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Críticas

Cineplayers

O fim de uma era.

6,0
A ideia de um Bond renovado, mais sério e realista, impiedoso e lotado de conflitos morais, foi aceita por um público que mostrava sinais de cansaço com uma figura intocável e ajudou a renovar o interesse por uma franquia que caminhava para a aposentadoria com um filme mediano atrás do outro. James Bond canastrão, beirando o surreal, cartunesco e, porque não, antigo havia sido deixado de lado pela personificação muito mais máscula de Craig para o personagem em 007 - Cassino Royale (Casino Royale, 2006), claramente inspirado por um Jason que fazia sucesso na época. Bond agora dificilmente ri, e quando o faz, ou é de forma irônica ou porque sabe que vai traçar alguma das muitas mulheres que passam em seu caminho. A peça de museu havia sido atualizada.

Seguindo a clássica ordem natural das coisas, este 007 Contra Spectre chega aos cinemas não apenas com tom de despedida de mais uma fase cíclica do personagem como questionando novamente esse papel do homem super espião em um mundo cada vez mais digital e controlador. Na sinopse, em paralelo pela busca do assassino de M, Bond deve enfrentar uma crise na sua agência, já que os espiões 00 estão sendo considerados ultrapassados pelos recursos tecnológicos hoje disponíveis. A discussão que aconteceu naturalmente quando houve a troca de postura do personagem acontece de novo, forçada por um roteiro que não sabe muito bem o que fazer com seus personagens, enfraquecendo novamente um personagem que começa a implorar por mais uma renovação.

Ao mesmo tempo em que começa com uma cena de ação espetacular envolvendo um helicóptero – constante durante todo o filme, lotado de cenas marcantes de porrada, tiroteio e perseguição -, o principal mote que move a história é o seu lado dramático perante à situação moral e psicológica em que se encontra seu personagem título. Ou seja, a ação espetacular acaba ofuscada por, dessa vez, não ser o interesse real do momento que vive o personagem. A história de Spectre, para funcionar, dependia fundamentalmente dos personagens se encontrarem em tela, que não é o que acontece.

Bond é o menor dos problemas, afinal, continua agindo como sempre agiu: de maneira irresponsável mas eficiente, se envolvendo com belas mulheres e impiedoso com os inimigos. Algo que, nessa era Craig, trazia complicações para a consciência do personagem; culpado por tantas mortes nas suas costas, ele não é mais o mesmo e isso é visível. Só que os personagens que cruzam o seu caminho não recebem o mesmo tratamento.

Monica Bellucci só serve para abrir as pernas e depois nunca mais aparece, o que é uma pena, já que é uma baita atriz e poderia ter sido muito melhor aproveitada. A Bond Girl Léa Seydoux surge totalmente sem sal, mas logo depois coloca um vestido colado e age de maneira sexy, evocando a sensualidade que tivera em Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d'Adèle, 2013) e provando que, sim, poderia ser uma Bond Girl digna – a impressão de que dá no começo do filme é que ela seria engolida por Craig. Já Ralph Fiennes, agora com nariz, demonstra um M eficiente não apenas atrás das mesas, com a pose elegante que um homem de seu cargo deve ter, como também quando é exigido nas cenas de ação, afinal, ele precisa ir a campo para salvar sua corporação.

A broxada inacreditável ficou por conta dos vilões, algo que sempre foi um dos pontos fortes da série. Quando soube que Christoph Waltz seria um dos escolhidos, tive a certeza de que não poderia dar errado, afinal, o ator vinha de trabalhos magníficos, um atrás do outro: foi um dos personagens mais marcantes dos filmes de Tarantino em Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, 2009), depois um anti-herói eficiente em Django Livre (Django Unchained, 2012), além de ter trabalhado com uma série de diretores renomados como Roman Polanski e Tim Burton até ser escalado por Sam Mendes para viver o grande vilão Oberhauser. Até que ele começa bem, impositivo, uma figura realmente ameaçadora, mas que com o desenvolvimento imposto pelo roteiro, acaba bobo e caricato, ainda que sua maquiagem tenha ficado bem legal. A questão é que Bond sempre teve vilões icônicos e este Oberhauser de icônico nada tem, é um personagem totalmente esquecível e incompatível com o status que o filme lhe dá e o ator que tem.

