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Zé do Caixão - Parte 1: O Monstro Descordial

O maldito das fitas escrotas contra as raízes da jumentice civilizada

Zé do Caixão. José Mojica Marins. Nascido numa sexta-feira 13 de março de 1936, completaria neste mês sexta 84 anos, e exatamente numa sexta-feira 13. E nada mais justo que homenagear o guru terrorífico neste mesmo mês em que o dia simbólico existe. Mestre do horror. A minha intenção aqui é discorrer sobre sua obra encaixando-a não com uma biografia linear, mas, sim, apontando como vários acontecimentos influenciaram as obras debatidas aqui, através de um direcionamento histórico, social e moral bem específico. A história. A criação principal do cara fora inventada, usada, avacalhada, estuprada, ressignificada (das mais variadas formas) e esculhambada de todo jeito, mas o Zé é a ideia de personagem de horror absolutamente nacional com idiossincrasias próprias em cenários conhecidos bares, favelas, terreiros e o escambau. É da galera, tendo direito a uma união ao tradicionalismo do cinemão também. O terror ocidental ancestral citado, dos monstros clássicos europeus, buscava ter em sua gênese um encaixe histórico justificando sua identificação com um público afeito àquele material. Contudo, não com um protagonismo ideológico tão exacerbado tal qual o Zé, e, ao mesmo tempo, conseguia abertura para outras plateias. Assim fora com Drácula, Frankenstein e A Múmia, por exemplo. Figuras trágicas e escrotas com trajetórias de maldição sendo concernentes à aceitação cultural. O nosso é popular à sua maneira. Desde o perambular pelas cidades ao discurso escrachado com alguém entendendo o poder exalado, e do povo que pode escutá-lo e a ele obedecer, já que fracos assim o são. Desde já esta característica do Zé permanece até o seu derradeiro fim (fim?). Ora. Baseada em clássicos sendo difundidos e que adaptados no cinema criaram regras do gênero. O cara toma de assalto o visual destas figuras, mas parte para o caminho contrário do sobrenatural. O próprio já é uma peça desacreditando isso. É o cara que come o frango da macumba e joga na parede o crucifixo do carola católico. 

A intenção desse artigo é tecer uma linha de análise que permita mostrar o fiasquento cabra da cartola tendo sua essência na terra brasilis. E isto não pode nos ser negado. Não temos aqui a versão de um Drácula tupiniquim, ou Nosferatu, ou qualquer estrangeirismo que o valha. Temos fatores externos, sim, mas o material é de orgulho nosso. E é desse caráter ao qual falaremos. As raízes da existência. Não somente da filosofia delirante, escalafobética e genial por ele exposta, mas de sua gênese histórica cheia de personificação crítica a elementos vulgares e invulgares de nossa sociedade através do tempo. Porque até o tempo merece ser vítima de um vil, principalmente se for um passivo. Com passivos o Zé não tem conversa. Ora, se temos algo a diferenciá-lo dos vilões citados é o tom grave das suas percepções sociais, morais e ideológicas, enquanto aqueles outros animais se portam de forma clássica ao objeto literário inicial. O nosso vai no caminho inverso e abarca o exagero como princípio, a filosofia e violência como meios e a hereditariedade como fim. Total e absolutamente ativo na gestação de suas tensões e ações.

O nosso personagem-objeto já está na seara mítica, e, como tal, é fruto de período histórico específico. O Brasil do começo dos anos 60. Aqui crescia a influência de obra usada por mim, com o intuito de tecer rápida análise do significado deste tão vil e invocado personagem através de um clássico livro de história. Raízes do Brasil, por Sérgio Buarque de Holanda. Ora essa, tal figura nefasta do coveiro existe com seu dinamismo ligado a elementos dramaticamente nacionais, mesmo se apropriando daquilo que funciona de outras origens ocidentais. Mas sob que aspectos podemos encaixar este material da história com a criação do Zé do Caixão? Sérgio propõe em sua obra que a nossa evolução não parece ser nossa. Nos faltaria um trato menos descompensado na questão de identidade nacional. E isto é vinculado mediante várias questões, desde o clima ao trato político e social. Sim, mas o que diabos isso tem com o nosso chapa Zé? A colonização brasileira e suas intempéries e consequências. Os ibéricos (portugueses e espanhóis) eram tidos como figuras liberais no trato com a esfera colonizatória. Que isto fique entre aspas gigantescas. A herança cultural. Eles se permitiam associar sua cultura com a de outrem. Com a dos dominados. Obviamente, isto não impede em nada os genocídios perpetrados, não embaçou em droga alguma a hecatombe escravagista do Atlântico, que proporcionou ao Brasil a negativa liderança dos números e destroços de seu próprio projeto escravagista com 300 anos disso. O tom liberal que por ventura tivessem não mudou esta questão. Por isso é sempre bom ter o devido cuidado com o uso destes termos e alcunhas para não esquecermos dos fatos ligados a eles. E daí com tudo isso?

