sinistra (Lifeforce, 1985), que em sua construção havia erotismo, horror, cinema-catástrofe e ficção científica. Tudo isto engatado num esquema megalomaníaco de horror catastrófico erótico com vampirismo no meio. Ainda mais quando produzido pela piração da Cannon Group Inc., dos israelenses Menahem Golan e Yoram Globus. Num dos auges de abuso do Hooper. Uma parceria a render 3 fitas e duas delas bastantes controversas, a citada Lifeforce, e a insanidade abusiva Massacre da Serra Elétrica 2, esta última além de ter a responsabilidade em seguir o legado seminal duma obra inesquecível teria de ter tom próprio. Temos um descomedimento total de violência e chacota do material anterior e do próprio gênero. Uma beleza. Resolveu arriscar completamente com um criação de continuidade sua e, mesmo que hajam discordâncias entre Hooper e os produtores da Cannon, ali era o local propício para o esticamento de baladeira cinematográfico que este cineasta invocado queria inventar.

Tobe Hooper e sua companheira de fartos abusos: A Câmera (fonte: Everett Collection)
Tobe Hooper e sua companheira de fartos abusos: A Câmera (fonte: Everett Collection)

Um exemplo de caso em persistência da doidiça é o Combustão Espontânea (Spontaneous Combustion, 1990), que alopra na marmota no nascedouro da condição do protagonista e noutras putarias, como quando os seus pais morrem agarrados ao fogo (literalmente) no sexo; e na condução do Brad Dourif como protagonista até o seu encerramento de forma grotesca e esquisita, onde o sujeito se transforma em energia-barra-fogaréu e some pelo chão. Como um troço desses pode funcionar? Porque a condução do Hooper estabelece clima na absurdidade com direito a caçoada de costumes da paranoia de tempos da Guerra Fria, posicionando os personagens naquele universo com a total consciência daquilo que é o filme e seu protagonista auto incendiário. Temos espaço para drama introjetado na condição daquela figura que não se livra desta maldição. Ele sabia resolver bem um sem-vergonhismo graúdo. Uma qualidade do chefe. Tem de ser foda mesmo pra conseguir imprimir profundidade em narrativas de escolhas e promovidas com o brega pesado no abusivo.

O Hooper passeou pelo auge do exploitation dos anos 70, perambulando pelo descaramento exorbitante dos 80 entre horror brabo e sci-fi, até chegar nos idos dos 90, enquanto suas produções foram entrando cada vez mais no obscurantismo, muitas ainda mantendo qualidades honestas, chegando praticamente ao esquecimento completo nos anos 2000. O que é permissível pela volúpia classificacionista vislumbrar – esquema ao qual sequestrarei aqui para diagnosticar de forma ignorante – pelo menos, 4 fases da trajetória do cara. Isto funciona exatamente por aquilo apontei linhas atrás, o Tobe desenvolve seus esquemas lotados de elementos próprios, mas ainda busca aproveitar o que está em voga dependendo da década na qual se insere em termos narrativos (exageros de linguagem da época e imoderações diversas) e técnicos (efeitos visuais e maquiagem mais desenvoltos, além do cada vez mais farto uso de cores e violência). A fase primeira desenvolvera-se no tom de urgência orçamentária, organização metódica por conta disso, e abarcando a violência áspera que aquela época ensejara, sem piadas, sem dramas avulsos e com plena objetividade brutalizadora com psicopatia próxima ao espectador noste-americanoso, num horror americano vinculado ao interior estadunidense – desde os rednecks malucos à cidade do vampirão, Hooper era tido como grande promessa do horror social e da exasperação da violência nisso –; a segunda consiste num esforço de transição e exagero na década, onde calibrou e catapultou características já existentes, mas com operativo de absoluta agonia e destroçamento descomedido na putaria e totalmente sem filtros culminando em material de porralouquice autorreferencial dentro da Cannon Films; seguidamente temos a terceira época dos já longínquos anos 90, nos quais o Hooper trouxe a reboque o que usara nos 80, mas agora no cinismo mais proeminente e uma cara de ressaca da porra, já que seus métodos eram relegados ao esquecimento e incompreensão em produções de menor porte em orçamento e divulgação, mas contiguamente brutais e com alguns temas simbólicos e incisivos a serem abordados como solidão e loucura; nos anos 2000 temos o fim de uma carreira relegada a muito sangue e tripas nos seus últimos estertores vindo de refilmagens quaisquer e filmes de bestas-feras avulsas, num esquema de manutenção da sobrevivência própria. Um final melancólico dum grande autor do terror, que mesmo no fim ainda tentava propor um cinema minimamente autoral, mesmo quando os projetos oferecidos só pediam automação.

