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Diário do Festival do Rio 2015 - Dia 3

Cai a chuva no Rio de Janeiro, e eu passo o dia correndo de um lado pro outro molhado e espirrando, já aguardando a gripe. Por enquanto, é dia de botar a mão na massa e conferir mais um grupo de filmes e passar a vocês as informações quentes desse Festival do Rio, mas cuidando da saúde para não sair de cena antes do fim da jornada. Hoje foi o dia de conhecer uma sala do Centro Cultural da Justiça Federal (CCJF) que eu nem fazia ideia da existência, tinha por mim que era apenas uma sala minúscula por lá mas o espaço conta também com essa outra de mais de 200 lugares, bonita e bem projetada, com projeção de ótima qualidade. Fiquei satisfeito, pois irei ainda outras quatro vezes por essa sala durante o Festival e não queria me estressar.

Hoje também tive oportunidade de conferir outra produção nacional que compete numa mostra paralela à disputa pelos Redentores, chamada Novos Rumos. Essa seção geralmente deveria abrigar produtos de experimentação estética mais elevada, mas de uns tempos pra cá o Festival tem borrado as linhas que separam esse tipo de filme dos demais, e hoje temos o que seriam duas competições acontecendo, sendo que a Rumos só entrega troféu de melhor filme. Esse filme de hoje desse grupo (Jonas) foi uma mostra do que acabei de falar, um filme de aceitação fácil e manejo popular bem claro, mais uma espécie de Romeu e Julieta tupiniquim e repleta da realidade da bandidagem de hoje nas grandes cidades, no caso São Paulo.

Também creio que a chuva tenha afastado as pessoas da maratona e talvez por isso eu tenha encontrado sessões tranquilas e sem alvoroço nem lotação. Em compensação, os amigos marcaram presença mais uma vez, e os debates continuam rendendo discussões sensacionais. O fato de estar rodando tanto pela cidade deve ser encarado como algo positivo também por estar em contato com pessoas tão diversas, lugares tão distintos que trazem diálogos tão ricos que dificilmente encaro com sacrifício; por enquanto eu to querendo é mais, até porque esse ainda foi o terceiro dia de evento, né? Querem saber de mais filmes, né, então vou falar das coisas que assisti hoje; espero que curtam:



Rainha do Mundo

O cinema de Alex Ross Perry ainda começa a se desenhar. Ele é muito jovem (31 anos) e está somente no seu quarto longa metragem, mas já começa a provocar um certo alvoroço, mesmo que seja no público seleto do cinema indie americano. Mas o cinema indie de verdade, não aquele filme que foi produzido com pouco dinheiro mas tem astros e estrelas e poderia ter sido feito com muito mais. O espaço que Perry representa hoje é o mesmo onde também estão os irmãos Duplass, David Gordon Green, Joe Swanberg e outros expoentes de um novíssimo e baratíssimo cinema, quase uma ação entre amigos, sempre com elencos parecidos e na maioria das vezes com resultados maravilhosos, como é o caso desse aqui. Perry tinha vindo ao Festival do Rio no ano passado com seu excepcional Cala a Boca, Philip! e volta esse ano já olhando para um lado completamente diferente do humano.

Se a pegada anterior era numa "vibe Woody Allen chafurdado na amargura", a coisa se adensa agora. Não há muito espaço para o humor, e no pouco lugar disso temos a impressão de que se ri para não chorar, para não matar ou não se matar. O filme observa o relacionamento entre as amigas Catherine e Virgínia, a primeira à beira da depressão e a segunda pagando por um carinho e um desvelamento que já tinha ocorrido em vice versa no ano anterior. Elas estão na casa à beira do lago da família de Virginia e só querem ficar sozinhas se ajudando mutuamente. Mas aos poucos a instabilidade emocional de Catherine começa a trazer de volta todo o furacão do ano anterior e fazer com que também esse ano nada seja fácil, e vá se tornando progressivamente mais difícil e insuportável, quando ambas começarem uma guerra de nervos, deboche e muito ressentimento transformando a atmosfera numa bomba relógio.

Independente de Perry detonar na direção aqui, da fotografia ser um absurdo de fantástica, da montagem e da trilha serem incríveis e o próprio roteiro só escorregar no final quando reside se debruçar muito num terceiro elemento, as atuações de Katherine Waterston e principalmente Elisabeth Moss são de uma entrega e uma visceralidade que não se vê na galeria de jovens atores americanos. Enquanto a primeira joga também com a doçura em cena, a segunda é simplesmente avassaladora desde o primeiro até o último plano, e acabam provocando a discussão e a urgência que essa produção (que tem uma pegada boa de 'Martha Marcy May Marlene') tem, um tratado sobre o desfacelamento das relações humanas hoje, onde até quem você mais ama acaba sendo uma pedra no sapato graças ao egoísmo generalizado. Um senhor filme.

Nota: 9,0
Título original: Queen of Earth



Tangerina

Vencedor de um prêmio paralelo no Festival de Sundance desse ano, o diretor Sean Baker veio com duas propostas pelo menos inusitadas: a primeira seria filmar um longa inteiramente através das câmeras de iPhones, e lá foi ele. Se em tese isso poderia se mostrar algo cheio de diferencial e curioso, o resultado deixa claro que hoje em dia celulares modernos podem sim ser capazes de rodar um filme com resultados bem satisfatórios e praticamente sem grandes diferenças ou perda de qualidade gritante. Ou seja, a novidade acaba não dizendo muito a que veio e nos resta então a diversão número dois, que seria acompanhar uma produção inteiramente estrelada por transexuais.

Óbvio que alguma ou muita diversão conseguimos extrair somente dessa situação em si, isso vai depender do grau de interesse e envolvimento de cada um com o universo trans. O linguajar típico da comunidade LGBT e os muitos conflitos onde a dupla de protagonistas se enfia provocam risadas e alto astral praticamente do início ao fim do filme. Mas confesso que particularmente o filme me perdeu quando deliberadamente escolhe lá pelas tantas ter um roteiro mais fechadinho e parar de apenas seguir a dupla. O problema é que o filme passa a exigir ser "tratado como um filme" propriamente, e aí precisamos a exigir dele como tal, o que faz os problemas pularem sem parar. 

Não apenas o roteiro que se segue é mal escrito, estereotipado e atolado em clichês, como faz isso tudo de forma quase amadora. Tecnicamente nem tem muito o que exigir dadas as limitações da situação (embora o filme nem envergonhe o espectador), mas se temos um elenco praticamente uniforme, triste é perceber o quão amadora é justamente nossa protagonista, Kiki Rodriguez. Enquanto todas as outras trans soam naturais e espontâneas, incluindo a co-protagonista Mya Taylor, Kiki é muito iniciante para dizer algo bem mais suave do que a realidade. E se não deixa nada a dever como trans, como atriz ela é quase vergonhosa. E aí não tem novidade que se sustenta, ainda que o filme divirta bastante. 

Nota: 3,5
Título original: Tangerine

Comentários (14)

Alexandre Guimarães | sexta-feira, 09 de Outubro de 2015 - 12:16 | Responder

Muito legal a opinião de vcs sobre o texto e o festival do rio. Vcs são demais.

Alexandre Guimarães | sexta-feira, 09 de Outubro de 2015 - 12:19 | Responder

Só leio textos que contenham as palavras "falsiane", " beje", "recalque", " kirida", "miga" e "seja Menas".

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