E daí que estes países possuíam caráter organizacional diferenciado, considerado transitório para o resto da Europa. Transitório no que tange à importância dos mesmos como nações modernas, mas tratados como fuleiragens mesmo. Espécies de territórios-ponte. Isto porque estas peças se interligavam de tal maneira aos seus colonizados, o que tornar-se-ia incomum a outros europeus que viam isto – assim como Sérgio Buarque – como uma fraqueza administrativa destes povos. Porra, mas isso parece cruel. A intenção é o enfraquecimento através de fraca hierarquia e não impedia massacres. Pura e simplesmente. Era tão somente uma questão de arrumação coletiva. É aqui que a porca satânica torce seu rabo. A população da cidade ribeirinha na qual o Zé aterroriza é fruto de quê? Duma organização frouxa com um povo absolutamente supersticioso e passivo, não suportando a existência de um ser altamente ativo tal qual nosso coveiro. A frouxidão da estrutura pública é tema debatido pelo autor como ponto nevrálgico de descendência cultural e moral de lusitanos e – a posteriori – brasileiros. Ora, se ainda hoje, na era da informação, ainda temos características de, como diria Nelson Rodrigues, viralatismo, que dirá nos altos dos anos sessenta, com um povo semianalfabeto e sedento por uma ordenança que não se sabia de onde vinha e que se imaginava ameaças inexistentes. Por isso o território é perfeito para o Zé do Caixão surgir. O da crendice. Da falta de informação, falta e busca, na verdade. Porque isto lhes foi enfiado goela abaixo. 

Querem mais pontos de inferência? Cumplicidade com os seus e indolência. Características explicitadas do português/brasileiro a crescer no país. Tem exemplo melhor que a cidade citada? Com gente medrosa e lotada duma suposta moral católica que dever-se-ia impor naturalmente àquilo que dela discordasse. Caráter indolente, né não? Mojica seria a superioridade a esta indolência. O ativo tomando conta das rédeas populares de uma galera com outras preocupações que não se adiantavam além da óbvia ordenança do controle bovino pelo qual eram aloprados. Então a incapacidade sociocultural, tal qual considerada nos moldes europeus, é explicada pela passividade e pela passionalidade, ao invés dum racionalismo necessário a quaisquer figurações políticas. E isto tudo é herdado. Como tal, temos a cidade medrosa, com o tom de tradicionalismo cristão em pauta, também com tom de autoimportância devidamente defenestrado pelo desdém do Zé ao comer carne neste dia, pleno feriado católico, o que sua instituição criminaliza religiosamente, enquanto rola uma procissão ao seu lado, como é feito na sua obra-prima À Meia Noite Levarei Sua Alma (1964). Nada mais que uma tentativa de manutenção tradicional duma sociedade em atraso, e avacalhada em seguida, e usa deste expediente não somente para cumprir ritos sociais, mas no usufruto dos mesmos como freios a todos que os seguem. Por isso lá está o Zé. O iconoclasta incorrigível. Uma resposta ao caráter de atraso carola da população brasileira ali existente, que tinha receio, terror e os caralhos de um coveiro com ideias fortes. O mesmo crescendo sobre eles com facilidade bastando impor discurso e força crítica sobre crenças defendidas com objetivos diversos.