O mesmo pode ser dito do gigante Hinx. Claramente inspirado em um dos personagens mais famosos da franquia 007, o Jaws de 007 O Espião Que Me Amava (The Spy Who Loved Me, 1977) e de 007 contra o Foguete da Morte (Moonraker, 1979), Hinx é apresentado ao público como um personagem ruim de coração e com unhas poderosas, que foram mostradas como sua principal arma. Obviamente que isso iria render problemas para Bond, certo? Não, pois o roteiro sequer chega a usar sua vantagem contra o personagem. Imperdoável e um erro até amador. A conclusão dada para ele também é tão abrupta que causa decepção instantânea ao constatarmos que ele saiu da história daquele jeito mesmo.

A decisão de trazer fim ao ciclo acaba enfraquecida por vilões que foram bem construídos mas mal utilizados, interesses românticos repentinos e forçados (quem já viu deve concordar que tudo foi fácil e irreal demais, mesmo para Bond; não falo nada mais para não estragar nenhuma surpresa) e uma história que não consegue concluir bem sua proposta de unir tematicamente todos os Bonds da era Craig; tiveram a cara de pau de usar apenas fotos para isso. Se fica atrás na canção tema e tensão para Skyfall, em roteiro e desenvolvimento para Cassino Royale e nem o pior filme consegue ser porque é melhor do que Quantum of Solace, acaba sendo um filme mediano em tudo, mas que era vendido como a obra máxima de Bond, partindo daí parte da decepção. Acontece que o filme não é ruim, pois tem cenas de ação que conseguem suprir a diversão (são as melhores dessa nova geração, uma espetacular atrás da outra) e diálogos bem escritos (adorei a metáfora da pipa no furacão), além de locações e alguns planos maravilhosos que agregam certo valor à obra. É necessário ser justo com ele.

Craig ainda tem contrato para mais um filme e recentemente desistiu de sair da franquia, permanecendo nela pelo menos por mais um filme e cumprindo o seu contrato original de cinco do personagem. Mas sinceramente, depois do modo como o arco desse Spectre se concluiu, não vejo muito para onde a história desse atual Bond pode ir e nem há tempo suficiente para um novo ciclo começar. Vamos ver o que farão com nosso espião querido mais uma vez.

Comentários (20)

Alexandre Koball | quarta-feira, 20 de Janeiro de 2016 - 07:50 | Responder

Eu gostei, é a volta do 007 fantasioso, exagerado. Às vezes, realismo é ruim.

Vinícius Dalla Corte | quinta-feira, 04 de Fevereiro de 2016 - 15:44 | Responder

Um filme digno de nota 6, clichês e mais clichês durante o filme todo, o espectador consegue prever o que vai acontecer nas cenas seguintes, tirando momentos de surpresa. Claro que há excessões como na parte inicial que foi muito divertida. Ao contrário do que o Alexandre disse, na minha opinião, um 007 mais realista é mais convincente. Em relação ao vilão, o ator é muito bom, mas nesse papel não conseguiu convencer nem um pouco sua maldade, lembro que em Skyfall o vilão Silva era muito mais sinistro e cruel, se a culpa é do roteirista que não deu oportunidade para explorar o personagem ou do próprio ator isso não sei dizer. Espero que tenha mais um filme com Daniel Craig, apesar de parecer que fecharam a saga com esse último.

Gustavo Aguiar | quinta-feira, 03 de Março de 2016 - 15:40 | Responder

Esse filme é muito fraco, o pior dessa fase do Daniel Craig, agora a abertura e a musica inicial são MTO FODAS.

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