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O Oscar foi quase trágico

O Oscar foi quase trágico. A começar pela dupla de apresentadores que não segurou a onda e protagonizou uma das cerimônias mais mornas e de discursos mais chatos da história. Tudo foi muito ruim. James Franco parecia estar com cabeça em um universo paralelo, enquanto Anne Hathaway não encontrava o tom ideal – deve estar procurando até agora. Ao vê-la brincar com Hugh Jackman na plateia, deu saudades do antigo mestre de cerimônias, que conduziu uma das melhores premiações recentes.

Quanto aos vencedores, previsível sempre que justo, e lamentável quando escancarou o conservadorismo da Academia. E por isso os discursos foram chatos e cansativos. A verdade é que os sindicatos acabam com a graça ao deixarem bem claro quem serão os consagrados no Oscar com algumas semanas de antecedência. A cerimônia chega e é tudo frio; surpresa é raridade. A Academia podia entrar em acordo com os sindicatos e deixá-los votar com exclusividade em suas respectivas categorias – o que só acontece na hora das indicações - em troca da extinção de seus prêmios paralelos. Se isso não mudaria os vencedores, ao menos traria emoção.

Mas, justiça seja feita, todos os prêmios de atuação foram entregues a quem deveria: Christian Bale, Melissa Leo, Natalie Portman e Colin Firth. Mas, comentar o justo não é necessário, já que tudo ocorreu dentro do script – talvez a cerimônia tão quadrada reflita o filme que consagrou. A verdade é que O Discurso do Rei só não merecia sair de mãos abanando do Kodak Theater por causa de seu protagonista. Mas é sempre assim, o melhor dificilmente ganha. A lógica dos acadêmicos deve ser mais ou menos essa: a de premiar aquele que seria esquecido e deixar o melhor ser consagrado pelo tempo.

Chega a ser ridículo a gagueira de George VI bater a inventividade complexa de A Origem como melhor roteiro original. Ao mesmo tempo em que a direção correta de Tom Hooper era infinitamente inferior a de todos os seus colegas, inclusive ao trabalho do não indicado Christopher Nolan, de A Origem. É estarrecedor Hooper ganhar. Nem mesmo a Academia Britânica, país de produção de Discurso, teve coragem de premiá-lo, preferindo o encantador trabalho de David Fincher em A Rede Social.

Mas nada é tão ruim que não possa ser piorado. Em mais uma total falta de sutileza, os dez indicados a melhor filme foram apresentados em um vídeo no qual o Discurso do Rei se destacava dos demais. Nem precisava abrir o envelope. Era passar a apresentação, desligar o data show e ir embora.

Mas, o cerimonial tinha que ser seguido e lá veio a consagração da realeza.

É muito triste para quem gosta e entende pelo menos um pouco de cinema ver essa produção inglesa vencer. Como bem disse meu colega Régis Trigo em seu Twitter logo após a cerimônia, “O Oscar vai fazer mal p/ O Discurso do Rei. Um filme razoável que, com o peso do Oscar, se tornou instantaneamente péssimo”. Discordo da avaliação feita sobre o longa (gosto dele), mas a linha de raciocínio é impecável. A produção teria mais crédito por si só, mas com o Oscar será alvo de mais críticas e se tornará, aos olhos de todos, pior.

Mas, tudo é tempo e muitas vezes os derrotados são os vencedores, já que ficam para a história como grandes filmes incompreendidos em suas épocas. O Discurso do Rei é bom, mas independente de gosto não deveria ter sido premiado. Gosto, por sinal, deveria entrar em campo para optar entre duas obras distintas que se equivalem em qualidade, e não para premiar algo menor que precisa de tal rótulo para sobreviver. Talvez a campanha milionária em torno da produção, com investimentos superiores a 10 milhões de dólares em marketing durante a temporada de premiação, tenha cegado alguns, mas à crítica tudo parece claro: vergonhoso!

Sem nenhuma dúvida, A Rede Social, Cisne Negro, Toy Story 3 e A Origem são infinitamente mais relevantes que o vitorioso. Quem perde? O público menos informado que terá como referencial de qualidade o correto O Discurso do Rei. Ao tentar preservar a arte no cinema, a Academia incentiva a mesmice narrativa e, por mais que eu enxergue qualidades no longa vencedor, só posso constatar o exagero que aconteceu na noite deste último domingo.

Comentários (3)

Marcus Almeida | quarta-feira, 07 de Setembro de 2011 - 23:14 | Responder

Premiações ruins + péssima apresentação = Oscar fail.

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