E a tradição? A volta ad eternum ao passado é uma incapacidade de criar? O Zé cria. Por isso desperta tanto receio na galera. A ele independe a história das crenças externas e continuadas gerindo seu comportamento. A sua preferência é causar descontentamento com objeções e imposições àquela turma. Este pessoal existe dentro de um esquema viciado de passividade brasileira, lotado de tradicionalismo cristão e sem capacidade de adaptação coletiva. Impera no povo a tradição, por vezes com motivação imemorial, e não a razão. Tal quais quem? Nossos portugueses.  vem outro ponto clássico do livro, em parte escrutinado aqui: o homem cordial, definição criada pelo autor para classificar o brasileiro como um ser mais preocupado com o bem-estar dos seus do que com uma coletividade social, e isso acessa marmotas outras como corrupção, nepotismo e o diabo a quatro. Aquele ser que vincula organicamente – de forma simbiótica e parasítica, para ser mais coerente e sacana – estado e família no seio da estrutura estatal. Um patrimonialismo dos seus, das suas, dos seus issos. Zé vem para quebrar isso também. Não interessam laços escusos. Só interessa a perpetuidade do sangue, e se lasquem outros vínculos. Ele tem o objetivo de passar sua imortalidade adiante. O homem cordial, pelo contrário, quer as benesses do estado. Quer a moleza permissível, o que para alguns é tratado como diferencial proveitoso para o brasileiro. Não para Sérgio Buarque de Holanda.

Essa ideia de homem cordial acabar-se-ia por dar vulto a um desequilíbrio social e jurídico, enfraquecendo os discursos que se defendia por questões familiares ao fundo e impondo suposta retidão moral. Tal quais os mais variados seres que tanto criticam Zé na trilogia, e, olhe, o Zé não é salvador de porra nenhuma. Ele é a iconoclastia violenta apontada na demagogia da existência dessa turma. Bate de frente com um povo assustado – em desespero com os próprios dogmas alimentados por eles mesmos  que não reage, e se preocupa apenas com a rotina estabelecida, mas defende os seus obviamente. E no Brasil isso viraria um monstro de conduta social descontrolada desembocando na corrupção endêmica como o verdadeiro horror nacional, com o demérito das lideranças políticas, mas diante de um modus operandi corroendo tudo pelas entranhas. O patrimonialismo viciado não aguenta pressão e escrutínio, e, assim, viraria padrão criando resistência, tanto por crer na essência dos seus atos em abraçar tudo pela conjuntura dos laços de família vistos como mais imponentes do que estruturas sociais maiores, quanto por já ter concedido ao povo o tom anestésico necessário. A turma já nascia e crescia sob esta égide; nos maneirismos da cordialidade brasileira viria o futuro “jeitinho brasileiro”. Na superfície era tratado como algo comum e docilizado, mas no campo da macroestrutura nacional isto seria visto como um câncer a ser combatido. A mudança, quando ocorre de forma estrutural desde o seio familiar desembocando no todo, é quase impossível de se reverter. E é isto que Sérgio acusa. Nosso coveiro famigerado bate nisso também, nos supostos cordiais em sociedade que querem o próprio bem-estar, com o caráter de exclusão ao diferente afrontoso. Ah, o Zé é inimigo do homem cordial. Destroçador dele. Estas relações ele abomina, ainda mais quando abraçados a uma moral torpe e frágil. Zé é o caos para a ordem escusa dessa turma.

Cadê a hierarquia? Seria a falta dela, ou liderança, que permitiu ao Zé aterrorizar. Isto é interessante. Quem seria o antagonista a bater de frente com Zé? Quem realmente é a liderança a bater de frente com ele? Podemos citar alguns da trilogia principal, desde os fracos transeuntes de bares do primeiro filme à polícia escrota do Encarnação do Demônio (2008). Quando não vemos a hierarquia desorganizada dos populares – e sem valentia necessária –  vemos uma caricatura do exagero policial agindo, não em organização para com o coletivo, mas com objetivos meramente próprios. Por quê? Zé vai da ação à consequência. De provocador inconteste na primeira obra, vai do perigo real no aumento do escopo do medo – mas sempre com a situação em controle através do terror e do seu discurso –, como é visto no segundo da trilogia, Esta Noite Encarnarei no teu Cadáver (1967). Então, a tal consequência citada vem no derradeiro filme, onde várias supostas lideranças ferem suas condutas morais, o que seus serviços exigem. O policial corrupto e violento e o padre vingativo. Ou seja, a iconoclastia do cara vai de uma ponta a outra. E a herança objetiva n'alguma estrutura de conjuntura comum inexiste. Como disse Sérgio sobre os lusos, o passional destrói o elementar de coordenação e necessidade objetiva. Por isso mesmo o terror perpetrado pelo nosso monstro nacional é de suma importância existencial; ele aponta os podres de uma estrutura social excludente, atrasada e conservadorescamente estúpida. 