Grosso modo (como deve ser neste caso grosso) o Hooper apostava deliberadamente no grotesco como forma de ação para se conectar com seu público. O horror é primal, tais quais as sensações que o mesmo causa: medo, nojo, repulsa, entre outros. Porém estes são alimentados pelo desejo via adrenalina de contemplá-los. Aquele gosto de sebo que fica quando nos encontramos diante de uma situação inescapável que o alívio como prazer só é proeminente mediante o medo anterior. O sujeito em questão não sabia plenamente disso, como apostava no além desse esquema. Abusava frente a estas convenções estabelecidas, buscando horizontes outros para o ensejo humano via terror. Alguns o acusavam que ele só propunha o grotesco por era só o que sabia aprontar. A frase está errada somente pela questão do termo somente, mas que o cara era um especialista nisso, com toda certeza. Um cinema sensacional e sensacionalista, utilizando da mais suja podridão humana como aposta para vender uma arte sem freios.

Como vossas figuras perceberam a minha intenção neste texto não foi desenvolver um artigo trabalhado com temas específicos sobre o cinema do monstro, mas, sim, promover um resgate de suas fitas tanto pelas palavras que desenrolei acima apontando filmes, fases e características gerais – sem o aprofundamento necessário – como uma pílula de atenção. Este texto é a ponta de lança daquilo que irei desenvolver sobre o trabalho sensacional deste abusivo cineasta. E assim será através das mais variadas críticas ligeiras que meterei no site daqui por diante e as linkarei neste presente material que vossas criaturas estão a ler (juntamente com outras tantas sobre o cara que aqui existirem). O lance é expor todo o abuso deste seu cinema mostrando as mais variadas mensagens que o cara queria passar através desta sua metodologia arraigada no excesso. As fitas dele eram grossas a abusivas e a dedicação desse bicho merece o melhor trato possível. Seu cinema, e sua coragem de se manter fiel aos seus propósitos sirvam como legado e prova de sua presença no cinema de horror. O mestre é eterno. Vamos a ele.

Tobe Hooper no set de Massacre da Serra Elétrica em 1974 (Fonte: IMDB)
Tobe Hooper no set de Massacre da Serra Elétrica em 1974 (Fonte: IMDB)

Críticas

O Massacre da Serra Elétrica (Texas Chainsaw Massacre, 1974). Por Ted Rafael
Poltergeist - O Fenômeno
(Poltergeist, 1982). Por Rafael W. Oliveira
Devorado Vivo (Eaten Alive, 1976). Por Ted Rafael

Comentários (2)

Caio Jr. | sábado, 01 de Maio de 2021 - 07:55

Diretor de um filme só?

●•● Yves Lacoste ●•● | sábado, 01 de Maio de 2021 - 12:10

Sim senhor. Acho a filmografia do Hoper irregular. Criou o ímpar e indiscutível Learherface, mas o resto não passou de resto.

Caio Jr. | domingo, 02 de Maio de 2021 - 10:39

Ele fez o primeiro "Massacre..", e "Poltergeist"(ou não), mas queimou os filmes do Leatherface naquela sequencia boboca.

Ted Rafael Araujo Nogueira | domingo, 02 de Maio de 2021 - 11:52

O massacre 2 acho sensacional. Exagera propositalmente existindo como um sarro violento ao cinema. Vide o pôster copiando Clube dos 5, ou no absurdo do duelo de motosserra. Segue o caminho avesso do esperado. É joia.

Caio Jr. | segunda-feira, 03 de Maio de 2021 - 04:40

Nossa, o Ted deu a opinião dele. Mas tu deu uma resposta bem de "trouxa" em Yves. "Eu sou desse planeta, é claro que eu conheço!".
Não é à toa que não se discute mais cinema por aqui, que as pessoas são afastadas. É de uma estupidez....

●•● Yves Lacoste ●•● | segunda-feira, 03 de Maio de 2021 - 12:21

"Ele fez o primeiro "Massacre..", e "Poltergeist"(ou não)"

Se vc rever o que disse vai entender pq falei. Falei pra vc e nãopro Ted. E nao vi nada de estupidez, de trouxa nem coisa parecida. Falei normal. Você que interpretou de outro jeito. Ou seja, se enganou duas vezes.

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