Os objetivos da hereditariedade do personagem constituem sua gênese ideológica. Amplamente carregado de filosofia niilista, e racional à sua maneira, junto a isso suas ações de conflito corroboram sua gênese histórica, correlacionando-o como espécie de resistência – marginal, por que não? – ao modus operandi estabelecido. É história, é cinema, é violência, e se impõe como tal, dando lições de forma a mostrar como, sem uma severa força (esta, eu digo, por uma questão de razão) por trás, quaisquer organizações padecem mediante o conflito. E Zé é conflito. É porrada. Chibata. Muitos consideraram seu frenesi da procura pela mulher algo vinculado ao tom eugenista nazista, porém este tipo de besteirol pensante escapa de toda a funcionalidade do personagem como ser eminentemente brasileiro; não está ali para dar lições ou compor o politicamente correto familiar, ou fazer de sua existência qualquer tipo de proselitismo político. Ele está ali com o fim de mostrar como funciona uma parcela comum popular e como ele, Mojica, cineasta, entende isso. E no subconsciente da porra toda, na cabeça do mestre, estão suas influências cinematográficas e seus atributos sociais e morais adquiridos. Neste campo de interpretação do material dele, muitos pesquisadores, estudiosos outros e companheiros de câmera analisam o cinema do Zé sob algumas perspectivas. Entre elas existem duas frentes relacionadas às obras de Buñuel e Nietzsche. Tudo isso no caráter de subliminaridade da coisa. O meu ponto é que existem outras vertentes além destas tão subrepticiamente comentadas.

O jogo do Zé é no substancial das ações e como estas vieram a existir numa hereditariedade passada do meio intelectual para o popular e vice-versa. Isto deixado pelos antigos colonizadores como legado, para o bem e para o mal, e o próprio cinema mojiqueano viera a abraçar, seja de forma crítica ou na base da busca pelo puro entretenimento, em busca de um lugar ao Sol e de encher os bolsos, claro. Por isso seu primitivismo, alcunhado por um Glauber Rocha em êxtase, não é pernóstico ou rotular, mas sim assumido como a existência da figura que, sem o preparo acadêmico, fora lá e expusera sua arte com um enriquecimento popular não visto em muitos de seus pares contemporâneos mais abastados. Não por falta de tentativa ou qualidade deles, mas sim por questão de classe. Mojica é da galera e como tal entende o povão por osmose e não por análise de conjuntura com o distanciamento que esta questão de classe e o academicismo implicam. O primitivo por condições e gigante pelos resultados. Ou seja, ele não precisou ler a porra do livro. Mas é uma interpretação do próprio por suas vivências e exposições fílmicas.

Então, o Zé, além do terror marginal autocorroborado ad infinitum, seria também um registro de uma puta anarquia perigosa em combate a toda forma de controle, não uma possuidora de estrutura concebida com bases sólidas, mas, sim, com um coleguismo falso e assassino, tal qual os colonizadores com sua noção da falsa solidariedade sem findar a exploração. E de forma estupidificante também avacalharam relações internas com algo agora maior que o tal coleguismo entre os seus, mas sim um esquema de uma vaca gigante e seu hospedeiro sanguessuga correspondente  aliás uma colônia inteira destes. Com todos os amigos a participar. Acabando com esta vaca, inicialmente por dentro, tirando suas forças e mantendo-a sobrevivendo anestesiada. Este é o homem cordial. Este é o atrasado pela crendice. Se abraça com os seus, feito um animal acuado que resiste destroçando o seu meio, independentemente do que se apresente. Este é o Brasil. Está por aí, e não temos um Mojica físico na área, mas temos um legado de um Zé escroto, chafurdando no imaginário de quem se permitir a aloprar o próximo.

Texto integrante do Especial Zé do Caixão

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